NOTICIAS DO RIBATEJO EM SUMARIO E ACTUALIZADAS PERIODICAMENTE - "A Imparcialidade Na Noticia" - UMA REFERÊNCIA NA INFORMAÇÃO REGIONAL -
Domingo, 9 de Julho de 2017
Memórias da avó Placidina (cont.)

FLORBELA

Por: Florbela Gil

 

Depois de andar a servir, vim morar novamente para Alcanena. 

E casei!
Novamente começaram os problemas.
Meu marido era um ignorante. No dia do casamento, ele julgava que ia matar uma vaca. Mas eu...., se minha mãe me deu ao mundo honrada, assim fui até casar com ele. 
Mas fui uma amargurada. Dizia-me coisas que eu não percebia o que queriam dizer. Fui procurar uma vizinha, para ela me explicar o que queria dizer," ainda vais mijar ossos". Uma expressão que ele utilizou. Ela não sabia o significado.
Pensei em ir a um médico em Pernes, pois era mais perto de onde morava. 
Riu-se de mim, pediu desculpas pelo que disse.
Eu queria deixá-lo, mas minha mãe pediu-me tanto, para não o fazer porque era uma vergonha.
Não me deixava usar manga curta, queria, não podia andar com o cabelo á mostra, não me deixava usar sapatos. Queria que eu andasse  descalça. Mas isso eu não deixei.
Fazia os meus sapatos de cutim, com solas de borracha, e solas de corda, e ficavam bem jeitosas. 
Muita vez lhe disse que não o perdoava.
 
O tempo ia passando, e ele queria que eu engravidasse, como não acontecia, dizia que eu não prestava.
Eu respondia,"deixa-me". Então batia-me. 
Sem dinheiro para nada, ficava fechada em casa. Ele era pedreiro, mas não havia trabalho, lá fazia 23 dias, às vezes. 
Era a minha mãe, que me mandava coisas para comer, e pão.
Mais tarde, começou a haver obras. A câmara de Alcanena iniciou a construção do cinema. Uma fabrica grande do sr Mota (curtia peles dos animais), outras fábricas se começaram a construir, por outras terras ali á mostra volta.
Bem, assim fui andando com muita privação, e dificuldade.
 

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 «Uma das páginas do 'Diário da Avó'»

 
Ele mal falava para mim, eu desconfiei que ele andava metido com uma (p).... um dia escondi-me em casa, mas disse-lhe que ia á minha mãe. 
Lá foram eles para dentro de casa, ouvi a conversa toda. Ela dizia-lhe,"- bate-lhe , se lhe batesses ela ia embora." Ele respondeu, que não tinha razão para me bater.
Toda esta conversa passou-se na cozinha, depois foram para o quarto. Mas ele disse para ela," -vamos embora que ela pode vir".
 
Mal sabiam eles que eu estava a ouvir, á espera com um pau para dar nos dois, quando estivessem no "molho".
Mas acabaram por sair para rua. Fecharam a porta, eu estava lá dentro.
Nisto fui quarto, peguei no punico, cheio de urina, abri a porta e arrimei-lhe para cima dela, ralhei muito, gritei até não poder mais ela fugia á minha frente. Ele ficou tão surpreso que nem se mexeu. Não foi atrás dela, nem de mim.
A ele nada disse, nem queria olhar para ele.
Voltei para casa. Ele, não sei para onde foi, desconfio que para a taberna.
Á noite, entrou em casa, pôs dinheiro na mesa e pediu para eu fazer o comer. Não dei uma fala, mas fiz o jantar.
Minha querida mãe me apoiava, me dava força, e pedia para eu não o deixar. 
Dizia-me,"- filha, ele quer filhos, por isso foi ter com outra, tens que lhe dar um filho." 
Eu não tinha a culpa de não engravidar, achava eu. Mas ele acusava-me de ser seca. Fazia com que me sentisse culpada. 
 Assim fui vivendo muito triste, aguentando as bebedeiras, maus tratos, para não me separar, porque era uma vergonha.
 Até que engravidei ao fim quatro anos de casada.....
 
Nova etapa se avizinha, meus queridos leitores. Aguardem.

 

 



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A DIFÍCIL TAREFA DE SER MULHER

MARINAMALTEZ

Por: Marina Maltez

 

A DIFÍCIL TAREFA DE SER MULHER

 

“Quer conhecer o verdadeiro carácter de uma pessoa, dê o poder a ela.”

Nicolau Maquiavel

 

Talvez das piores coisas que pudemos fazer a nós mesmos seja permitir que outra pessoa assuma o comando da nossa vida. Dar-lhe a caneta, o livro e permitir que redija a nossa história a seu belo prazer, moldando-nos como bonecos e anulando tudo o que nos define na nossa essência original.

Mas talvez seja precisamente o que fazemos com uma frequência assustadora, numa quase sempre sede insaciável de sermos amados e aceites. Seja pessoal ou profissionalmente. E por norma, quem quebra esta norma sagrada de agir em conformidade com o que dela se espera é votada ao exílio, rotulada de diferente, de doida, de esquisita, arrogante ou imoral.

“Não digas essas coisas, as pessoas podem não interpretar bem”. “Não escrevas dessa forma, pensa nos comentários que te podem fazer”. “Não te vistas assim ou muda o teu cabelo, o que vão pensar de ti?”.

Simples. Se estamos magras é porque somos anorécticas e fazemos dietas malucas. Somos um palito, um saco de ossos. Se estamos com uns quilos a mais somos desleixadas, até podemos viajar para o Algarve que temos bons pneus suplentes. Se arranjamos o cabelo somos vaidosas. Se o apanhamos somos desleixadas. Se damos resposta somos mal-educadas. Se calamos é porque não temos personalidade.

Se usamos mini-saia somos oferecidas. Se o vestido for longo andamos armadas em princesas. No fundo é-se presa por ter cão e por o não ter. E que se esclareça que não sou feminista. Homem e Mulher completam-se. Ou assim devia ser.

Aquilo que me irrita nesta sociedade é a forma como a mulher continua a ser tratada e descriminada. Quantas mulheres temos em cargos de poder? Ok. Até temos um partido político liderado por uma, mas lá está alguém que por ter atingido o poder provavelmente se corrompeu pelo mesmo, porque as suas declarações enquanto oposição em nada se assemelham com as afirmações que faz agora como parte integrante do governo. E isso não dignifica a Mulher, como Ser. Pelo contrário dá aquele ar de alpinista social que larga o chinelo para a sandália mas continua a ser santo com pés de barro.

 

Sem Título

 

Então quem são as mulheres de hoje? Aquelas que ainda vão a entrevistas de emprego (se tiverem menos de 30 que a partir daí são velhas) e têm que afirmar não projectar filhos, porque cuidar duma criança pode comprometer o rendimento laboral.

Exagero? Infelizmente não. Realidade. E basta ver que a taxa de namoro violento aumentou. Miúdas em plena adolescência e que já permitem que os namorados determinem a cor do verniz ou decidam o seu almoço, as mesmas que fazem de Portugal um país com uma assustadora taxa de mães adolescentes.

Não seria hora de haver uma real educação feminina, no sentido de dotar a Mulher das ferramentas necessárias para impor a sua igualdade? Porque não se trata aqui de uma guerra de sexos ou de mandar mais ou menos, trata-se de haver igualdade, uma sociedade mais justa, equilibrada.

O caminho será ainda longo. Mas faz-se caminhando, com vontade. A força motriz que Einstein considerava mais poderosa que a bomba atómica. A vontade. Vontade de sermos iguais a nós mesmas. Vontade de escrevermos a nossa história. Vontade de decidirmos por nós sem medo de represálias ou preconceitos sociais.

Porque muito já se fez, é um facto. Mas os princípios mais elementares e os preconceitos mais enraizados perduram e esses sim necessitam de erradicação urgente.



 



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Hodierno...

ANAGRACIOSA

Por: Ana Graciosa

 

 

Hodierno...

 

Há um tempo que é novo.

Recomeço sem medos e sem barreiras.

Sentimento de leveza e de certezas.

Conforto da estabilidade.

Viciada incansável de ti.

Das conversas que desencaminham.

Dos sorrisos patéticos que fazem sentido.

Passeios ao som de parvoíces e de risos.  

Sensação boa ao reconhecer as velhas  borboletas adormecidas. Velocidade estonteante do sangue a correr nas veias.

Coração embriagado de paixão.

Ligação excitante e saciante.

Fogosidade avassaladora e intensa de um olhar.  

Um toque que queima.

Um gesto que envolve.

Um beijo urgente de quem não pode esperar mais.

Corpos que se abraçam e interlaçam em uníssono.

Perco-me na fome que me dás e no desejo que me consome.

Estar contigo é o meu lugar preferido.

Dias tranquilos em que visto somente a tua pele.

Ficarás eternizado em mim, no meu coração e na minha vida…



publicado por Noticias do Ribatejo às 07:45
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Mil novecentos e oitenta e tal

ANAFONSECA

 Por: Ana Fonseca da Luz

 
 
 
 
Mil novecentos e oitenta e tal
 
 
Tão pequenos, os dois, e já com tanta responsabelidade, tanto trabalho.
Eles bem queriam ir jogar com a bola que o tio lhes tinha trazido “da França”, quando veio visitar a família, num carro alugado, com ar de grande senhor, mas os figos tinham de ser apanhados, as vacas ordenhadas e os panais remendados.
- Avia-te, Carlos Alexandre, que eu não tenho o dia todo! E tu, Tónho, deixa o pião e vai mas é ao galinheiro buscar os ovos, e é se não queres só comer sopa ao jantar,
- O Carlos que lá vá que ontem fui lá eu, respondia o Tónho, sempre cheio de manha, tentando esconder da mãe, o buraco que tinha feito nas velhas calças de ganga, quando tinha caído da árvore, a tentar olhar para dentro do ninho que a pega tinha feito, e onde ele sabia que estavam dois ovos.
Era nessa altura, que o pai, do alto do seu metro e oitenta, intervinha e impunha respeito, sem sequer abrir a boca, apenas pigarreando e mexendo no cinto que lhe segurava as velhas calças de cutim coçado.
Aí, era vê-los correr, para fazer o que a mãe tinha mandado, antes que o pai passasse à acção
- Ai Joaquim, se soubesses o que me custa os gaiatos trabalharem quase tanto como nós, quando deviam era estar a jogar ao pião, ou a estudar as lições que a mestra os mandou estudar,
- Que diabo, mulher, então tu não trabalhaste sempre desde pequena? E faz-te algum mal?
A mãe encolhia os ombros, para evitar discussões e mexia a sopa, mas com o coração atormentado por os filhos, tão pequenos, já fazerem trabalhos tão grandes.
Pela janela, via-os traquinar e acabava por se rir. Eram bons meninos, os seus.
- Despacha-te com os ovos, Tónho, gritava o pai com o cigarro há muito apagado no canto da boca, e tu, Carlos Alexandre, avia-te com as vacas que temos que ir pôr os figos à seca, e olha que são muitos este ano, que a figueira já vai corcunda com o peso...
À noite, cansados, tinham ordem para ver televisão durante uma hora, para que não se gastasse muita luz.
Caíam na cama e sonhavam com o jogo da bola, com o pião e com o ditado que iam fazer no dia seguinte na escola.
Corria o ano de mil nocentos e oitenta e tal.
A televisão lá em casa, ainda era a preto e branco.
Não havia, nem internet nem telemóvel.
Havia um pai, uma mãe, sempre presentes.
Os meninos cresceram a saber o que custava a vida e, ainda assim, hoje, quando recordam a sua meninice, lembram-se com saudades de como eram felizes.

 



publicado por Noticias do Ribatejo às 07:37
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