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Domingo, 16 de Julho de 2017
Memórias avó Placidina

FLORBELA

Por: Florbela Gil

 

 

Ao fim de quatro anos lá engravidei, na minha cabeça , eu queria uma menina, e convencime que era uma menina que ia ter. As   coisas melhoraram, ele tratava-me melhor. No dia do nascimento, minha mãe chamou parteira, tive muitas horas para nascer a criança. Nasceu! Ouvi o chorar! Meu coração bateu no chão quando me dizem, "parabéns é um menino." 

Eu queria uma menina. Nem quis olhar, nem queria dar de mamar. Não conseguia ter amor por aquele ser,....chorava, chorava sem parar.
Minha mãe sentou-se, á minha beira, e disse,"- filha, já viste bem que tivestes, tanto tempo á espera deste filho? Olha que Deus pode castigar-te, e levá-lo, se não o alimentares! E podes nunca mais ter nenhum! " 
As palavras de minha mãe eram sábias, pensei nelas, tocaram o meu coração, que estava de pedra, amaciei a mágoa, transformei-a em amor. Agarrei-me aquele filho com um amor que nem consigo explicar bem.
Passou um ano voltei a engravidar, Deus deu-me a menina que eu tanto queria, mas até nascer nunca me importei com o que podia vir a ter. Viesse com saúde. 
 
Depois marido, começou a andar doente, mas nunca parou de beber, era mau com o vinho muita dureza para nós, mas tudo isso me fazia sofrer, como se não bastasse, fiquei novamente grávida, nasceu outra menina, linda, loira de olhos azuis, os meus outros filhos também eram lindos, mas este bebé ....,era linda. Depois , os problemas de saude dele agravaram. Ele piorava da doença, a olhos vistos,  muita vez já não trabalhava, e eu já não tinha dinheiro para dar de comer aos meus filhos. Muita vez, tinha que fugir de casa com os três filhos para não levar-mos porrada dele. 
 
Depois de lhe passar a bebedeira, era como se nada fosse, nada se tivesse passado.
Um dia de noite, fugi com meus filhos, fazia frio, cheguei perto dum rio, meti às costas o mais velho e os mais pequenos, um de cada lado, bem agarradinhos a mim.
Entrei no rio, com água pela barriga, de noite, cheia de frio, ficamos todos a chorar, enquanto íamos atravessando para a outra margem. Fui para casa duma prima. Assim lá fiquei uns dias com os miudos. 
Minha prima disse-me, que ele tinha piorado, e que estava de cama sem se levantar.
 
Fiquei com remorsos de o ter abandonado. O meu pensamento dizia para eu voltar, para o ajudar, era o pai dos meus filhos. 
Voltei para casa,.....que tristeza tão grande, um homem deitado, cheirava mal, não comia. 
 
Arregacei as mangas, meti lenha no fogão, para aquecer água, fui buscar um alguidar, e com um pano lavei-o todo, mal se mexia. Dei-lhe de comer, colher a colher.
 
Os vizinhança ajudava-me com comida, a minha mãe também. Assim se passaram mais quatro anos, ele era um vegetal, só falava, muito magrinho, porque quase não conseguia engolir a comida. O médico, chegou a ir a casa algumas vezes, mas nada podia fazer, dava-lhe injeções, ele tinha que levar mais, mas o médico não podia ir lá dar-lhas, pagar a uma enfermeira...era impossivel, também não podia, o dinheiro não chegava.
 
Pedi ao Dr Carlos, que me ensinasse a deitar a injeção. Primeiro, tinha que ferver a seringa a as agulhas, depois preparar o produto, e então saber onde tinha o músculo para a picadela.
As duas primeiras vezes foi com o médico a assistir, disse ele," tás uma enfermeira feita! Tens autorização para continuares". As  seguintes, parecia eu, que já fazia isso á anos.
 
Foi sempre tratado com dignidade por mim, mais do que ele me tratou ao longo dos anos. 
Na véspera de morrer, chamou-me, ao quarto e disse-me,"- perdoa-me por todo o mal que te fiz".
Respondi," morre lá descansado, que estás perdoado". 
Passado uma hora morreu.
 
Viúva, com três filhos, labutei muito, trabalhava no campo, enquanto os filhos estavam na escola. Apanhava pinhas para vender á dúzia. Outras tinham os pinhões, que eram tirados á mão e os meus filhos iam vender á medida, para se comprar comer. Tive uma grande labuta, mas graças a Deus, sempre com a cara descoberta. 
Também criei rebanhos de perus, fazia rifas pelo natal, pela lotaria, os cachopos iam vender os bilhetes dos perus, que pesavam mais de cinco quilos.
 
O filho mais velho, guardava as cabras e os perus no campo com a irmã mais velha. Foi sempre meu amigo o meu filho, ajudava-me muito.
 
Amigos leitores, para a semana contínua. Bem haja. Se repararem todas as semanas, temos lições de vida, e ainda a gente se queixa com a nossa. Pensem nisso, como eu penso. Chorar? Porquê,? Se olhar-mos para o lado, há quem esteja bem pior, não é? Eu deixei de chorar!


publicado por Noticias do Ribatejo às 08:00
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