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Domingo, 24 de Setembro de 2017
RECORDAÇÕES

FLORBELA

Por: Florbela Gil

 

Fazer vida, ter uma família, em Portugal, nem sempre foi fácil para alguns, o sonho de ter algo melhor, de poder dar á família o que não tiveram, ainda nos dias de hoje existe.

 
Por isso muita gente decidiu, emigrar para fora. 
Foi o que os meus pais fizeram. Tinham comprado um terreno, pequeno, para construir a casita, pediram dinheiro emprestado, naquela altura, á segurança social, para iniciar as obras. É claro que não chegou, deu para levantar as paredes, e pôr o telhado, e pouco mais. O ordenado do meu pai, era pouco, o da mãe também, e com duas filhas, pequenas, estava muito difícil. 
 
Um tio, já estava na Guiné Bissau, a viver, junto com a irmã da minha mãe, tinham a vida lá instalada, eram donos do café império, situado em frente ao palácio, onde também funcionava como residencial, pastelaria, e padaria.
Esse tio, desafiou o meu pai para ir viver e trabalhar para ele.
 
Assim foi, na esperança de ter melhor vida, e tentar acabar a casita cá em Portugal.
Foi para lá, e ficou como vendedor do pão. Distribuia o pão,  assim como um colega branco, em carrinhas. Esse colega, fazia uma volta, o meu pai, a outra. 
 
Como tudo na vida, há pessoas boas, com coração, e outras más.
 
Quando o meu pai distribuia o pão, pelas chamadas "tabancas" que podíamos dizer, que eram as casas com teto de palha, dos guineenses, era um homem respeitado, e querido, os pretinhos vinhas a correr atrás da carrinha, pediam um pãozinho, o meu pai dava sempre ás crianças de cor um papoceco. Já o colega, enxotava as crianças como se fossem cães. Por isso mais tarde deu-se o que não devia ter acontecido...o colega apareceu morto dentro da carrinha com uma catanada na cabeça.
 
Isso assustou muito meu pai.
Mas como sempre, nunca lhe fizeram mal toda gente o tratava bem.
 
Um ano mais tarde, tinha eu já quatro anos, a minha mãe,  levou-nos para lá. Íamos ter com o pai. 
Embarcamos no avião, e lá fomos nós. 
 
Chegamos, ao destino, a casa dos meus tios. Casa enorme, com uma varanda, que rodeava toda a casa. 
 
A minha mãe, foi trabalhar para a pastelaria, para o balcão, vendia pão e bolos, os nossos famosos pastéis de nata. 
Eu adorava, assim como ainda hoje, sou uma grande apreciadora de pastéis de nata. 
Quando os pasteleiros, tiravam do forno os tabuleiros cheios e os metiam na sala de arrefecimento, eu aparecia devagarinho, e escondia-me debaixo deles, esticava a mão e toca de tirar um pastel ainda bem quente, cheio de canela. Como eu gostava. 
Assim se ia passando o tempo, lembro-me também de estar na varanda a ver passar os tropas, com uma farda cinzenta, e um chapéu, que mais parecia um balde da praia, com um berloque, vermelho caído para o lado. Lá marchavam, ao som das trompetes e a arma ao ombro. A guerra já existia, porque ao longe ouvia-se o estoirar das bombas, o que me fazia lembrar as trovoadas. Muita vez com medo me metia debaixo da cama com medo. 
Medo também tinha os meus pais, que nos roubassem, duas meninas brancas, eram uma tentação. 
Na casa, havia uma empregada negra que arrumava os quartos da residencial, e que ia limpar o nosso quarto, e cada vez que de lá saía, todos nós sabíamos, de que quarto ela vinha. 
Toda ela, cara, braços, pernas, estavam cheios de pó de talco, o pózinho que a minha mãe punha na gente. Dizia ela que adorava ser branca. E pensava, como a minha mãe punha na gente, ela se pusesse também ficava branca.
 
Os meses passavam, e eu adoeci, não comia, emagrecia a olhos vistos, o clima era o pior, muito quente e húmido, muito difícil de respirar. 
Meus pais decidiram mandar-me embora.
Embarquei com uma hospedeira, a chorar porque não queria deixar a mana e os pais. O cansaço tomou conta de mim, adormeci, acordei quando me chamaram, no aeroporto me esperava a avó que eu adorava. 
 
Meses mais tarde, minha irmã também veio, mas muito doente com uma doença que se chama raquitismo. "Tropeçava numa formiga e caía."
 
Assim se passou dois anos, com a minha avó a tomar conta de nós.
 
Em Portugal estava a começar a revolução do 25 abril, foi gota água, para, os meus pais se virem embora. Com medo, regressaram, fui esperá-los aeroporto, dizia a avó e a tia, olhem vem lá o pai e a mãe, eu olhava para tantos pais e mães que lá vinham, que já não os conhecia. Quando vi uns braços abertos a correr p mim e para a mana, é que cai na realidade.
 
Hoje, passados tantos anos, recordo o pouco que me lembro com nostalgia, gostava de voltar a África, esse continente que ainda hoje fascina quem por lá passou.
Uma grande homenagem ao povo africano que ainda hoje sofre com as guerras. 

 

 



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:00
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