NOTICIAS DO RIBATEJO EM SUMARIO E ACTUALIZADAS PERIODICAMENTE - "A Imparcialidade Na Noticia" - UMA REFERÊNCIA NA INFORMAÇÃO REGIONAL -

Domingo, 28 de Setembro de 2014
CULTURA AVIEIRA: Uma visão da captura de sável, no rio Tejo, na Idade Média

 

Por: Lurdes Véstia (*)


 

 

A Pesca, tacuinum sanitatis casanatensis (XIV century)

 

Segundo Maria Helena da Cruz Coelho (“A pesca fluvial na economia e sociedade medieval portuguesa”, in Cadernos Históricos, 6, “Actas do Seminário Pescas e navegações na história de Portugal (século XII a XVIII)”, Lagos, 1995) a bacia hidrográfica portuguesa “abrange 298,52 Km2, para uma área de 88,619Km2 e a navegabilidade de 11 dos principais rios estende-se por 812 km”, por esta leitura facilmente se percebe que o território português, pouco extenso, é no entanto razoavelmente rico em rios, não só pelos que nascem em solo nacional, como os que nele vêm desaguar, facilitando a fixação das populações junto das suas águas e dos seus portos naturais.

Coelho escreve que “a Idade Média, foi, sem dúvida, a idade do ouro do peixe, e por conseguinte da pesca de água doce, que jamais veio a conhecer uma tal projeção”. E Castro refere que “(…) uma parte da labuta diária do Homem medieval fosse dedicada a arrancar do seio das águas as diversas espécies comestíveis e o sal, desde as lampreias aos mariscos, às baleias e às numerosas variedades piscícolas, fluviais e marítimas”.

O cruzado Osberto de Bawdsey, em 1147, exalta o papel de destaque da atividade pesqueira ao asseverar que “o peixe era tanto que alguns acreditavam que no rio Tejo, para dois terços de água, sobrava um terço de peixe (…)”. A pesca fluvial deveria, na época, ser quase tão importante como a marítima, sofrendo depois uma acentuada diminuição até à contemporaneidade, como se atesta pelas palavras de Redol “(…) e por ali andei com eles, pescando à noite com as artes mais pequenas, ou partilhando o trabalho dos lances nas companhas do sável entre queixas dos mais velhos ainda lembrados dos tempos em que o Tejo era um jardim de peixe.

Jaime Cortesão refere que são numerosos os documentos que certificam que, nos séculos XIII a XV, existia um vínculo comercial marítimo entre Santarém e a Flandres, Sevilha, o Norte de África e o Algarve. Em 1420, nas réplicas do rei D. João I sobre as dúvidas que levantou a obrigação da dízima nova aos escrivães da portagem de Lisboa, verifica-se que era vulgar a circulação do pescado e de diversas mercadorias, por rio, de Lisboa para Santarém. Era fácil para os barcos de Setúbal, Pederneira (bairro da vila da Nazaré que foi sede de um dos concelhos dos coutos de Alcobaça) e de fora do reino navegarem pelo rio Tejo diretamente até à então Villa de Santarém

Meios e modos de pesca

O rio Tejo desde tempos imemoriáveis que é famoso pelos seus sáveis que eram pescados, para além do método tradicional, também com armadilhas que eram primitivamente feitas com ramos de árvores entrelaçados ou vergas e posteriormente passou-se para um aparelho, que medeia o simples uso de ramos de árvore e o de utensílios mais proveitosos e impõe um fabrico mais difícil do que o simples corte de ramas, as “vargas”, deu-se essa mesma designação a alguns tipos de redes chamadas de “abbargas” que seriam constituídas por canas ou caniços entremeados que retinham os peixes. A prova de que as vargas foram utilizadas no rio Tejo, para a pesca dos sáveis, está num documento escrito por D. João I: “Item que sse pescam muitos saavés no Rio do Tejo, assy com as avargas do Infante dom anrrique meu filho”.

No que diz respeito a nassas e covos, “grandes cestos de vime entrançado ou de fio de cânhamo de boca larga e que iam estreitando fixados em determinados pontos (…)”, aparecem abundantes alusões nos documentos analisados para a execução deste texto.

D. João I, em 1394, solicita que não se deitassem covões com pedras para sibas (chocos ou sépias) nem outros peixes nas rias de Vagos, Aveiro, em Ovar e noutras regiões em redor, porque ali circulavam muitos navios de marear e estas armadilhas enleavam-se neles e provocavam grande dano. A este propósito Castro menciona que a “predominância de cada um destes processos dependia do condicionalismo geográfico de índole física e da influência das relações económicas estabelecidas”.

Num documento de 8 de Fevereiro de 1420 refere-se que os sáveis capturados no rio Tejo e rio de Alpiarça eram salgados em Lisboa e depois comercializados em Ceuta, o que pesava na balança comercial do território. Em Lisboa cresciam as vozes dos que se insurgiam contra este comércio intensivo com Ceuta pois segundo elas retirava da boca dos mais pobres os sáveis e outros pescados, com a alegação de que os rios eram livres a todos os que neles quisessem pescar.

Após a leitura de alguns documentos somos levados a ponderar que se pescava de forma abusiva, sobretudo em dias considerados magros, facilitando a extinção de algumas espécies, o que pode justificar o número excessivo de proibições de utilização de instrumentos considerados perigosos e regulamentos de pesca. No século XIV, no reinado de D. Afonso V, as queixas da população eram tantas que este teve que lhes pôr fim, sendo o primeiro rei, em Portugal, a regulamentar a pesca.

Já em 1462, D. Afonso V, impõe que os caniços dos canais da pesca dos sáveis no Tejo e no Zêzere fossem construídos de rama ou verga como as mantas da terra, com um palmo de largura e espaçados de dois dedos. Nesses caniços não se podia colocar esteiras ou outro objeto de forma a não matar as “savatelhas” (sabogas ou pequenos sáveis), que nadavam para o mar onde se criavam, e ter-se-iam de deitar vivas ao rio se ficassem presas nos caniços. Em Carta régia, D. Afonso, sustentou que acontecia que os sáveis que fugiam das “avargas e savaares e nassas” avançavam rio Tejo acima, onde desovavam, e que por Agosto e Setembro as “savatelhas” que se geravam seguiam pelos rios até ao mar onde se iam criar. Refere ainda que os que tinham canais faziam caniços de verga fechados e muito juntos e lançavam-lhes esteiras e redes miúdas dobradas, fazendo com que o pequeno peixe ao entrar nelas morre-se provocando um desequilíbrio para o crescimento da espécie. Estes pequenos peixes eram vendidos como se fossem sardinhas, levando à diminuição de sáveis, ano após ano.

D. Afonso V, em 1474, persistiu nesta questão e proibiu outras formas de apanhar os sáveis, impedindo os pescadores do rio Tejo de empregarem “bogueiros” e “lavadas” (classe de redes) e que utilizassem “copéis” nas redes, onde a semente do sável poderia morrer, pois estes eram feitos de redes de malha extremamente miúda impedindo a fuga de peixes muito pequenos e acabando por desequilibrar o ecossistema piscícola.

 

(…) Continua na próxima Crónica

 

(*) Mestre em Edcucação Social



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Domingo, 21 de Setembro de 2014
CULTURA AVIEIRA: Bateira Avieira e Artes de Pesca

 

 

Por: Lurdes Véstia (*)

  

 

A bateira do Tejo, que, como já referimos, é uma descendente das bateiras da Ria de Aveiro, levada para sul pelos pescadores ílhavos e varinos, continua a ser construída nos mesmos moldes e pouco alterou a sua forma original, tendo sido muito bem adaptada pelos Avieiros, que a aplicam na pesca do rio, com a arte de emalhar (tresmalho) e os galrichos, para as enguias.

 

A forma de estar na vida, que caracterizava os pescadores oriundos da Praia da Vieira, era desconhecida, incompreendida e socialmente marginalizada pelas comunidades locais e por isso os pescadores migrantes, nos primeiros tempos de fixação nas margens do rio Tejo, tiveram de enfrentar a animosidade dos autóctones, vendo-se obrigados a viver nos seus barcos apelidados de bateiras, (1) saveiros (2) e também nas caçadeiras  (3)“maneirinhas” nas palavras da pescadora Avieira D.Júlia Rabita (que foi por mim entrevistada), onde guardavam todos os haveres e os instrumentos necessários à pesca.

Barcos que eram o seu principal instrumento de trabalho, o seu lar, o meio de transporte e tantas vezes a tumba. Ali trabalhavam, dormiam e comiam. Era também ali, no barco, que muitas vezes pariam e eram criados os filhos.

 

 

A D. Júlia Rabita relata assim esta vivência: (…) metíamos na caçadeira alguma comida, o bastante para um ou dois dias, um colchão, uma manta, pratos e talheres e chegados a um mouchão, armava-se o tolde no barco e era lá que a gente vivia nesses dias. Na proa do barco era colocado um “tolde” que atravessava “ da borda avante (...)” para servir de abrigo contra as borrascas. Era aqui que toda a família dormia, depois da emparadeira (4) era colocado um monte de areia para que pudessem fazer lume e que servia de cozinha, a parte da ré era a oficina da pesca e onde se guardavam as redes”.

 

Um universo reservado, com leis próprias.

 

Aliás o apodo de “cigano do rio” pode também ter surgido pelo facto de os Avieiros, enquanto sociedade fechada e repudiada, terem o hábito de casar entre si, como forma de protecção, para se defenderem e para preservarem o conhecimento que tinham das artes da pesca e para darem continuidade às suas tradições, tal como praticam as comunidades de etnia cigana.

 

A pesca

 

Pesca-se de noite, o arrais (homem), por norma é quem lança a rede e a camarada (mulher) é quem rema o barco aquando do lançamento. Depois a rede é recolhida para o interior do barco, pelo casal, com as duas cordas juntas de modo a fazer um saco.

 

Cada rede possui, para além de uma nomenclatura diferente (5) que os Avieiros “concebem”, uma forma e função distinta consoante o tipo de peixe a que se destina. As redes podem ser de arco, de arrasto, de alvitana ou redonda. Os panos de rede diferem na dimensão da sua malhagem - malha mais basta, para o peixe de menor porte, malha mais aberta, para o de maior.

 

Distinguem-se quatro tipos de redes de arco: o buturão, o galricho, o traquete e a nassa que se diferenciam pelo seu tamanho, pelos diâmetros das malhas e das bocas dos arcos.

 

As redes de arrasto, chincha e varina, são as redes de maior dimensão e de forma quadrangular.

 

As redes de alvitana ou redonda: o sabugar, a branqueira, o estremalho e a savara que se diferenciam pelo tamanho das malhas.

A confecção das redes, arte de sabegar, envolve o casal de pescadores.

 

1-As bateiras são barcos que têm a proa e a ré em bico e viradas para o céu, medindo entre quatro metros e meio a sete metros. Por fora, são pintadas a pês negro e por dentro com cores vivas e alegres. A vantagem em terem a proa e a ré em bico é o manuseamento do próprio barco.

 

2-Os saveiros são pequenas embarcações de cinco a sete metros de comprimento, utilizadas pelos Avieiros que faziam os seus próprios barcos para garantirem o sustento da família e que têm vindo a desaparecer dando lugar aos barcos de fibra. Resta, apenas, aos pescadores, as memórias e a transmissão dos legados a outras gentes.

 

3-As caçadeiras são embarcações tipicamente portuguesas que eram também conhecidas por canoas do alto. Existiam em quase todos os centros de pesca do país, embora com maior relevância para sul do Cabo da Roca e costa algarvia. Tinham muita quilha à ré, proa arredondada e popa de painel.

 

4- Emparadeira é um amparo de madeira que faz de suporte para os pés quando se rema

 

5-

Bemhaja, Carla V. Pereira, Nomenclaturas Avieiras da Pesca – Caneiras, Tese de Licenciatura, ESES, Santarém, 2010.

 

(*) Mestre em Educação Social

 



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Domingo, 14 de Setembro de 2014
CULTURA AVIEIRA: A Barraca Avieira

Por: Lurdes Véstia (*)

 

 

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Barracas Avieiras em época de cheia

 

Como já referimos anteriormente os pescadores Avieiros estabeleceram-se no rio Tejo e no Sado, construindo uma cultura identitária e única, com base numa matriz comum, sendo as habitações de madeira assentes em estacas, espelhadas nos palheiros do litoral norte, uma das suas manifestações culturais. Se nas praias do litoral norte os palheiros eram construídos assentes em palafitas para evitar que as habitações fossem invadidas pelas areias varridas pelos ventos, no Tejo a utilidade das palafitas era a de permitir a passagem das águas do rio e assim defende-las na altura das cheias.

Essas barracas, ou palheiros, de acordo com as terminologias dos locais onde fundaram os seus assentamentos, e os materiais utilizados na sua construção, tinham basicamente a mesma tipologia de construção. Diz-nos Lopes Bento que esta forma de habitação terá surgido como adaptação ao ambiente: “(...) o pescador, porém, como o manejo da sua pesada alfaia o obrigue a não se distanciar muito da margem, quando caso mais frequente, a pesca é a sua exclusiva ocupação, adaptou a casa à instabilidade do solo em que habita. Vencer ou atenuar esta ação da dinâmica terrestre e principalmente na região onde ela se acentua com mais intensidade foi o que conseguiu com as habitações sobre estacaria”.

No Tejo, o termo palhota, com que se designavam em alguns locais as habitações dos Avieiros, derivava do facto de se utilizar palha, ou colmo, para as coberturas, material abundante nos terrenos agrícolas da Borda d´Água tagana.

A barraca (assim apelidada sem qualquer intuito pejorativo) era construída sobre estacaria e todo o material de construção utilizado era a madeira, com exceção do lar e da chaminé, que eram de tijolo e cal, e o telhado que era de telha e de duas ou quatro águas. Só mais tarde aparecem as estacarias feitas em betão de modo a oferecer mais consistência e durabilidade.

As tábuas que formavam as paredes achavam-se dispostas quase sempre verticalmente; só excecionalmente se viam tábuas atravessadas. As fachadas eram pintadas de cores garridas e muitas vezes da mesma cor que a embarcação de que eram proprietários, talvez como forma de identificação pessoal…Quando as barracas ficavam altas, subia-se para elas por uma escadaria externa, igualmente de madeira, que servia uma varanda,na frente do lado do rio, que permitia o acesso à porta principal. O interior da casa era geralmente composto por um ou dois quartos, dependendo do número de filhos, pintados de azul ou rosa conforme o sexo dos ocupantes, uma cozinha e uma sala. Muitas vezes a cozinha ficava fora da barraca por causa dos fogos.O recheio era adequado à sobriedade que caraterizava os pescadores. Regra geral a casa era o espaço da mulher e das crianças e a rua o do homem.

Ainda se podem ver várias barracas nalgumas das aldeias Avieiras, nomeadamente, Patacão, Caneiras, Escaroupim, Palhota e Porto da Palha. Umas em razoável estado de conservação mas a maioria a necessitar de urgente intervenção pois correm o risco de desabamento com o consequente esquecimento de uma arquitetura secular e única na Europa, a construção palafítica fluvial. Para que esta intervenção seja possível é urgente reconhecer o interesse do património e da cultura Avieira, como fatores de diferenciação e afirmação da genuinidade dos territórios, particularmente os mais fragilizados e marginalizados.

Foi neste tipo de habitação que cresceram os avós e pais da penúltima geração de Avieiros do Tejo.

 

1 -Professor catedrático convidado e presidente do Conselho Científico do Instituto Superior Politécnico Internacional.

 

(*) Mestre em Educação Social



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Domingo, 7 de Setembro de 2014
CULTURA AVIEIRA: Culinária Avieira - Uma cozinha de adaptação à vida à beira-rio
Por: Lurdes Véstia (*)

Uma comunidade é reconhecida como forte quando preserva os seus traços culturais, quando os desenvolve e os transmite de geração em geração. Alimentar-se vai para além de um simples ato de nutrição, é um ato social que está fortemente presente nas raízes de um povo e é uma componente fundamental e imprescindível do quotidiano das comunidades. A alimentação tem um significado simbólico, é arte, é cultura.

Previamente há que realçar a importância da gastronomia dentro da comunidade Avieira. É, geralmente, à volta de uma mesa que se realizam os encontros familiares e se consolida o espírito de coesão e de união da comunidade. É, igualmente, neste contexto de socialização primária que os mais novos, instigados a cumprir as regras sociais vigentes sobre o que comer, como comer e como fazer o comer, recebem as informações transmitidas pela família aqui no seu papel de intermediária entre os jovens e a sociedade. Regra geral, os grandes momentos de alegria das famílias Avieiras são acompanhados de eventos gastronómicos: casamentos, nascimentos, batizados, aniversários, isto é, todas as datas festivas e simbólicas.

A culinária Avieira não foge à regra geral descrita na teoria de que «é a arte de saber comer e beber bem». A culinária Avieira é cultura, é tradição, são raízes fortemente impregnadas na comunidade e que se vão passando de geração em geração. É esta união para preservar o que é deles e de mais ninguém que torna esta gente tão forte. Como diz a investigadora Maria Leonor Soares Leal, no livro «A História da Gastronomia», «cozinhar é uma ação cultural que nos liga ao que fomos, somos e seremos e, também, com o que produzimos, cremos, projetamos e sonhamos».

Tradição, adaptação e subsistência. Estes são os traços que identificam as origens da cozinha Avieira, esta arte culinária tem características mediterrânicas e é marcada pela presença das ervas do campo e de peixes do rio, como o sável, a saboga, a fataça a enguia ou o barbo.

A culinária dos Avieiros é fruto do ambiente natural de proveniência – Praia da Vieira – da cultura própria da comunidade e dos locais para onde migraram. A culinária Avieira foi, portanto sendo cruzada, ao longo do processo de assentamento (pelo menos desde 1833), com os recursos disponíveis, as necessidades e as práticas ancestrais da comunidade. Nos primeiros momentos, quando pretenderam sedentarizar-se nas margens do rio Tejo, os pescadores Avieiros não tiveram como alvo as zonas férteis da lezíria ribatejana. O objetivo primeiro foi encontrar um local para «levantar» um abrigo que os protegesse contra as intempéries. Esta procura levou-os até locais privilegiados na Borda d´Água onde se tornava fácil o acesso aos barcos. Só mais tarde os Avieiros construíram as suas «barracas» mais dentro das margens e perto dos campos cultiváveis. Como é óbvio foi nos produtos que a natureza, espontaneamente, lhes providenciava que os pescadores Avieiros encontraram a base da sua alimentação, limitando-se a colher, a pescar e a caçar. Durante muitos anos não praticaram qualquer agricultura. Sabe-se, pelos testemunhos recolhidos, que as ervas mais utilizadas pelas mulheres Avieiras na sua cozinha eram saramagos, cangarinhas, grizandas, pampostos, beldroegas e agriões selvagens.

Os Avieiros no seu dia-a-dia alimentavam-se essencialmente do peixe que pescavam: sável, saboga, fataça, enguia, barbo, robalo, boga, etc. Nas palavras de uma Avieira que entrevistei para a minha tese de mestrado: «A gente só comia saramagos e grizandas e pampostos. Só comíamos coisas dessas. Grizandas é uma erva que deita uma flor amarela e eu gostava muito daquilo. De pampostos eu não gostava muito porque era muito macio. Cangarrinhas, saramagos, fazíamos sopa disso. Os saramagos, o feijão, botava saramagos ou grizandas, botava um bocadinho de toicinho, um bocadinho de morcela, era o conduto, uns baguinhos de arroz e comíamos sempre. Mas nunca deu para mais. Beldroegas, eu comia em salada. Os agriões dantes eram uma coisa selvagem...Eu não me engraçava muito com o saramago, mas era tão importante que algumas pessoas tinham alcunhas de «Saramago». Nunca passámos fome... Porque dantes a gente... Havia muito rabisco, milho e feijão, na lezíria e a gente ia ao rabisco do milho e do feijão e depois tínhamos sempre feijão. E tínhamos azeite. Arranjávamos azeite do rabisco, fazíamos água-pé».

Hoje em dia a alimentação dos Avieiros é muito parecida com a de todos nós, se bem que possam apostar um pouco mais no peixe. No entanto a tradição ainda lhes recomenda algumas restrições… No que diz respeito aos antepassados não podemos esquecer que eram pessoas muito simples e pobres logo com uma alimentação muito «prudente». Do meu ponto de vista eles praticavam a típica dieta mediterrânica: peixe, batatas, todo o tipo de legumes e ervas que existiam ao longo do rio, fruta, azeite e vinho. Estes três últimos provinham do «rabisco» que faziam nos terrenos agrícolas vizinhos das aldeias e durante a noite quando andavam à pesca… Comiam melhor pelos casamentos e no Natal onde já aparece a carne de porco, de borrego e galináceos. Os porcos e os galináceos eram criados por eles mas os borregos eram muitas das vezes «negociados» com os donos dos terrenos em troca da limpeza e conservação das marachas do Tejo e pelo transporte do gado de margem para margem ou para os mouchões no leito do rio.

Das receitas conhecidas, temos: sável frito com açorda de ovas; arroz de sável; enguias fritas, grelhadas e de ensopado; fataça na telha e grelhada; arroz de lampreia; lampreia à bordalesa; lampreia grelhada. Para os dias festivos, ensopado de borrego e assado no espeto; porco no espeto da vara de salgueiro; galináceos corados e de arroz. E na sobremesa destaca-se o arroz doce com canela.




Entendo que a história de um lugar se escreve, também, através da sua gastronomia pois esta constitui um bem cultural quase tão valioso quanto o património material. A culinária Avieira tem sido alvo, ultimamente, de vários eventos espalhados pelas diferentes zonas ribeirinhas e tem vindo a assumir-se como um agente galvanizador de outras atividades, as quais, no seu conjunto, induzem um efeito multiplicador com capacidade para a criação e desenvolvimento de pequenas empresas, em muitos casos de cariz familiar, contribuindo, assim, de forma significativa para a criação de riqueza dentro das comunidades ribeirinhas. Penso que o crescente interesse do turismo pela culinária Avieira poderá ajudar a resgatar tradições prestes a desaparecer e a manter a identidade deste povo.

Deixo aqui o repto a alguém, da área da Saúde ou da Nutrição, para desenvolver uma investigação sobre uma teoria, que eu gostava de ver tratada, que diz respeito à ligação que faço no meu trabalho «Avieiros-Dores e Maleitas» entre a alimentação dos Avieiros, a verdadeira dieta mediterrânica, e a sua longevidade. Durante a minha investigação foi comum encontrar gente Avieira muito idosa, saudável que, na década de 60 do século passado, atingiam com facilidade mais de 80 anos, para ambos os sexos, quando a longevidade média era de 60 anos para os homens e 65 para as mulheres.

 

(*)Mestre em Educação Social

 



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Domingo, 31 de Agosto de 2014
CULTURA AVIEIRA: As vivências Avieiras – Assentamentos Avieiros

Por: Lurdes Véstia (*)

 

Nesta Crónica vamos fazer uma viagem pelos assentamentos Avieiros ainda existentes se bem que em alguns casos se vejam praticamente só ruínas…

 

Os assentamentos avieiros estenderam-se, como já foi referido na Crónica passada, por um território vasto, porque abarca o Tejo, desde a Póvoa de Santa Iria até Abrantes, e ainda a foz do rio Sado, especialmente em Alcácer do Sal. Na Borda d´Água tagana ainda subsistem as aldeias Avieiras de Porto da Palha (Azambuja), Palhota (Cartaxo), Escaroupim (Salvaterra de Magos), Caneiras (Santarém), Patacão (Alpiarça) e Azinhaga (Golegã). As aldeias Avieiras do grande estuário, Vila Franca de Xira, Alhandra e Póvoa de Santa Iria foram arrasadas pela autarquia, em nome da modernidade, e substituídas por bairros sociais descaracterizados.

 

 

Há aldeias que ainda guardam a “arquitetura” original das suas barracas e preservam as relações interpessoais com muita autenticidade. Por exemplo, se no Patacão (Alpiarça) as barracas foram abandonadas, por as famílias terem ido viver para a sede do concelho, na aldeia das Caneiras (Santarém) ainda há muitas famílias Avieiras que ai vivem e mantém a atividade piscatória.

Praia do Ribatejo (Vila Nova da Barquinha)

 

 

Infelizmente já não resta qualquer vestígio da única casa palafítica ai existente. Em tempo útil alertámos para a necessidade de proteger esta barraca no concelho de Vila Nova da Barquinha, não fomos movidos por qualquer intuito conservador mas tão só o de preservar um património único e identitário.

 

 

Azinhaga (Golegã)

 

Esta barraca é a tradicional construção palafita e encontra-se perto da Ponte do Cação. Foi em tempos totalmente recuperada pelo seu proprietário, o Avieiro Custódio Petinga, com o apoio do Município da Golegã. Está suportada por colunas de tijolo e cimento, mas outrora esta estrutura era feita com troncos de madeira para deixar passar as águas em tempo de cheia do rio, o telhado é de duas águas, a fachada apresenta duas portas e uma janela e uma varanda o acesso é feito por uma escada.

 

Patacão (Alpiarça)

 

Em Alpiarça conhecem-se vários assentamentos Avieiros: Patacão de Cima e Patacão de Baixo, Touco, Quinta da Torre, Torrinha e Gouxa.

Destes só temos vestígios no Patacão. Este conjunto foi edificado junto ao dique de modo a ser a “rua” que liga todas barracas entre si.

 

 

 

Patacão (Alpiarça)

 

Caneiras (Santarém)

 

Caneiras, no concelho de Santarém, possui cerca de 300 habitantes que se encontram divididos entre dois núcleos, um mais antigo situado junto ao rio Tejo, e outro mais recente criado quando os Avieiros começaram a virar-se para a agricultura e até para os serviços.

O conjunto mais antigo necessita de salvaguarda urgente pois corre o risco de total abandono, descaracterização e até a ruína.

 

 

Escaroupim (Salvaterra de Magos)

 

A cerca de 7 Km de Salvaterra de Magos situa-se a aldeia de Escaroupim, é uma típica aldeia piscatória, formada em meados dos anos 30. A Casa Museu Avieira foi um espaço criado pela autarquia, para preservar a memória coletiva dos Avieiros, é de madeira pintada de cores vivas e construída sobre estacas. No seu interior destacam-se três espaços: a cozinha onde o elemento que mais se realça é a lareira ladeada por tijolos e cheia com terra batida, a mesa das refeições e várias prateleiras completam esta divisão. A sala é a outra divisão onde estão dois baús para guardar roupa. Os dois quartos são de pequenas dimensões com camas de ferro. Por cima dos quartos, uma última divisão que serve de sótão para guardar os materiais de pesca.

 

Palhota (Cartaxo)

 

Palhota é uma aldeia que pertence à freguesia de Valada, concelho do Cartaxo.

 

A aldeia Avieira da Palhota é toda ela erguida com casas de madeira, tipo palafitas, cuja origem se perde nos tempos. Nesta aldeia viveu Alves Redol (1911-1969) que aqui escreveu o seu romance “Avieiros”. O nome desta aldeia deriva do facto de na margem oposta se encontrar a Quinta da Palhota….

 

Porto da Palha (Azambuja)

 

Na propriedade do Lezirão, Azambuja, existe uma aldeia Avieira, Porto da Palha, uma comunidade de pescadores Avieiros, que foi assim alcunhada pelo facto de dai partirem muitas embarcações carregadas de palha para fazerem as “camas” dos cavalos na capital.

Síntese

 

A intenção de cimentar um projeto de desenvolvimento sustentável para a Borda d´Água tagana, com base na cultura Avieira e no rio Tejo, tem-nos obrigado a um trabalho continuado de divulgação e sensibilização para a necessidade de preservar e valorizar este património único e singular que existe, ainda, nas margens do rio Tejo.

 

 (*) Mestre em Educação Social



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TEMAS DE SAÚDE: Sistema Nacional de Saúde

 

 Por: Antonieta Dias (*)

 

“Consta do Portal da Saúde que; A Constituição da República Portuguesa estabelece que todos os cidadãos têm direito à prestação de cuidados globais de saúde. O sistema público de saúde está a cargo do Serviço Nacional de Saúde (SNS), que depende do Ministério da Saúde.

Os beneficiários do Serviço Nacional de Saúde são os cidadãos Portugueses, cidadãos de Estados-Membros da UE (em conformidade com os Regulamentos da CE), cidadãos estrangeiros residentes em Portugal em condições de reciprocidade, apátridas residentes em Portugal e requerentes de asilo.

Os cidadãos estrangeiros residindo legalmente em Portugal têm acesso, em igualdade de circunstâncias, aos cuidados de saúde e assistência medicamentosa. Os cidadãos estrangeiros possuidores de autorização de permanência ou de residência, ou de um visto de trabalho, devem obter um cartão de utente, sendo-lhes designado um médico de família. Caso não descontem para a Segurança Social, terão de suportar os respectivos tratamentos.

Os residentes de um Estado-Membro da União Europeia têm acesso aos cuidados de saúde em igualdade de circunstâncias (“Cartão Europeu de Seguro de Doença”). O mesmo acontece com os residentes de países terceiros que tenham assinado um acordo bilateral com Portugal, tais como o Brasil (“PB4”).

O Cartão de Utente do SNS é um documento que prova a identidade do titular perante as instituições e serviços integrados no SNS. A sua emissão é gratuita e deve ser apresentado para prestação de cuidados de saúde, para requisição e acesso a consultas médicas e a meios auxiliares de diagnóstico e terapêutica, bem como para a prescrição e aquisição de medicamentos.”

Com base no que está estabelecido supra referido, não se compreende que os doentes que necessitam de cuidados médicos, sejam confrontados com uma série de leis publicadas recentemente, que contrariam o que está preconizado na Constituição Portuguesa, para além de que a cobertura universal que o SNS oferece deveria ser garantida a todos os portugueses da mesma forma, independentemente do local da sua residência.

Ora, a situação gerada por todas estas transformações legislativas fazem com que exista uma desigualdade no acesso aos cuidados de saúde por parte dos cidadãos portugueses.

Enquanto que,  nos grandes centros urbanos, designadamente nas cidades teoricamente mais populosas, os recursos são muito diferentes daqueles que existem nos meios rurais.

Se é certo que todos os cidadãos portugueses se encontram com igualdade de direitos e deveres nacionais no que se refere à prestação de cuidados de saúde, o que constatamos na nossa vivência do dia a dia é que se um cidadão reside no interior do País tem muito mais dificuldades em obter o nível de prestação dos cuidados de saúde, passando a usufruir de uma penalização injusta devido às desigualdades existentes na distribuição institucional dos departamentos destinados a assistir os utentes, tendo em conta que os residentes  nos meios urbanos têm uma maior opção de escolha não só no que se refere à acessibilidade, mas também aos recursos disponíveis quer técnicos quer  humanos, impedindo assim que a liberdade universal destinada a ser vivenciada por todos os português fique muito aquém do esperado.

Torna-se ainda mais cruel quando a rede de transportes escasseia e os recursos financeiros dos doentes se tornam cada vez mais precários.

Se pensarmos que cerca de um quarto da população portuguesa está coberta por subsistemas de saúde, e que uma percentagem muito pequena, cerca de 10%, usufrui de seguros de saúde privados, que estabelecem pacotes fechados com as entidades de saúde privadas, racionado a resposta às necessidades de cada um dos seus segurados.

Cabe assim a responsabilidade ao Ministério da Saúde de desenvolver as politicas de saúde que permitam manter a sustentabilidade da gestão do SNS, sem contudo esquecer que são as contribuições dos empregados, nos quais se incluem os funcionários públicos do Estado, as principais fontes de financiamento dos subsistemas de saúde.

Importa, ainda salientar que  Portugal tem cerca de 17% das causas de morte  devidas a doença cérebro vascular o que origina perdas humanas, nalguns casos evitáveis e que 12% na nossa população morre de cancro.

Estes números são assustadores e preocupantes, sendo que a tendência é para aumentar devido á carência e à resposta atempada dos serviços de saúde.

O Ministério da Saúde tem que reconhecer que o papel mais importante dos programas a implementar é o da educação para a saúde, cujo principal objectivo destina-se a manter a população devidamente informada sobre os efeitos positivos e negativos dos vários estilos de vida que directa ou indirectamente se irão reflectir nas taxas de mortalidade e de morbilidade que serão mais ou menos elevadas conforme os efeitos positivos ou negativos do seu comportamento em relação à sua saúde.

Estima-se que a esperança média de vida se situa nos 77.9 anos, podendo vir a diminuir se continuarem a cometer-se esta política de saúde actual.

Apesar da melhoria dos equipamentos e da humanização das unidades de saúde (Unidades de Saúde Familiar e Hospitais) nestes últimos anos ter sido implementada com sucesso, não é contudo suficiente para responder às necessidades emergentes que a população realmente necessita.

Acresce ainda que a centralização das unidades hospitalares veio trazer um congestionamento e um racionamento na resposta a determinadas especialidades que não são compatíveis com o Estado de Direito Democrático que o nosso País exige.

Resta ainda acrescentar que o transporte de emergência que é assegurado por bombeiros, associações humanitárias e pelo Instituto Nacional de Emergência Médica INEM, tem tido um papel preponderante na resolução de problemas cuja gravidade clinica transforma este serviço numa entidade pública imprescindível para os utentes.

E o fato de existir uma linha de emergência médica disponível durante 24 horas por dia acessível a todos o utentes ter vindo a colmatar algumas deficiências na resposta atempada aos cuidados de saúde, o numero de viaturas tem demonstrado que é demasiado insuficiente, tendo sido relatados recentemente alguns bastante infelizes com perdas de vidas que potencialmente evitáveis se os recursos fossem outros.

Tendo em conta o teor da Constituição Portuguesa, que é bem clara sobre o direito que os  cidadãos têm à prestação de cuidados de saúde tendencialmente gratuita, constatamos que os utentes são cada vez mais penalizados e obrigados  a contribuir  com taxas de pagamento  cada vez mais elevadas não só nas  urgências, nas consultas, nos tratamentos, nos medicamentos e nas  e cirurgias, cujo valor actual se está a tornar quase completamente incomportável deixando assim os utentes ao seu triste destino que é em muitos casos a coarctação da possibilidade de serem assistidos na doença pela privação económica a que estão a ser violentados, pelo sucessivo aumento de impostos, pela diminuição do seu vencimento, pela elevada taxa de desemprego e pela abrupta e inesperada diminuição dos seus rendimentos.

(*) Doutorada em medicina



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Domingo, 24 de Agosto de 2014
As vivências Avieiras – Assentamentos avieiros

Como já se referiu, em Crónica anterior, os Avieiros com o decorrer do tempo foram-se fixando, definitivamente, nas margens do Tejo.

 

Por: Lurdes Véstia (*) 

 

São várias as causas apontadas para esta fixação e como refere Maria Adelaide Salvado “ (…) cá davam-se melhor, porque adoeceram dos pulmões e lhes fazia mal o ar do mar”. Com a fixação definitiva, surge a necessidade de encontrar um lar mais estável, resistente e confortável”.

 

 

 

Aldeia Avieira de Obras (Azambuja) 1941

 

Pouco a pouco na Borda d´Água Tagana começam a erguer pequenas barracas totalmente construídas em caniço e logo que as condições económicas o permitiam começavam a comprar madeira; aos poucos iam construindo as suas pequenas casas em comunidades de características muito peculiares. Assim se foram, aos poucos, fundando os assentamentos Avieiros. “ (…) pequenas, talvez para que as não vissem, ou tímidas para que não as mandassem destruir. Ou pequenas e tímidas por causa dos materiais e das agruras do tempo”.

 

 

 

Casas Avieiras em caniço. Mouchão de São Braz – Chamusca

 

As primeiras habitações nas margens do Tejo foram semelhantes aos palheiros de Mira e da Praia da Vieira de Leiria, a referência mais antiga e conhecida de palheiros data de 1875. A maior originalidade deste aglomerado de pescadores era exactamente a sua arquitectura de madeira onde as casas chegavam a atingir dois e mesmo três andares, possuindo dimensões não encontradas noutras praias e formavam a quase totalidade da povoação até ao final dos anos 60. Mais tarde transformaram-se em construções palafíticas, elevadas do solo e sustentadas por estacas de madeira ou por estacas de pedra, dependendo da zona onde queriam construir a casa, mas sempre para a manter acima do limite da água em época de cheias ou da subida das marés.

 

 

 

Palheiros da Praia de Vieira de Leiria, demolidos na década de setenta do séc. XX

 

Pela descrição de uma Avieira que entrevistei, as cozinhas eram construídas em madeira e exteriores às casas, diz ela que era ” (…) por via do fumo e essas coisas…”.

Existem descrições que dão conta que os pescadores Avieiros levantavam estas construções e as mudavam da localização original, para outra mais abrigada ou adequada, de modo a garantir maior conforto ao núcleo familiar.

Os Avieiros apelidavam as suas próprias habitações de “barracas” sem que isso tivesse um sentido depreciativo mas tão-somente pelo aspecto que estas tinham, todas em madeira e bastante rudimentares.

 

 

 

Aldeia Avieira de Caneiras (Santarém)

 

O Capitão-de-mar-e-guerra Baldaque da Silva na sua notável obra “Estado actual das pescas em Portugal”, publicada em 1892, e com base nos dados do Inquérito Industrial de 1890, referencia os seguintes portos fluviais no rio Tejo: Vila Franca de Xira, Alcochete, Aldeia Galega, Muge, Santarém, Constância e Abrantes.

Esta obra oferece-nos importantes referências sobre a pesca no Tejo e os homens e mulheres que exerciam a faina, “(…) em determinadas épocas do ano é muito importante a pesca que se faz no rio Tejo, não só em todo o estuário do rio, desde a embocadura até Valada, mas também para cima, até muito a montante de Abrantes”.

Em 1978, no Boletim Cultural da Junta Distrital de Lisboa, a Dra. Maria Micaela Soares referenciava cerca de oitenta aldeias de Avieiros desde Sacavém até Abrantes.

Em trabalho de investigação, efectuado para a produção da obra Avieiros – Dores e Maleitas, no Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Santarém, consegui referenciar os seguintes assentamentos no distrito de Santarém:

Almeirim - Vala de Almeirim, Benfica do Ribatejo, Casal Branco, Vale Tejolos, Azeitada

Alpiarça – Alpiarça, Patacão de Baixo, Patacão de Cima, Touco, Quinta da Torre, Torrinha, Gouxa, Vala Real

Azambuja – Porto da Palha

Benavente - Benavente

Chamusca – Porto das Mulheres, Porto do Carvão, Chamusca

Cartaxo -Valada; Porto de Muge, Palhota; Lugar de Sant´Ana

Coruche – Estação

Golegã - Azinhaga, Pombalinho

Salvaterra de Magos - Muge

Santarém - Barreira da Bica, Alfange, Ribeira de Str, Caneiras. Ómnias, Ponte do Vale de Str, Ponte Celeiro, Ponte Asseca, S. Vicente do Paúl, Vale de Figueira, Praias do Tejo.

 

Referências bibliográficas

Baldaque da Silva, António Artur, 1891, "Estado actual das pescas em Portugal". Lisboa, Imprensa Nacional.

Salvado, Maria Adelaide N. 1995, Os Avieiros, nos finais da década de cinquenta, Castelo Branco.

Soares, Maria Micaela, 1986, A cultura Avieira. Continuidade e mudança”, In Separata do Colóquio “Santos Graça” de Etnografia Marítima.

- Soares, Maria Micaela, 1997, Mulheres da Estremadura In Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa, n. 83.

 

(*) *)Mestre em Educação Social



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Domingo, 17 de Agosto de 2014
TEMAS DE SAÚDE: Conflitos Armados e Medicina Forense

 

 Por: Antonieta Dias (*)

 

Um país em guerra, gera sempre conflitos armados, que são na sua grande parte demasiado graves, provocando lesões não só no grupo responsável pelo despoletar do problema, mas também irá provocar dano em pessoas que se encontram alheias ao sistema e ao fenómeno da guerra.

Este fato é de tal forma importante que implicou a reflexão das Nações Unidas que não ficaram alheias ao grupo de inocentes (crianças e adolescentes), atingidas e violadas nos seus direitos humanos.

Muitos destes jovens são mortos, raptados, violados sexualmente, agredidos, mutilados, vítimas de maus – tratos físicos e psicológicos, abandonados e sufocados pelo sofrimento.

Sendo certo que as crianças e jovens pertencem a um dos principais grupos vulneráveis de risco, são um alvo fácil nas situações de conflitos armados cuja focalização dirigida facilmente se instala perante esta população já de si fragilizada, incauta, impreparada e sem experiência ficando impotente quando é envolvida e apanhada de surpresa.

Estas crianças e jovens são muitas vezes alvo das táticas da guerra, que atacam as escolas, causando o terrorismo e o pavor.

Este fato gerou um enorme empenho por parte de muitos países que uniram esforços e envolveram as várias entidades internacionais mobilizando-as e criando as medidas para minimizar todas estas atitudes de violência.

Sem dúvida que as Nações Unidas têm tido um papel determinante nas últimas décadas, ao liderarem o processo de proteção destes jovens.

Esta grande preocupação social pelos jovens em perigo levou a que em Junho de 2010, o Conselho de Segurança emitisse uma declaração em que se comprometia a adotar medidas eficazes e assertivas contra os infratores.

Várias medidas foram propostas para por fim à impunidade dos infratores que cometem tão horrorosos crimes, e foram criadas as metas destinadas à proteção das crianças e jovens durante os conflitos armados.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas tem feito todos os esforços para impedirem os confrontos, salvaguardar a paz e a segurança internacional.

Assim perante as situações de guerra há que garantir o cumprimento universal das normas e padrões internacionais, acabar com a impunidade dos criminosos, promover a justiça, reforçar os mecanismos de comunicação nacionais e internacionais, garantir a sustentabilidade através da criação de mecanismos e estratégias que permitam a reintegração das vitimas traçando os caminhos que conduzam à paz.

Não é possível deixar de sinalizar o ano de 2012, em que os conflitos armados foram responsáveis pela morte de 95 mil pessoas em todo o mundo, sendo que na maior parte cidadãos civis.

Os conflitos armados ocorridos em 2012 foram na sua maioria conflitos “não internacionais.”

 

Sem dúvida que este período foi caracterizado como uma época difícil, sendo importante destacar os Países da Síria, Afeganistão e México pelo fato de terem sido aqueles em que o número de mortos foi mais elevado.

Um relatório da Academia de Genebra divulgou a existência de 38 conflitos armados em 24 países e territórios.

A conflitualidade desencadeada por estes fenómenos é causadora de catástrofes que lesam as sociedades abrangidas e provocam risco ambiental, acidental, conflitual tornando-as permeáveis ao terrorismo.

O crescimento da população mundial e da globalização económica e cultural, em meados do Séc. XX gerou uma sociedade de risco/perigo de desastres, catástrofes ou acidentes, que motivou vários conflitos cujas vítimas e prejuízos materiais se vieram a refletir gravemente nas condições de vida dos cidadãos, de forma acelerada, devastadora e perigosa levando muitas vezes à destruição e à tragedia nos vários pontos do globo.

Cerca de 75% da população mundial reside em áreas que já foram afetadas por catástrofes e desastres, que determinaram uma média de 184 pessoas por dia.

Na última década, as catástrofes naturais provocaram mais de 600 mil mortos e atingiram de forma indireta ou direta cerca de 2,4 biliões de pessoas.

Estas mortes exigem a intervenção de uma das grandes áreas da medicina focalizada para a investigação das causas de morte e identificação dos cadáveres, sendo esta obrigatoriedade da responsabilidade das ciências forenses, mais especificamente da área da tanatologia.  

A Medicina Forense: “É a disciplina que efetua o estudo teórico e prático dos conhecimentos médicos e biológicos necessários para a resolução dos problemas jurídicos, administrativos, canônicos ou militares, com utilidade, com utilitária aplicação propedêutica a estas questões” (Basile e Waisman).

A medicina – legal, carateriza-se por ser uma ciência onde os vários conhecimentos da medicina e do direito se focalizam na resolução dos problemas relacionados com as lesões corporais.

A nobre missão da medicina e da justiça têm como suporte a investigação dos vários ramos da ciência forense e do direito.

A ciência e a arte exigida para emitir um parecer pericial, obriga a que o perito tenha um conhecimento profundo sobre o universo científico deste ramo da medicina, para poder emitir um parecer alicerçado em sabedoria especializada, de forma clara e esclarecida independentemente do destino e da forma oral ou documental que irá traduzir e descrever os aspetos técnicos e científicos do caso em apreço, para que o juiz possa compreender e analisar o laudo pericial como um peça fundamental na decisão judicial.

 

(*) Doutorada em medicina



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CULTURA AVIEIRA: As vivências Avieiras – Barco e artes de pesca

 

Por: Lurdes Véstia (*)

 

 A forma de estar na vida, que caracterizava os pescadores oriundos da Praia da Vieira, era desconhecida, incompreendida e socialmente marginalizada pelas comunidades locais e por isso os pescadores migrantes, nos primeiros tempos de fixação nas margens do rio Tejo, tiveram de enfrentar a animosidade dos autóctones, vendo-se obrigados a viver nos seus barcos apelidados de bateiras (barcos que têm a proa e a ré em bico e viradas para o céu, medindo entre quatro metros e meio a sete metros. Por fora, são pintadas a pês negro e por dentro com cores vivas e alegres. A vantagem em terem a proa e a ré em bico é o manuseamento do próprio barco), saveiros (pequenas embarcações de cinco a sete metros de comprimento) e também nas caçadeiras (embarcações tipicamente portuguesas que eram também conhecidas por canoas do alto. Existiam em quase todos os centros de pesca do país, embora com maior relevância para sul do Cabo da Roca e costa algarvia. Tinham muita quilha à ré, proa arredondada e popa de painel), onde guardavam todos os haveres e os instrumentos necessários à pesca. Os barcos eram o seu principal instrumento de trabalho, o seu lar, o meio de transporte e tantas vezes a tumba. Ali trabalhavam, dormiam e comiam. Era também ali, no barco, que muitas vezes pariam e eram criados os filhos.

Como me confidenciou uma Avieira: “metíamos na caçadeira alguma comida, o bastante para um ou dois dias, um colchão, uma manta, pratos e talheres e quando chegados a um mouchão, armava-se o tolde no barco e era lá que a gente vivia nesses dias”.

 Na proa do barco era colocado um “tolde” que atravessava “ da borda avante (...)” para servir de abrigo contra as borrascas. Era aqui que toda a família dormia, depois da emparadeira (amparo de madeira que faz de suporte para os pés quando se rema) era colocado um monte de areia para que pudessem fazer lume e que servia de cozinha, a parte da ré era a oficina da pesca e onde se guardavam as redes.Um universo reservado, com leis próprias.

 

 

Aliás o apodo de “cigano” pode também ter surgido pelo facto de os Avieiros, enquanto sociedade fechada e repudiada, terem o hábito de casar entre si, como forma de protecção, para se defenderem e para preservarem o conhecimento que tinham das artes da pesca e para darem continuidade às suas tradições, tal como praticam as comunidades de etnia cigana.

As embarcações utilizadas pelos Avieiros são construídas por eles mas têm vindo a desaparecer dando lugar aos barcos de fibra. Resta, apenas, aos pescadores, as memórias e a transmissão dos legados a outras gentes.

Pesca-se de noite, o arrais (homem), por norma é quem lança a rede e a camarada (mulher) é quem rema o barco aquando do lançamento. Depois a rede é recolhida para o interior do barco, pelo casal, com as duas cordas juntas de modo a fazer um saco.

Cada rede possui, para além de uma nomenclatura diferente, que os Avieiros “concebem”, uma forma e função distintas consoante o tipo de peixe a que se destina. As redes podem ser de arco, de arrasto, de alvitana ou redonda. Os panos de rede diferem na dimensão da sua malhagem - malha mais basta, para o peixe de menor porte, malha mais aberta, para o de maior. Distinguem-se quatro tipos de redes de arco: o buturão, o galricho, o traquete e a nassa que se diferenciam pelo seu tamanho, pelos diâmetros das malhas e das bocas dos arcos. As redes de arrasto, chincha e varina, são as redes de maior dimensão e de forma quadrangular.

As redes de alvitana ou redonda: o sabugar, a branqueira, o estremalho e a savara que se diferenciam pelo tamanho das malhas.

A confecção das redes, arte de sabegar, envolve o casal de pescadores.

 

(*)Mestre em Educação Social



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Domingo, 10 de Agosto de 2014
TEMAS DE SAÚDE: "O sigilo médico"

 

 

 Por: Antonieta Dias (*)

 

A questão da informatização /informação dos registos clínicos, tornou-se uma exigência do século XXI, sendo só por si uma iniciativa, louvável e absolutamente indispensável no estado actual, tendo em conta a sua relevância e a sua inquestionável importância.

Apesar de se revestir de uma enorme utilidade prática pela rapidez com que se acede a todos os registos permitindo uma circulação rápida de toda a documentação clinica, não deixa porém de ser também uma enorme preocupação para doentes, tendo em conta a quantidade de informação sigilosa a que os  profissionais têm acesso.

Esta necessidade vital de fazer circular a informação de forma célere, carece de alguns cuidados no registo e na codificação dos dados pessoais.

O fato de facilitar ao utilizador uma excelente possibilidade de armazenamento de informações pessoais dos pacientes, cujo registo é feito de forma explicita, permite uma rápida disponibilização da matéria prima privilegiada e recolhida da essência do ser humano que procura os serviços de saúde.

Apesar de haver a obrigatoriedade da protecção da informação fornecida, não existe a garantia de que outras pessoas cujo acesso lhes é permitido venham a respeitar este mesmo princípio.  

Pese embora a inequívoca estratégia de manter a informação dentro dos profissionais que cuidam directamente o paciente, por razões de confiança da relação médico/paciente (utente, doente, cliente), o acesso à privacidade de cada um, só é possível se existir um compromisso entre o profissional de saúde e o doente que o procura.

Porém, a possibilidade de armazenar os registos clinicos “microchip”, na base de dados do processo do doente, em que outras pessoas por questões técnicas irão ter acesso a este mesmo registo, irá com certeza inibir nalguns casos a livre informação dos elementos essências  que deveriam ser fornecidos pelos doentes.

Não é por isso incomum que alguns pacientes, quando se vêem confrontados com o pedido de divulgação dos seus antecedentes de doença, se questionem e algumas vezes até o omitam para que questões de carácter estritamente pessoal, não sejam escritas numa base de dados, não porque receiem que o médico tenha acesso aos seus “segredos”, mas porque temem que essas mesmas informações possam ser do conhecimento de outras pessoas que não estão dentro do círculo de segurança /confiança do doente.

Certo é, que a investigação médica obriga a fazer o despiste de outras patologias que poderão contribuir para um diagnóstico mais célere, nem sempre essas informações são fornecidas.

A realidade que existia antes da informatização era completamente diferente e embora a meta futura seja o processo e arquivo clinico electrónico, devido às suas inequívocas vantagens, alguns profissionais da saúde são por vezes confrontados com uma informação exígua e nalguns casos tardia, impedindo  o exercício da correlação dos dados.

Este facto, tem a ver com a percepção de alguns pacientes que fruto da sua reflexão equacionam a possibilidade da informação que fornecem possa ser tornada pública.

Estes receios não são de todo infundados.

Estas novas tecnologias são sem dúvida um modelo organizativo essencial e vieram possibilitar  efectuar um registo de todos os dados pessoais, todavia, o direito fundamental  da preservação do sigilo e respeito da vida privada do  cidadão, consagrado em vários documentos jurídicos nacionais e internacionais, dos quais se destacam a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a Constituição Portuguesa, a Comissão Nacional de Protecção de Dados e o nosso Código Civil, representam os principais suportes de confiança dos pacientes.

Em suma, o respeito do direito fundamental da vida privada, é um compromisso dos médicos que os vincula como uma norma de conduta essencial no desempenho da sua actividade profissional.

Transferir este compromisso para pessoas alheias pode ser uma ameaça."

 

(*) Doutorada em medicina



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Segunda-feira, 14 de Julho de 2014
TEMAS DE SAÚDE: Estrutura Organizacional dos Centros de Saúde
Por: Antonieta Dias (*)

Ao consideramos que os Centros de Saúde, constituem um ponto de partida preferencial no Sistema Nacional de Saúde destinados a assegurar a cobertura dos cuidados essenciais a prestar à população, de forma personalizada e continuada, de acordo com as características e necessidades dos utentes, nomeadamente a vigilância da saúde, prevenção, diagnóstico e o tratamento da doença, dirigindo-se globalmente ao indivíduo, família e comunidade.

O Centro de Saúde privilegia a informação, audição e qualidade de atendimento dos pacientes.

Assim, compete ao Centro de Saúde fornecer a informação geral à população, através da distribuição periódica de folhetos informativos aos utentes e prestar os seus cuidados de saúde, cumprindo a carta da qualidade (conjunto de compromissos assumidos publicamente e que constituem uma garantia de prestação continuada de cuidados com um nível de qualidade pré-definido).

Certo é que o desempenho profissional terá de ser garantido pela excelência da execução em todas as atividades para as quais se encontra direcionado, sendo a estrutura organizacional deste modelo, um exemplo que a hierarquia terá de fazer cumprir e respeitar, sem a qual não existirão condições para se prestar um bom serviço de saúde.

Ao fazer a caracterização das famílias cujo instrumento de aplicação na consulta é fundamental, pois permite identificar problemas ou situações comuns a cada tipo de família.

O fato de se conhecer com que família ou família estamos a trabalhar, permite-nos prevenir ou identificar estes problemas mais precocemente.

O Genograma familiar, é um método facilmente aplicável de coletar e sumariar dados familiares, permitindo uma perceção rápida da estrutura familiar, das relações entre os elementos da família, situações patológicas e momentos mais marcantes das três ou mais gerações estudadas, identificando problemas/acontecimentos bio-psico-sociais, indicações dos elementos do mesmo lar, inter relação dos elementos, podendo ainda avaliar o grau de satisfação que o utente sente e verbaliza sobre o funcionamento da sua família, desde que se aplique o Apgar Familiar.

Constituindo a família o fulcro de união entre todos os elementos que a compõem, haverá no entanto períodos que poderão ser particularmente instáveis e suscetíveis de causar “doença”.

Deste modo, faz parte das atividades preferências da atividade global do Centro de Saúde assistir as famílias e prestar cuidados preventivos antecipatórios, dado que um grande número dos sintomas físicos e psíquicos estão relacionados com as fases do ciclo de vida familiar.

Sendo assim o papel do médico de família é fundamental no desenvolvimento de uma política de saúde, que engloba um conjunto de cuidados assistenciais diferenciados e imprescindíveis que se iniciam na conceção (saúde materna), se desenvolvem no acompanhamento da saúde infantil, planeamento familiar, saúde de adultos e no tratamento das várias patologias diagnosticadas.

Importa, contudo referir que prestar cuidados de saúde como médico de família, implica dar assistência em todas as fases da vida da pessoa.

Em suma, não podemos deixar de manter e apoiar uma estrutura organizacional que garante a prevenção e o tratamento do indivíduo no seu todo e em todas as fazes do seu ciclo biológico.

(*) Doutorada em medicina



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Domingo, 4 de Maio de 2014
TEMAS DE SAÚDE: O desmoronar do SNS/Tentativa da banalização do ato de prescrição médica

 Por: Antonieta Dias (*)

 

Nestes dois últimos anos temos assistido a mudanças significativas na área da saúde que irão com certeza destruir completamente um serviço de saúde que nos orgulhava e que era invejado por muitos Países a nível mundial.

O diagnóstico atual, quando avaliamos os procedimentos e analisamos os objetivos de quem legisla e os pareceres dos teoricamente conhecedores de uma área tão complexa como a da medicina, em que opinam sobre atos que colocam em risco a vida dos nossos doentes, gera uma angústia terrível, não só pela ignorância demonstrada sobre o verdadeiro papel e conteúdo funcional da profissão do médico que é constrangedor e gera violência, no utilizador(doente).

Pensar que qualquer pessoa que tenha uma intervenção na saúde pode ser candidato a um eventual prescritor clinico é de fato um pensamento terrivelmente desumano e desrespeita completamente o ato medico e a assistência ao doente.

Sem prejuízo, da mais valia e da preciosa colaboração que cada um dos técnicos das várias áreas da equipe de saúde têm (enfermeiros, técnicos de cardiopneumologia, técnicos de radiologia, técnicos de fisioterapia, ortodontésicos, podologistas, etc, etc…), que vieram enriqueceram de forma digna o SNS e contribuíram para melhoram a prestação dos serviços saúde, é um fato inquestionável e demonstrável.

Porém, não podemos de forma nenhuma desrespeitar e desqualificar o conteúdo profissional de cada um dos técnicos e muito menos tentar transferir competências de uns para os outros, sejam quais forem os interesses e objetivos pretendidos de quem decide.

Estando em curso o estudo das condições necessárias ao desenvolvimento da rede de serviços de saúde, é conveniente estruturar mas não destruir.

Respeitar os princípios, os níveis de cuidados, os atributos, as formas de coordenação e os objetivos da atividade assistencial, respeitando o doente e cuidando-o no seu todo, não é possível que alguém com responsabilidade possa propor que outros profissionais que não sejam os médicos, façam prescrições terapêuticas aos doentes.

Se neste momento, com tanta mudança estrutural, com tanta poupança, com tanto desinvestimento, com tanta privação de recursos humanos, de meios técnicos, de dificuldade de acesso dos doentes que residem mais no interior e distantes dos urbanos, já por si é uma perda da qualidade nos cuidados de saúde, não é possível que ainda se pretenda propor, que outros profissionais que não os médicos sejam prescritores de qualquer medicamento seja ele qual for e em que circunstâncias ou contexto clinico se enquadre.

Não podemos aceitar se tente encontrar soluções que coloquem em risco a vida dos doentes e se destrua o acesso aos cuidados de acordo com a “legis artis”.

Antes de prescrever qualquer medicamento é preciso conhecer o doente, é necessário diagnosticar a doença, saber farmacologia e ser um “expert” do conhecimento na indicação do efeito e das contraindicações dos fármacos que estamos a prescrever aos doentes.

Se alguém imagina que a prescrição terapêutica é um mero mencionar de um fármaco que o vizinho, o amigo, o colega, a publicidade é suficiente para ter legitimidade para o fazer é destruir completamente a ciência e a investigação médica.

Salvar a vida do doente é um ato nobre que não pode ser desrespeitado e muito menos violado.

É preciso sim, mudar muitas diretrizes no âmbito da prestação dos cuidados de saúde, mas isso implica mudanças estruturais, e neste momento a mais importante é entregar a responsabilidade da decisão a quem tem competência para o exercício dessa atividade, e os decisores políticos deverão procurar outros meios para poupar na saúde que sejam compatíveis com o que de mais sagrado existe que é a vida e a dignidade da prestação dos cuidados de saúde a quem precisa e tem direito a ser assistido com sapiência e com todos os recursos existentes, pelos vários intervenientes envolvidos na área da saúde.

Deixemos o ato de prescrever para quem tem competência para o fazer sendo que este ato é da exclusiva competência dos médicos e aproveitemos os recursos técnicos de cada um dos outros profissionais cuja função é imprescindível para cuidar bem e melhorar a qualidade em saúde.

Não tentemos confundir e muito menos transferir competências para quem não as tem.

(*) Doutorada em medicina



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Quarta-feira, 16 de Abril de 2014
OPINIÃO: O povo, no dizer da elite, não está à altura de assumir as grandes escolhas



Por: Anabela Melão



Momentos cruciais da vida política passam-se nos "passos perdidos", entre a alcova, a mesa e a bolsa. À revelia do interesse e da voz dos portugueses. As elites dão como certa a conformação e a resignação do povo, adormecido pela escassez, vestida de desemprego, de fome ou de pobreza. O povo, no dizer da elite, não está à altura de assumir as grandes escolhas. A bipolaridade do arco da governação assola o País. Gerou imobilismo. Cimentou a falta de esperança. Mantém um Estado esbanjador. Portugal vive em estado de falso restart. Reina a confusão entre a continuidade e o recomeço, à direita, ao centro e a esquerda. O tal suposto novo restart camufla o equilíbrio draconiano das contas públicas. Sem transparência. É inevitável o cepticismo em relação aos políticos e aos partidos. O futuro de Portugal Livre ultrapassa a discussão da presença da Troika e de ideologias avulsas, marcados por interesses particulares e corporativos. O essencial da questão mantém-se desde há quatro décadas: a escolha de representantes eleitos que obedecem a velhos compromissos de tudo mudar para tudo continuar na mesma. A falta de cidadania levou a que a pomba da liberdade se encarcerasse em belém, a que são bento claudicasse, a que laranja apodrecesse à lapa, a que a rosa murchasse no rato, a liberdade voou para parte incerta, mas para longe do cais das colunas e do porto graal. Um País que se deixa morrer abnegado pela sua margem falsa de conforto, sucumbiu ao paternalismo do poder instalado, avassalou-se a uma vida sem dignidade, preteriu o direito ao sonho. Um restart não chega. Urge ressuscitar. A Portugal falta o pé. Levantar-se. Erguer-se. Faz falta a este portugal o Portugal de todos. Restaurar Portugal sim. Encontrem-se, ao menos, Quarenta Conjurados. 

40 anos depois.

- qual é o maior pesadelo? viver no estertor do marcelismo ou sob dominação estrangeira?

- há 40 anos ninguém aceitava a legitimidade do poder. hoje, a questão da "legitimidade" não se coloca, argumentando muitos que este foi estabelecido pelas mãos do povo nas urnas [como tantas outras ditaduras!]. uma acção insurreccional ou uma ruptura profunda só é permitida, segundo outros, desde que dentro do quadro institucional.

- espoliam-se direitos aos reformados, funcionários públicos e trabalhadores, a coberto de um estado de emergência não declarado pelas vias constitucionais, mas assumido, cá dentro e lá fora.

- contrariamente há 40 anos, o país vive sob a ficção da interdependência, na ausência da soberania vendida.

- se há Liberdade? Liberdade para que liberdades? As que restam.

- rendemo-nos à "democracia" regular pela via da escolha?

- optamos por alternativas "de alterne"!?

Portugueses. 40 anos depois. Portugal sem esperança. Em decadência. A caminho da sua própria irrelevância.

"- A nação é de todos. A nação tem de ser igual para todos. Se não é igual para todos, é que os dirigentes, que se chamam Estado, se tornaram quadrilha. Se não presta ouvido ao que eu penso e não me deixa pensar como quero, se não deixa liberdade aos meus actos, desde que não prejudiquem o vizinho, tornou-se cárcere. Não, os serranos, mil, cinco mil, dez mil, têm tanto direito a ser respeitados como os restantes senhores da comunidade. Era a moral de Cristo: por uma ovelha... Se os sacrificam, cometem uma acção bárbara, e eles estão no direito de se levantar por todos os meios contra tal política." - Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam, 1958

Comemorar o quê? Senhores, falta cumprir-se Portugal!





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Segunda-feira, 24 de Março de 2014
TEMAS DE SAÚDE: Lesões da coluna vertebral em atletas

Por: Antonieta Dias (*)

 

“Estima-se que nos Estados Unidos da América cerca de 9% das lesões da coluna vertebral são provocadas pela prática desportiva, designadamente em desportos de grande risco, como o futebol americano, wrestling, mergulho, hóquei no gelo, entre outros.

Ao nível da coluna vertebral o homem possui cinco curvas sagitais: cifose da occipital à C2(da segunda vertebra cervical), lordose da C2 à T2 (da segunda vertebra cervical à segunda vertebra torácica), cifose (curvatura com concavidade anterior)da T2 à T11(2.ª vértebra torácica à decima primeira vertebra torácica), lordose de L1 a L5(curvatura com concavidade posterior).

Sabe-se que as lesões estão relacionadas com a especificidade das vértebras e que o Axis (C2) funciona como Pivot para a rotação do atlas e da cabeça.

Sempre que surge um problema a este nível poderá comprometer o movimento do pescoço e da cabeça.

Anatomicamente a nossa coluna vertebral tem sete vertebras cervicais, doze vértebras torácicas, para além das restantes vertebras lombares e sagradas.

Relativamente às estruturas ligamentares que fazem as ligações entre as vértebras temos. Dois grandes ligamentos (LLA) e o posterior(LLP),  o ligamento amarelo, o ligamento supraespinhoso. Estes ligamentos são responsáveis pela estabilidade da coluna vertebral.

O disco intervertebral que existe nas vértebras, é constituído por duas partes. O anel fibroso (corresponde à zona de menos resistência) e o núcleo pulposo (que serve de amortecedor e permite a mobilidade do segmento).

Sempre que existe uma  lesão deverão ser avaliados  os défices neurológicos: sinais do neurónio motor superior, sinais do neurónio motor inferior, lesão completa ou incompleta, padrões comuns de lesão do cordão medular e choque vertebral, para posterior orientação clinica que poderá passar por tratamento médico ou por tratamento cirúrgico.

Relativamente aos sinais de lesão cerebral do neurónio motor superior (central ou medular alto) o alerta deve ser dirigido para a lesão cerebral: a postura em descerebração e a descorticação).Porém existem sinais discretos mas importantes que devem ser pesquisados sempre que existe uma lesão: o sinal de Hoffman (contração involuntária do polegar); Clonus (dorsiflexão forçada da mão e do pé em que a pessoa faz movimentos involuntários repetidos), sinal de  Babinsky (ocorre extensão do hallux quando há lesão) e Hiperreflexia (movimento reflexo exagerado, aumento da área do reflexo).

Para além disso é obrigatório na avaliação clinica fazer o diagnóstico diferencial  entre lesão completa e lesão incompleta.

Sempre que existe uma lesão completa surge perda do controlo esfincteriano, enquanto que na lesão incompleta não há lesão esfincteriana.

Sempre que ocorre uma lesão a nível da coluna vertebral devemos previamente prestar os primeiros socorros (imobilizar corretamente) de acordo com as recomendações preconizadas, aplicar a Escala de Glasgow que nos permite ter uma ideia da gravidade do lesionado e controlar a dor.

A avaliação sensitiva nos 28 dermátomos e a avaliação da força muscular são manobras médicas imprescindíveis para a avaliação destes pacientes.

Posteriormente deverão ser transportados (imobilizar em bloco para um plano duro e transportar a pessoa quando estiver devidamente imobilizada) do local do acidente para um centro hospitalar onde deverão ser investigados com: Radiografia, tomografia axial computorizada, ressonância magnética nuclear e se necessário cintigrafia óssea e discografia.

Havendo suspeita de lesão o atleta deverá ser tratado de acordo com a patologia diagnosticada, que determinará se o tratamento mais adequado é o tratamento conservador ou o tratamento cirúrgico).

O regresso ao desporto só deverá ser autorizado desde que a estabilidade sequelar seja atingida.”

(*) Doutorada em medicina



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Sábado, 1 de Março de 2014
Livre Circulação na UE
 

 

 

Guia para a aplicação do "teste de residência habitual" para a segurança social

 
 Um guia prático sobre o "teste de residência habitual", destinado a ajudar os Estados-membos a aplicar as regras da UE em matéria de coordenação da segurança-social no caso dos cidadãos da UE se mudarem para outro Estado-membro, acaba de ser publicado pela Comissão Europeia. O novo guia lança luz sobre o "teste de residência habitual" da UE e facilitará a sua aplicação prática pelas autoridades dos Estados-membros.
O guia, elaborado em cooperação com os Estados-membros, esclarece os diferentes conceitos de "residência habitual", "residência temporária" e "estada". Estas definições, consagradas na legislação da UE, são necessárias para determinar qual o Estado-membro responsável pela concessão de prestações de segurança social aos cidadãos da UE que se deslocam entre os Estados-membros. Ao abrigo da legislação da UE, só pode haver um local de residência habitual, pelo que apenas um Estado-membro é responsável pelo pagamento de prestações de segurança social com base na residência.
Os trabalhadores assalariados e os trabalhadores não assalariados podem beneficiar da segurança social do país onde trabalham e as pessoas não activas (por exemplo reformados, estudantes) podem usufruir dessa protecção no Estado-membro em que são "residente habitual". Determinar o Estado-membro de "residência habitual" de uma pessoa é igualmente importante para os trabalhadores que trabalham em mais do que um Estado-membro.
O guia recorda os critérios específicos que devem ser tidos em conta para determinar o local de "residência habitual" de uma pessoa, tais como:
- a situação familiar e as relações de parentesco
- a duração e a continuidade da presença no território do Estado-membro em causa
- a situação no mercado de trabalho (em especial, o local em que a actividade é habitualmente exercida, a natureza estável da actividade e a duração do contrato de trabalho)
- o exercício de uma actividade não remunerada
- no caso de estudantes, a fonte de rendimentos
- a situação de uma pessoa relativamente à habitação em termos da sua permanência
- o Estado-mmebro em que a pessoa paga os impostos
- as razões para a mudança
- as intenções da pessoa, com base em todas as circunstâncias e com o apoio de elementos de prova concretos
Outros factos podem também ser tidos em conta.
O guia fornece igualmente exemplos concretos e orientação sobre os casos em que a determinação do lugar de residência pode ser difícil, como no caso dos trabalhadores fronteiriços, dos trabalhadores sazonais, dos trabalhadores destacados, dos estudantes, dos reformados e das pessoas inactivas em mobilidade.
Por exemplo, se um cidadão do Reino Unido se reforma em Portugal e passa a maior parte do seu tempo nesse país, o seu local de "residência habitual" é agora Portugal, mesmo se ainda possui uma casa no reino Unido e mantém laços culturais e económicos com o Reino Unido.
Contexto
O guia sobre a "residência habitual" faz parte de um manual mais amplo destinado a ajudar as instituições, os empregadores e os cidadãos a determinar qual a legislação nacional de segurança social que deve ser aplicável em circunstâncias específicas. O manual também esclarece as regras que se aplicam aos trabalhadores destacados e às pessoas que trabalham em dois ou mais Estados-membros, incluindo regras aplicáveis aos trabalhadores do sector dos transportes, em especial os membros de tripulações de voo e de cabina dos aviões.
A publicação Guia Prático sobre o teste de "residência habitual" constitui uma das cinco acções anunciadas na "Comunicação sobre a Livre Circulação dos Cidadãos e das suas Famílias", de 25 de Novembro. O guia está agora disponível em inglês e será traduzido para todas as línguas oficiais da UE nas próximas semanas.

'Noticias do Ribatejo' com  ip/santarem/europedirect

 


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Domingo, 23 de Fevereiro de 2014
TEMAS DE SAÚDE: Lesões no Desporto/LCA

 Por: Antonieta Dias (*)

 

Os benefícios do exercício físico são conhecidos, não só pela sua importância na manutenção física, como no desenvolvimento  social e intelectual.

A prática desportiva reflete-se  numa melhoria  das capacidades funcionais (coordenação, força, função cardiorrespiratória, capacidades anaeróbias e aeróbias), cujo beneficio individual é inquestionável.

Contudo, não podemos porém esquecer que as capacidades de resposta ao exercício são ilimitadas, e devem ser adaptadas à faixa etária de cada atleta.

Se tivermos como grupo desportivo o das crianças, temos que compreender que se trata de jovens ainda em desenvolvimento, com limitações funcionais de resposta à exigência da respetiva modalidade.

A diminuição das doenças cardiovasculares, da obesidade, o aumento da massa óssea e da capacidade cardiorespiratoria, representam um dos maiores benefícios, para se estimular a prática desportiva.

Todavia, esta atividade não está livre de ameaças ou riscos, sendo que as lesões são um dos malefícios, representando algumas vezes limitações funcionais temporárias ou definitivas, cuja gravidade sequelar pode ser extrema e aniquilar mesmo a carreira do atleta.

Sempre que um atleta se lesiona, surge um impacto negativo na sua atividade desportiva.

Uma lesão frequente no desporto, é a lesão do ligamento cruzado anterior (LCA), cuja anatomia e biomecânica  resulta em  “pivot”, na parte central do joelho, funcionando como elemento de estabilização passiva.

O ligamento cruzado anterior (LCA), insere-se na face interna do côndilo da tíbia, tendo uma grande resistência mecânica.

Este ligamento apresenta uma curvatura dos côndilos femorais e é responsável pelo controlo da translação anterior e rotação interna da tíbia sobre o fémur.

Sempre que um atleta se lesiona neste ligamento, implica uma intervenção médica imediata e atempada, com o objetivo de tratar o mais precocemente possível a lesão, a fim de evitar sequelas irrecuperáveis.

Apesar de ser uma lesão muito comum e de fácil resolução médica/cirúrgica, a recuperação após a sua reconstrução obriga à necessidade do controlo da translação e da rotação.

Exige ainda uma intervenção dirigida e assertiva de grande investimento no âmbito da fisioterapia  destinada a corrigir a marcada atrofia muscular e a fazer a recuperação funcional  do órgão lesionado.

A decisão ou não pela intervenção cirúrgica, vai ser depender da avaliação detalhada da competência biomecânica do ligamento, que é feita através de testes manuais, que permitam determinar com precisão a existência ou não da instabilidade rotatória.

Sendo que algumas vezes, se opta pela reconstrução parcial do ligamento, para se poder usufruir da fisiologia do feixe.

Na recuperação da estrutura, da função muscular e da amplitude do movimento, devemos ter particular atenção ao arco de movimento da extensão, evitar sintomas (derrame ou dor), reeducar a propriocetividade, controlar fatores psicossociais designadamente a quinesiofobia.

São vários os testes que se utilizam  para o diagnóstico da lesão do ligamento cruzado anterior (KT 1000,  hig-speed stereo radiography,  porto knee testing device).

Importa, porém referir que o exame imagiológico de eleição para o diagnóstico é a ressonância magnética nuclear do joelho.

Sempre que se decide por uma intervenção cirúrgica, esta terá de ser complementada com a reabilitação, cuja introdução de carga precoce e mobilização passiva contínua, evitará as aderências, derrames e degenerescências.

Salienta-se ainda que após a cirurgia o ligamento vai recuperando a sua revascularização e reintegração biológica de forma progressiva.

O fortalecimento muscular tem benefícios comprovados, sabendo-se que o aumento da ativação das unidades neuronais, melhora a coordenação motora e a transmissão neuronal.

A implementação de programas e planos de intervenção destinados a prevenir o aparecimento de lesões desportivas são objetivos de primeira linha para quem está inserido no fenómeno desportivo.

A comunidade desportiva é demasiado complexa sendo essencial que os profissionais que exercem funções assistenciais a grupos tão heterogéneos não só nas modalidades desportivas mas também nas particularidades pessoais de cada atleta, necessitam de uma preparação polivalente e abrangente, sem as quais a sua eficácia e competência não serão atingidas.

Em suma, desporto e lesão são associações frequentes cuja recuperação física e psicológica exigem uma dedicação e tratamento assertivo, para minimizar as sequelas e reduzir o tempo de inatividade desportiva.”

  (*) Doutorada em medicina



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Domingo, 2 de Fevereiro de 2014
Eurobarómetro

Portugueses a favor de participação mais directa nas europeias

 

A poucos meses das Eleições Europeias, 51% dos portugueses defendem que Portugal beneficiou do facto de ser membro da União Europeia. Segundo os dados do Eurobarómetro, a maioria dos portugueses é favorável à eleição directa do Presidente da Comissão Europeia pelos cidadãos.

Os mais recentes dados aferidos pelas sondagens do Parlamento Europeu nos Estados-membros indicam que 70% dos cidadãos portugueses são favoráveis à eleição directa do Presidente da Comissão Europeia num futuro próximo, uma vez que esta alteração dotaria as decisões da UE de maior legitimidade (37%) e reforçaria a democracia (32%), assim como o sentimento de ser cidadão europeu (30%).

Confrontados com a possibilidae de, nas próximas eleições, as alianças políticas apresentarem o seu candidato para o cargo com base num programa conjunto, isto é, de os cidadãos participarem indirectamente na eleição do presidente da Comissão, 44% dos portugueses afirmam que isto os encorajaria mais a votar, uma percentagem menos representativa do que a registada na generalidade da União (55%), face aos 40% que respondem negativamente (36% na UE28).

Relativamente às vantagens de ser membro da UE, 51% dos inquiridos pensam que, "tendo tudo em consideração", Portugal beneficiou de ser membro da UE; porém 42% discordam (54% e 37%, respectivamente, na UE). Ainda a percentagem de portugueses que defende que o facto de Portugal fazer parte da UE é "uma coisa boa" aumentou em 2 pontos percentuais desde a sondagem do ano passado, para 36% e a percentagem dos que o consideram "uma coisa má" diminuiu para 24%.

A identidade europeia, dizem os portugueses inquiridos, é formada, principalmente, pela moeda única (39%), pelos valores da democracia e da liberdade (31%) e pela história (23%), a mesma ordem apresentada pela generalidade dos cidadãos europeus. Quanto aos aspectos que contribuiriam para fortalecer o sentimento de ser europeu, os portugueses nomeiam essencialmente medidas sociais e políticas, como um sistema de assistência social harmonizado (37%), poder viver em qualquer lugar da UE depois de reformado e receber lá a sua pensão (33%) e ter o direito de votar em todas as eleições do Estado-membro onde vive (24%).

Para o futuro, os inquiridos têm principalmente preocupações de carácter socioeconómico, considerando que os maiores desafios para a UE serão o desemprego (68%), as desigualdades sociais (47%) e o envelhecimento da população (32%). Daqui a dez anos, 37% dos portugueses preveem que os cidadãos estarão mais envolvidos nos assuntos europeus, sendo que apenas 20% consideram que o envolvimento vai diminuir (42% e 20% na UE28).

Os dados sobre Portugal baseiam-se em 1 016 entrevistas directas pessoais realizadas entre 10 e 23 de Julho de 2013, num universo de 27 624 entrevistas realizadas nos 29 Estados-membros.

 

'Noticias do Ribatejo' com  ip/santarem/europedirect



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Domingo, 22 de Dezembro de 2013
TEMAS DE SAÚDE: Lesões no desporto

Por: Antonieta Dias (*)

 

O desporto representa por si mesmo e pelas suas múltiplas facetas, uma situação favorecedora da saúde, sendo atualmente inquestionáveis os efeitos positivos que a prática desportiva proporciona. Por este motivo, o interesse cada vez maior pelo desporto tem feito com que o número de praticantes - quer amadores quer profissionais -  tenha vindo a aumentar consideravelmente, tornando a sua prática no contexto actual uma rotina quase obrigatória e levando a que a idade de início da prática desportiva surja cada vez mais precocemente.

 

Sendo verdade que quanto maior for o número de praticantes maior será a probabilidade de sofrerem lesões, estas são um obstáculo importante à prática desportiva, podendo impedir temporariamente ou definitivamente a actividade do atleta, conduzindo necessariamente a uma diminuição ou ausência de rendimento, conforme a sua gravidade, situação que se torna ainda mais crítica se surgir num jovem em fase de crescimento.

 

É sabido que os diferentes tipos de actividade desportiva impõem exigências variáveis aos desportistas que a praticam. As tarefas que diariamente são pedidas, sobretudo aos atletas de elite, para atingirem bons resultados, passam necessariamente por um aperfeiçoamento das técnicas, por um número maior de horas de treino, por um aquecimento adequado, por programas de treino e de competição intensivos, por uma ingestão suficiente de líquidos, por uma alimentação completa e variada e por uma sistemática boa higiene orgânica (repouso, sono, abstenção de álcool). No entanto, e apesar de uma constante melhoria das técnicas de treino e da melhoria tecnológica envolvida, ninguém fica imune ao risco de lesões, que constituem um dos principais obstáculos ao rendimento desportivo e que podem representar um impedimento temporário ou definitivo na prática desportiva, com todas as implicações que daí advém.

 

Por melhores que sejam as qualidades pessoais do atleta e mesmo que a sua preparação técnica seja excelente, o sucesso desportivo não pode ser atingido se durante a sua prática desportiva este ficar impedido de manter um programa de treino de forma permanente e eficaz por um período de tempo prolongado.

 

O nosso papel tem sido o de actuar a nível da prevenção, divulgando medidas eficazes, a fim de impedir o aparecimento de lesões. No entanto, e apesar da introdução de tais medidas, é inevitável que elas surjam, pelo que nessa eventualidade ter-se-á de actuar de imediato na sua resolução, de forma a minimizar as consequências e a permitir o retorno à actividade desportiva o mais rapidamente possível.

 

As lesões de uma maneira geral podem surgir como consequência da actividade desportiva em geral, estarem relacionadas com o gesto desportivo específico ou mesmo serem provocadas pelo próprio desporto (Ex. fracturas de sobrecarga ao nível dos metatarsianos em corredores de fundo).

Muitas têm sido as investigações efectuadas sobre as lesões desportivas, tendo a maioria dos autores feito a descrição de algumas tipologias mais frequentemente encontradas. Algumas caracterizam determinadas modalidades, permitindo-nos fazer comparações com as lesões sofridas pelo grupo de atletas estudados. Tendo como fonte Cruz e Neto (1996), mencionaremos alguns dos estudos seleccionados e citados por estes autores:

 

“Pontana e colaboradores (1979), mostraram que nas épocas de 1976/77 e 1977/78, nas 16 equipas italianas da 1.ª divisão de futebol, tinham ocorrido 1.228 lesões. Os jogadores atacantes foram os mais atingidos tendo 83.8% das lesões ocorrido nos membros inferiores e em particular na coxa.

 

De salientar o estudo epidemiológico de Volgi no campeonato do Mundo de Futebol (1990), em que nos 102 jogadores observados, se constatou que foi na primeira metade da 2.ª parte que surgiram mais lesões.

 

Mais tarde, Angelini e colaboradores (1992), num estudo que fizeram em 1.018 atletas de futebol que participaram nos jogos, de Agosto de 1980 a Junho de 1991, foram registadas 207 lesões. Nesta amostra foram consideradas como lesões mais significativas as que impediam o atleta de realizar pelo menos um jogo ou uma sessão de treinos. De salientar que a gravidade das lesões aumentou com a idade e com a intensidade da competição.

 

A maioria das lesões (67%) incidiram nos membros inferiores. As lesões musculares da coxa, por estiramento ao pontapear a bola (86% dos casos) e nos gémeos ao fazer sprint(91%>) foram os mais frequentes, tendo sido as do joelho (25%) e do tornozelo (18%).

Uma outra investigação, efetuada em Espanha por Ferrier, Rodriguez, Carriou, Bleda e Santonya (1994), realizada em 26 jogadores de futebol da 1.ª divisão, constataram a existência de 169 lesões. Neste estudo as lesões tendinosas foram as mais frequentes (10%).

Num outro estudo efetuado por Bégue, Blanc e Huguet(1976, citado por Ferreira, 1995), ao estudar uma equipa de profissionais de futebol americano, durante 8 épocas sucessivas, constatou que a articulação do joelho era a zona corporal mais atingida e que 20% das lesões se localizavam nos membros superiores, 18% no tornozelo e 12% no crânio e face 16% destas fraturas eram no nariz)

Nas investigações efetuadas em Portugal, salientamos um primeiro estudo de Massada(1985), efetuado a 36 voleibolistas do sexo masculino.

Destes só 5 é que não sofreram lesões, os outros (86.1%) referiram 112 lesões, sendo 42.9% nos membros superiores, 48.2% nos membros inferiores e 8.9%, na coluna vertebral. As zonas corporais mais atingidas foram os dedos (30.4%), as entorses ao nível da articulação tíbio - társica (19.6%), o joelho (18.8%) e o ombro (10.7%).

 

Um outro estudo, realizado por (Massada, Pinto, Real, Gancho e Rocha, 1986), abrangeu 40 praticantes de hóquei em campo da 1.ª divisão. As contusões ficaram em 1.º lugar (50.8%), distribuídas pelas pernas e cabeça, 21% foi a percentagem obtida para as lesões musculares e articulares.

 

Mais tarde Massada, Teixeira, Conde e Lemos (1987), realizaram outro estudo em basquetebolistas de média e alta competição, concluíram que as lesões articulares eram as mais frequentes (43,1%), atingindo as regiões distais dos membros superiores e inferiores (50%).

 

Numa investigação feita por Ribeiro (1992) a um grupo de 25 jogadores de futebol, foram encontradas 86 lesões, que atingiram os membros inferiores (excepto três que se produziram nos membros superiores). Estas lesões produziram 998 dias de tratamento e recuperação, num total de 455 dias de repouso absoluto, 212 de trabalho em ginásio, 185 de endurece e 120 dias de treino condicionado. A frequência de lesões foram as musculares (39), seguidas das ligamentares (21) e pelas tendinopatias.

 

Num estudo efetuado por Carvalho (1994) em 402 atletas de futebol, sendo 178 (44%) profissionais e 224 (56%) amadores. Foram detetadas 585 lesões, 156 musculares (26%), entorses 138 (23%), lesões tendinosas (11%).

Massada, Freitas e Mourinho (1985), estudaram 30 dos melhores remadores portugueses, tendo encontrado 75% das lesões ao nível da coluna vertebral, sendo as lombalgias responsáveis por 58.4%.

Um outro estudo feito por Massada, Damásio, Mota e Lemos (1987), que incluiu 35 dos melhores atletas de salto de atletismo, pertencendo 19 ao sexo masculino e 16 ao sexo feminino. As lesões traumáticas mais frequentes estavam localizadas ao nível das articulações (41.6%).

O quadro 1, mostra uma investigação feita por Cruz (1992), nos atletas de judo, tendo feito a comparação entre os atletas franceses e portugueses revela alguns dados importantes.

Estudo comparativo no Judo (Adaptado por Cruz, 1992).

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FrançaPortugal

Tempo de observação 4 anos 1 ano

N.º de Competições 1547

N.º de Atletas 17.596716

N.º de atletas observados 4.29 (24%) 122 (17%)

Desistência por ordem médica 337 (1.9%) 20 (2%)

Hospitalizações 106 (0.6%)5(0.6%)

______________________________________________________________________

 

 

Neste estudo a articulação mais atingida na equipa francesa foi o joelho, sendo que o ombro aparece em 2.º lugar (16.7%) e depois o cotovelo (15.6%). Já nos atletas portugueses, os locais mais atingidos foram a cabeça (22%), as mãos (20.5%) e o joelho (16.3%).

As citações feitas por Cruz e Neto em 1996, demonstram claramente as implicações que uma lesão provoca na carreira de um atleta de alta competição e as repercussões negativas que daí resultam, obrigando-nos como responsáveis diretos na investigação desportiva a criar medidas de intervenção urgentes de forma a minimizar drasticamente estas situações.

 

Não temos dúvida de que a elaboração destas intervenções, passará necessariamente pelo conhecimento geral e aplicação prática de todas as regras de segurança, pelo cumprimento adequado das técnicas e por uma orientação específica e individualizada dos métodos mais adequados para a execução das tarefas. Só assim se poderá obter êxito na prevenção das lesões.

 

Por outro lado, os resultados obtidos por estes autores parecem sugerir dois conjuntos de dados importantes:

 

 

a) a importância de alguns fatores e aspetos psicológicos associados às lesões desportivas, descritas não só na literatura nacional (ver Cruz e Dias, M.A.* 1996; Cruz e Neto, 1996); e na literatura internacional (ver Heil, 1993; Buceta, 1996);

 

b) a importância da inter-correlação e interdependência entre variáveis e processos psicológicos de natureza cognitiva, motivacional e afetiva, nomeadamente a perceção de ameaça e os recursos e competências psicológicas de confronto psicológico em contextos desportivos e competitivos (Cruz, 1994, 1996; Hardy et al., 1996).

 

O fato de “não atingirem objetivos importantes na sua carreira desportiva”, “não terem o rendimento pretendido e /ou desejado”, “poderem falhar ou cometer erros em momentos decisivos”, “ não corresponderem ao que os outros esperam dele” e “poderem sofrer lesões graves”, são situações vivenciais potencialmente stressantes, que funcionam de forma negativa e são favorecedoras do aparecimento de lesões.

Estes dados comprovam também resultados anteriores de estudos nacionais e internacionais efetuados com atletas de elite de outras modalidades, sugerindo adicionalmente a importância das recentes abordagens cognitivas e motivacionais ao estudo do processo do stress, às reacções emocionais de ansiedade aos mecanismos gerais de adaptação humana (ver Cruz, 1994, 1996; Lazarus, 1991; Hardy et al., 1996).

 

Os conhecimentos da vida, positivos e negativos, experienciados pelos atletas lesionados, bem como os resultados obtidos, sugerem de uma forma clara, mas também previsível, que a lesão sofrida é o acontecimento (sempre avaliado de uma forma negativa) que em termos individuais, foi mais frequentemente citado pelos atletas.

 

Estes dados parecem evidenciar o modo como cada indivíduo interpreta os acontecimentos da vida (Brewer, 1994, Buceta, 1996, Cruz, 1994, 1996, Lazarus, 1991; Smith et al., 1990.

 

“Aos diferentes agentes (fontes) de apoio e ajuda, de natureza social e emocional, durante o processo de recuperação das lesões, os atletas referem a importância, por ordem decrescente, da companheira (namorada, esposa), dos familiares mais próximos, da equipa médica, dos amigos e dos colegas de equipa.” “Os atletas lesionados com maiores níveis de apoio social e emocional, percecionam níveis significativamente mais elevados de rapidez na recuperação das respetivas lesões” (Fonte: Cruz e Neto 1996).

Esta investigação permite aos autores concluir que os processos mentais e psicológicos exercem uma importância fundamental na recuperação de lesões desportivas, mas evidenciam ainda o papel determinante que o apoio social, psicológico e emocional tem nos atletas lesionados, fatos já bem salientados e comprovados na literatura da especialidade (Brewer, 1994, Cruz e Dias, M.A., 1996; Heil, 1993; Buceta, 1996, Dias, M.A. 1994).  

 

Conclusão

 

Face à ubiquidade e à inevitabilidade do aparecimento de lesões no desporto, há uma clara necessidade de implementar programas de intervenção psicológica, que possibilitem uma abordagem multidisciplinar na prevenção e recuperação das mesmas, sendo estes um importante instrumento adicional de melhoria de rendimento desportivo, juntamente com as medidas padrão estabelecidas para o efeito.


(*)Doutorada em medicina



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Domingo, 8 de Dezembro de 2013
TEMAS DE SAÚDE: Saúde, uma Prioridade em Portugal

 Por: Antonieta Dias (*)

 

“Se o Sistema Nacional de Saúde funcionou como um estimulante na prevenção da doença em Portugal, neste momento, já não podemos mais acreditar que a redução e sensação de fadiga mental e física que permitem aumentar o estado de alerta, necessário para alimentar a nossa condução motora e reduzir o aparecimento das doenças, seja um objectivo a atingir a curto, médio ou mesmo a longo prazo.

Talvez seja necessária uma dose de um protótipo dos estimulantes do Sistema Nervoso Central, ou seja, o mais certo, é necessitarmos de uma dose de anfetaminas que têm indicações específicas (algumas formas de síndrome de hiperactividade nas crianças e na narcolepsia no adulto), para conseguirmos despertar do marasmo em que nos encontramos e sobretudo, da forma como reagimos a todas estas mudanças que se vão instalando, sub-repticiamente,        cujas consequências serão fatais a curto prazo.

Se este efeito de euforia, agitação, precipitação, na tentativa de resolução imediata, para reduzir o défice, irá ter as consequências neurotóxicas, semelhantes à utilização da Ecstasy, talvez seja de facto este o melhor método e o mais eficaz, tendo em conta que tal como esta droga, cuja utilização crónica conduz à tolerância, à destruição neuronal e ao envelhecimento precoce dos neurónios, nos ajude a vencer a grave problemática que existe no seio dos serviços de saúde.

Os mais renitentes a esta metodologia de intervenção, devem ser também os mais resistentes à introdução destas drogas, sintéticas e como tal estão já ultrapassados, porque vivem num contexto social que não se adapta à sociedade que estamos a viver.

Todavia, se o objectivo dos profissionais competentes da saúde, não é encontrar uma substância dopante que nos faça viver num mundo de ilusão, mas sim pretendem contribuir para que a saúde mental e física seja uma prioridade na intervenção das medidas antecipatórias, destinadas a mudar os comportamentos para estilos de vida saudável.

Como seres pensantes e responsáveis que somos, não podemos ficar com as reservas dos nossos neuroreceptores com níveis inferiores aos necessários para recuperar a nossa vitalidade e a nossa preocupação, pelo que nos irá acontecer a muito curto prazo, com todas estas reestruturações que estão a acontecer no Sistema Nacional de Saúde.

Não pretendemos com é óbvio tornar disponível um sistema cujo acesso seja impeditivo de chegar ao local mais adequado para fazer o diagnóstico e o tratamento atempado da prevenção e do tratamento da doença, de forma a minimizar os efeitos deletérios da utilização ou melhor de um sistema de saúde que não resolve os problemas de quem necessita dele.

Podemos ter a certeza, que não é com medidas destinadas a impedir ou dificultar a acessibilidade aos sistemas de saúde, quer seja através do aumento das taxas moderadoras, quer seja pela privação de prestação de cuidados de saúde vitais, que estamos a prestar um bom serviço e sobretudo que estamos a economizar na saúde.

 A vida humana é um bem precioso, e preservar a saúde e tratar a doença, para a manutenção do bem estar dos portugueses é o melhor investimento que podemos fazer a curto prazo para economizar no futuro.

Nenhuma pessoa sensata, vai procurar os efeitos dopaminérgicos numa droga que estimula o sistema nervoso central, mas que pode originar convulsões.”

(*) Doutorada em medicina



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Domingo, 3 de Novembro de 2013
TEMAS DE SAÚDE: Organização e Gestão da consulta de Medicina Geral e Familiar

Por: Antonieta Dias (*)

 

A medicina familiar é uma especialidade relativamente recente e poderá ser definida como um conjunto de conhecimentos sobre os problemas que os médicos de família têm que resolver de acordo com a sua capacidade técnico-científica. A competência do médico de família identifica-se pela sua capacidade de diagnosticar e de tratar todas as situações que lhe surgem.

Foi no ano de 1971, com os Decretos de Lei n.º  413 e 414, que se implementou a grande mudança dos serviços de saúde. Passou-se a partir daí a considerar como prioritárias as atividades de promoção da saúde e prevenção da doença, tendo sido criados programas de vigilância específicos.

Mais tarde com o Decreto Lei n.º 254/82 de 29 de Junho, foram criadas as Administrações Regionais de Saúde, das quais dependem os Centros de Saúde.

O despacho normativo n.º 97/83 de 28 de Fevereiro regulamentou os Centros de Saúde, apesar de ter sido só em 1990 que foram estabelecidas as diretrizes, através do Decreto de Lei n.º 48/90. As principais orientações eram as seguintes:

-Promoção da saúde e prevenção da doença;

-Igualdade no acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde, seja qual for a sua condição económica;

-Tomar medidas específicas para grupos sujeitos a maiores riscos, tais como: crianças, adolescentes, grávidas, idosos, deficientes, toxicodependentes e trabalhadores cujas profissões o justifiquem;

-Promoção dos indivíduos e da comunidade organizadora na definição da política de saúde, do planeamento e no controlo do funcionamento dos serviços;

-Incentivo à educação das populações para a saúde, estimulando nos indivíduos e nos grupos sociais à modificação dos comportamentos nocivos à saúde pública ou individual.

Nos últimos anos as políticas de saúde desenvolveram um papel fundamental, nas ações dos centros de saúde, sobretudo com os acontecimentos mundiais, em que se destacam os principais:

Conferência de Alma Ata(1978),

Estratégias e Saúde para todos (OMS, 1985)

Conferência de Otawa (1986)

Todas estas diretrizes criaram a necessidade de gerir a consulta de forma a obter os melhores resultados, sendo que o objetivo principal na organização da consulta é melhorar a qualidade dos cuidados prestados tanto nas áreas preventiva como curativa, providenciar uma boa acessibilidade e proporcionar a continuidade e globalidade dos cuidados assistenciais aos pacientes.

É muito importante ter particular atenção na consulta dos grupos vulneráveis/risco, particularmente em Saúde Infantil, Saúde Materna e nos Idosos, sem contudo esquecer a necessidade de fazer um controlo adequado aos doentes hipertensos, aos doentes diabéticos,  orientar as mulheres em idade fértil e com vida sexual ativa na consulta  de planeamento familiar.

O agendamento da consulta deverá ser efetuado pelo pessoal administrativo na secretaria, sendo que os doentes o poderão fazer pessoalmente ou pelo telefone, podendo a sua marcação ser de forma programada ou no próprio dia de acordo com a preferência e/ou necessidade do utente tendo como exemplo a periodicidade de agendamento da consulta de diabéticos que deverá ser trimestral.

Nas primeiras consultas devem-se registar os motivos da consulta, fazendo a anamnese e história pregressa o mais completa possível, bem como um exame objetivo pormenorizado.

Ao longo da continuidade das consultas deve ser complementado o quadro individual da saúde dos utentes, fazendo a sua caraterização, o enquadramento familiar e socioeconómico.

O registo da informação poderá ser feito segundo o método de Laurence Weed, isto é usando o registo Médico Orientado por problemas (RMOP), constituído essencialmente por 4 componentes fundamentais: base de dados, lista de problemas, notas clínicas progressivas e folhas de resumo.

As notas clinicas de seguimento deverão ser descritas por ordem cronológica na folha de consulta, segundo a anotação SOAP, que consiste em:

S-Subjetivo: motivo da consulta, outras queixas do doente e anamnese;

O-Objetivo: resultado de exames complementares de diagnóstico, exame objetivo, parecer de outros colegas;

A-Avaliação: problemas e diagnósticos identificados, bem como atual fase de resolução.

P-Plano: medicação a efetuar ou renovação, pedido de exames complementares de diagnóstico, recomendações, períodos de incapacidade temporária absoluta (baixas) e data da nova consulta.

Todo o trabalho desempenhado pelo médico deve ser efetuado com consciência, competência e ética exigíveis a um profissional médico a fim de obter uma boa colaboração e responsabilização do utente na resolução dos seus problemas e manter uma boa resolução médico utente.

Sem esquecer que se devem corrigir hábitos, comportamentos e atitudes menos corretas, sempre que o utente vai à consulta, fazendo educação para a saúde, de forma a garantir uma melhor qualidade de vida.

Detetar precocemente e encaminhar situações que possam afetar negativamente a vida dos utentes (crianças, adolescentes e adultos), como: malformações congénitas (luxação congénita da anca, criptoquidia, cardiopatias congénitas), perturbações da visão, linguagem, audição perturbações do desenvolvimento estaturoponderal e psicomotor, alterações neurológicas, perturbações psicoafectivas;

Prevenir, identificar e abordar as doenças comuns nas várias idades, reforçando o papel dos pais e a sua participação na deteção de sinais ou de sintomas de alerta que justifiquem o recurso aos diversos serviços de saúde;

Identificar, referenciar e proporcionar apoio continuado às crianças com doença crónica/deficiência e às suas famílias, bem como promover a eficaz articulação com os vários intervenientes nos cuidados a estas crianças;

Assegurar a realização de aconselhamento genético, sempre que tal esteja indicado;

Identificar, apoiar e orientar as crianças e as famílias vítimas de violência ou de negligência, de qualquer tipo;

Promover a auto-estima dos adolescentes e a sua progressiva responsabilização pelas escolhas comportamentais adotadas;

Apoiar e estimular a função parenteral e promover o bem estar familiar;

Promover a prática regular de exercício físico, vida ao ar livre e em ambientes despoluídos;

Prevenção de consumos nocivos e adoção de medidas de segurança, reduzindo assim o risco de acidentes;

Incentivar para o cumprimento do Plano Nacional de Vacinação, prevenir o aparecimento de doenças ou acidentes, de suplementação mineral e vitamínica, sempre que necessário, fazer a prevenção da cárie dentária, promovendo a higiene oral, e restrição dos alimentos cariogenéticos;

Fazer o diagnóstico precoce das situações que possam perturbar o desenvolvimento normal da criança, no seu aspeto físico, motor, mental, emocional e social.

Detetar precocemente todas as doenças incluindo as metabólicas, malformações congénitas, perturbações do crescimento, do comportamento, da visão, audição e linguagem e fazer a instituição da terapêutica atempadamente.

Em suma, e com base no Decreto Lei n.º 60/2003 de 01 de Abril, com a criação da rede de cuidados de saúde primários determina “A prestação de cuidados de saúde primários, considerada em todos os sistemas e políticas de saúde como a principal via de acesso aos cuidados de saúde em geral, necessita de ser repensada, no nosso país, por forma a atingir o propósito fundamental de prestar aos cidadãos mais e melhores cuidados de saúde, sendo necessário promover as indispensáveis alterações legislativas, consideradas inadiáveis no plano estrutural e funcional, na perspetiva de evolução do atual sistema de organização dos cuidados de saúde primários para um novo modelo, criando uma rede de prestação de cuidados de saúde primários mais próximos dos cidadãos, das suas famílias e comunidades, simultaneamente mais eficiente, socialmente mais justo e solidário.

(*) Doutorada em medicina



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Domingo, 27 de Outubro de 2013
TEMAS DE SAÚDE: Avaliação do impacto emocional da lesão

 

Por: Antonieta Dias (*)

 

A avaliação dos estados emocionais dos atletas lesionados é um aspeto extremamente importante no período após a ocorrência da lesão. Podem ser úteis alguns instrumentos psicológicos, como, por exemplo, o SCL (Derogatis) 1975 sobretudo as suas escalas de ansiedade, depressão e hostilidade ou o MMPI.

Este último, de acordo com Heil (1993) dá-nos informações sobre dois tipos de atletas. Por um lado, deteta aqueles atletas que se caraterizam por um perfil de “somatização” (atletas que se queixam de múltiplos sintomas fisiológicos) e por outro, aqueles que reconhecem estar afetados  emocionalmente por culpa da lesão.

Em ambos os casos pode-se identificar e será conveniente modificar a presença de  manifestações emocionais que possam interferir no processo de reabilitação. Convém salientar que estes instrumentos são pouco sensíveis para detetar flutuações emocionais transitórias que podem estar presentes durante as diferentes etapas do período pós-lesão.

Neste sentido, para poder avaliar com maior consistência e especificidade as experiências emocionais dos atletas lesionados, devem ser usados outros instrumentos mais apropriados como “Profile of Mood States (POMS)(Mcnair, Lorr e Droppleman, 1971), as escalas de  Ansiedade e Depressão de Leeds (Smith, Bridge e Hamilton, 1976) e as escalas analógicas visuais de Tyrer (1976).

O POMS é uma escala de avaliação psicológica com 65 itens, de onde se extraem 6 resultados relativos a outras tantas dimensões do estado de humor: tensão /ansiedade; depressão: ira/hostilidade; vigor/atividade; fadiga/inércia; e confusão. Com a exceção de vigor / atividade, todos os estados de humor medidos são negativos. Por isso, o perfil desejado assemelha-se ao conhecido “perfil iceberg”descrito por Morgan (1980).

A versão portuguesa do POMS, adaptada e reduzida por Cruz e Viana (1995) engloba um total de 30 itens respondidos numa escala de tipo Lickert de 5 pontos (0=nada, 50extremamente9, mantendo-se nesta versão as seis dimensões do estado de humor subjetivo da versão original desta escala.

As escalas de Leeds e Tyrer são instrumentos muito sensíveis às alterações emocionais das pessoas sendo muito adequadas para aplicar em momentos específicos como antes da intervenção cirúrgica, ao longo da lesão ou mesmo logo após o reaparecimento.

De acordo com Buceta (1996) qualquer um destes instrumentos de avaliação ou mesmo outros, só podem ser utilizados quando os atletas não coloquem qualquer objeção, podendo surgir casos em que os atletas se oponham a estes tipos de instrumentos. Ainda segundo este autor,  a resolução deste tipo de situações passa pelo desenvolvimento de uma relação de confiança  com o atleta, informando-o sobre a utilidade dos instrumentos para que compreenda a  importância da sua realização.

No entanto, em qualquer dos casos deve realizar-se uma entrevista de avaliação, no sentido de conhecer os momentos cruciais do período da lesão, as situações reais a que se associam e as interpretações e significados subjetivos das expectativas, atitudes e crenças do atleta em relação à lesão.

(*) Doutorada em medicina



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Domingo, 8 de Setembro de 2013
TEMAS DE SAÚDE: Obesidade

 Por: Antonieta Dias (*)

 

A obesidade resulta de uma acumulação de gordura em excesso no organismo.

 

Em Portugal mais de 50% das pessoas têm excesso de peso e cerca de 14% da população portuguesa sofre de obesidade mórbida que não para de crescer.

Estes números representam um investimento de cerca de 4% das despesas totais nos gastos da saúde para tratar os obesos.

A obesidade é o problema número um da saúde pública de Século XXI em Portugal e em todo o mundo desenvolvido.

Lamentavelmente no nosso País não existe cultura, nem sensibilidade suficiente para a resolução deste grave problema de saúde pública, tendo em conta que as administrações hospitalares pouco ou nada têm feito para diminuir a lista de espera da resolução destes doentes que precisam urgentemente de correção cirúrgica, sendo que, nalguns casos a lista de espera atinge os quatro anos ou mais, colocando em risco a vida dos pacientes que sofrem desta patologia.

Os dados mais recentes revelam que há 1.700 milhões de obesos no mundo, dos quais 213 milhões existem nos Estados Unidos, numa população de 300 milhões.

A má alimentação e o sedentarismo, são os principais responsáveis pelo aparecimento desta doença.

Assim nas últimas três décadas a mudança dos estilos de vida, alteraram os hábitos das pessoas, em que assistimos a uma mudança radical que vai desde a simples ocupação dos tempos livres na infância em que o jogar à bola, correr, jogar a macaca, ir a pé para a escola, passou a ser uma quimera e foram substituídos, pela cadeira em frente do computador e da televisão.

Sendo a obesidade uma doença grave, habitualmente está acompanhada por outras co-morbilidades que vão contribuir para um aumento ainda maior do risco de vida e exigem uma intervenção terapêutica atempada e eficaz no tratamento desta patologia.

Assim, os problemas cardiovasculares, a hipertensão arterial, a diabetes, a insuficiência venosa crónica, a insuficiência respiratória (apneia do sono), as doenças metabólicas, as doenças osteo-articulares (dores e artroses), as doenças hepáticas(a gordura, deposita-se no fígado com 5 a 10% dos doentes a evoluir para a cirrose) são patologias muitas vezes associadas à obesidade, sendo por isso fatores de risco importantes responsáveis por uma diminuição da sobrevida dos pacientes .

Estima-se que em Portugal morrem dez pessoas por dia vítimas de carcinoma do cólon e do recto, sendo diagnosticados cerca de 5.000 casos novos por anos.

Importa, ainda referir que o cancro da mama, o cancro do útero e a trombose venosa profunda são mais frequentes nos obesos, aumentando só por si os fatores de risco responsáveis pela elevada mortalidade neste grupo de pacientes.

Todavia, acresce ainda que a auto-estima, associada à conflitualidade das relações sociais, familiares, laborais e até sexuais, pode provocar distúrbios psicológicos, quando um obeso se vê confrontado com uma série de dificuldades geradas pela alteração da sua imagem corporal e da sua incapacidade na adaptabilidade a esta nova realidade.

É nosso dever incentivar para o cumprimento de certos cuidados, que são fundamentais para a obtenção de um peso ideal, proibindo alguns alimentos aos obesos, de entre os quais salientamos a exclusão de carnes gordas, fumados, açúcar, mel, marmelada, geleia, compotas, batatas fritas, aperitivos fritos, cremes e margarinas para barrar o pão, bolos, folhados, salgados, chocolates, rebuçados, pasteis, que devem ser imediatamente abolidos da alimentação destes doentes.

Porém, existem soluções para tornar a comida mais apetitosa, que passam pela utilização de certos temperos que são permitidos na alimentação dos obesos (coentros, orégãos, mostarda, sumo de limão, concentrado de tomate, alho, queijo magro em pó ou em fiapos).

Nos molhos para as saladas e sanduíches pode usar - se limão, iogurte magro batido com polpa de tomate, vinagre de vinho com cebola picada e salsa com ervas aromáticas, maioneses magra com polpa de tomate, destinadas a tornar os alimentos mais atrativos e saborosos.

Todavia, o sal deve ser utilizado na menor quantidade possível.

Para promover uma boa alimentação deve ser escolhidos sempre os alimentos com menor teor de gordura, beber pelo menos um litro e meio de água por dia, evitando águas gaseificadas, excluir de casa os alimentos desaconselhados, e dar preferência a alimentos saudáveis.

Recomenda-se também a ingestão de refeições intervaladas de três em três horas, aconselhando ao paciente que se não tiver fome não deve comer.

Praticar exercício físico de forma regular é fundamental para atingir estes objetivos.

Aconselhamos a usar sempre que possível as escadas em vez do elevador, fazer caminhadas pelo menos trinta minutos por dia, sem parar ou então praticar exercício físico três vezes por semana, com períodos de tempo de trinta a quarenta e cinco minutos.

O paciente deve manter o peso recomendado, cujo índice de massa corporal será calculado com base no peso e na estatura.

Consideramos um índice de massa corporal normal (IMC) com valores de >18.5 e <24.9.

Se o doente tem um IMC >25.0 E <29, sofre de excesso de peso, sendo considerada obesidade grau I quando existe um IMC >30.0 e <34.9, obesidade grau II com IMC >35.0 e <39.9 e obesidade grau III (Mórbida) IMC >40.

Considera-se uma pessoa magra quando o IMC é inferior a 18.5.

Como programas complementares destinados a aumentar a perda ponderal, deverá ser proposto ao obeso a realização de circuitos de manutenção com duração de sessenta minutos, pelo menos três vezes por semana.

Recomenda-se ginásio (cardio-fitness), desde que não exista contra - indicação como uma excelente opção, cuja duração não deverá ser inferior a trinta minutos nem exceder os sessenta minutos, podem ainda ser usados os tapetes rolantes, a bicicleta, elípticas, pedaleira (step) e o remo.

A hidromassagem (5 programas pré-definidos), com duração de 15 a 20 minutos, com uma temperatura de 38º, está também indicado como um método complementar para a perda ponderal.

Resta ainda acrescentar que a vacuoterapia com duração de trinta minutos, está indicada para o tratamento da celulite e gordura localizada.

Por fim um duche massagem (Vichy), com uma duração de quinze minutos a uma temperatura de 38º é mais uma medida eficaz no combate da obesidade .

Em suma, manter o peso ideal, é uma meta a atingir por todas as pessoas que desejam uma vida saudável, em que o investimento deve começar nas idades mais jovens, exigindo a implementação de medidas assertivas e rigorosas, para que o êxito terapêutico seja atingido.

 

(*) Doutorada em medicina

 

 

 



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Domingo, 25 de Agosto de 2013
TEMAS DE SAÚDE: Cólon irritável

Por: Antonieta Dias (*)

 

O síndrome de cólon irritável, muitas vezes denominado como um distúrbio nervoso, sem causa orgânica, está por vezes associado a um intestino espástico.

Trata-se de um cólon caracterizado por um conjunto de sintomas por vezes inexplicado, em que a exuberância sintomatológica implica observação médica e instituição terapêutica, por incapacidade de controlo do quadro clínico.

Manifesta-se por dor, alterações do trânsito intestinal (obstipação /diarreia), flatulência e distensão abdominal, muitas vezes acompanhado de abdominalgia / cólica abdominal.

Porém, este síndrome afecta uma percentagem relativamente significativa da população em geral

Apesar de ser benigno é perturbador pelo desconforto que origina.

Afecta 30% da população ocidental em alguma fase da sua vida. É três vezes maior nas mulheres, e sobretudo surge nas adultas jovens.

A prevalência nos Estados Unidos da América é elevada, representa 15%.

Não temos dados explicativos para a ocorrência de uma maior incidência nas mulheres, o que nos faz pensar que pelo facto de o sexo feminino, ter mais visitas medicas registadas, embora sem carácter científico esta pode ser uma razão bastante plausível e que não nos custa aceitar como verdadeira.

Em Portugal é  a patologia mais procurada e diagnosticada nas consultas de gastroenterologia.

A sua evolução é  benigna, mas recorrente, não predispõe ao aparecimento de cancro, doença inflamatória intestinal e muito menos hemorragias.

Com o decorrer do tempo pode dar origem a diverticulose com presença de divertículos ( dilatações saculares de dimensões muito pequenas), cuja benignidade, também não nos obriga a incluí-la como uma doença grave e muito menos incapacitante.

Importa, contudo referir que é frequente a existência de um quadro clinico mais grave (diverticulite), cujo tratamento pode passar por uma intervenção cirúrgica se a situação não curar com tratamento conservador.

Era comum pensar-se que a origem desta doença estava relacionada com distúrbios de índole alimentar e /ou situações de stress, contudo isto não foi comprovado.

O aparecimento de sintomas com a ingestão de certos alimentos fez com que alguns doentes pensassem que a sua origem estava relacionada com determinados alimentos.

Importa, contudo referir que certas alergias alimentares apesar de raras, podem justificar os sintomas associados ao síndrome de cólon irritável.

Apesar de o síndrome do cólon irritável estar associado a uma hipersensibilidade do cólon com determinados alimentos, apenas podemos concluir como uma probabilidade, sendo uma situação muito excepcional, que leva a alterações mecânicas de contracção e relaxamento dos músculos da parede intestinal, alterando  a progressão normal do conteúdo alimentar ao longo do tubo digestivo.

Este facto pode aumentar ou diminuir a frequência dos ritmos de contracção e relaxamento muscular intestinal, aumentando ou diminuído a frequência das fezes e a sua consistência.

A sintomatologia do cólon irritável caracteriza-se pelo aparecimento de abdominalgia mais ou menos acentuada, distensão abdominal, enfartamento pós-prandial, eructações, alterações do trânsito intestinal (obstipação e/ou diarreia, ou mesmo as duas associadas em alternância).

Por vezes as fezes podem ser raiadas de muco, porém este sindrome nunca está associado a hemorragia ano-rectal, sendo assim, necessário fazer o diagnóstico diferencial com outras patologias.

O diagnóstico do sindrome do cólon irritável fundamenta-se sobretudo na história clínica, na especificidade da sua sintomatologia e no exame objectivo detalhado do paciente.

Todavia, este facto não exclui a necessidade de por vezes submeter os doentes a exames complementares de diagnóstico para garantir que a sintomatologia apresentada, não tem origem noutro tipo de problemas, pelo que não é rara a realização de colonoscopias, endoscopias digestivas altas, ou outros exames radiológicos, para esclarecimento do problema, podendo até nalguns casos solicitar uma avaliação psicológica do paciente.

Esta investigação clinica permite-nos excluir outros diagnósticos como por exemplo neoplasias, doença de crohn, diverticulite ou mesmo depressão.

A base do tratamento desta doença incluiu medidas conservadoras (tratamento médico), associado ao controlo do stress e a padrões alimentares que se coadunem com este tipo de patologia.

São sempre de aconselhar medidas dietéticas onde se excluem alimentos não digeríveis ou de difícil digestão.

Se conseguirmos que os pacientes tenham fezes mais moldadas e moles, estamos a contribuir para uma melhoria da progressão dos alimentos no intestino e muitas vezes corrigimos o desconforto da sintomatologia apresentada por estes doentes.

Tendo em conta estes aspectos, sempre que o doente manifesta diarreia deve ser estimulado a comer alimentos fibrosos ingeridos com pequenas quantidades de líquidos, contudo se pelo contrário surge obstipação, as fibras devem ser ingeridas com muitos líquidos, para tornarem as fezes mais moles e facilitar a sua expulsão.

Certos pacientes têm agravamento da sua doença com a ingestão de café, chá, chocolate, queijo, manteiga, leite, álcool, produtos lácteos ou nicotina, podendo mesmo alterar o próprio trânsito intestinal, pelo que estes alimentos devem ser evitados e excluídos da dieta diária.

Certo é que alguns alimentos podem ser causadores de maior desconforto, importa porém identifica-los o que nem sempre é fácil, tendo em conta as características individuais de cada pessoa que por ser única e ser possuidora de especificidades próprias não permite a modalidade de uma dieta padrão para aliviar a doença.

Nem sempre a correcção alimentar é suficiente para suprir o sofrimento do doente, sendo então complementadas as medidas dietéticas com a prescrição de fármacos destinados a corrigir e controlar os sintomas.

Sempre que constatamos com situações de elevado stress é aconselhável recorrer ao apoio de um psicólogo que ensine o paciente a usar técnicas de relaxamento, destinadas a melhorar a gestão dos fenómenos de elevada ansiedade e a melhorar a performance dos recursos disponíveis.

Os fumadores devem ser incentivados a deixar de fumar.

Em suma, apesar do processo de resolução do controlo do alívio da sintomatologia do cólon irritável ser por vezes lento, podendo levar seis meses ou mais à estabilização completa dos sintomas, os profissionais envolvidos na proposta de tratamento, devem munir-se de muita paciência tanto para prestar o apoio inicial, como nas agudizações e devem ser persistentes e assertivos na educação dos factores de agravamento.

No caso em apreço uma dieta individualizada, correta, com identificação dos alimentos que possam despoletar a sintomatologia é uma tarefa diária exigida à terapia comportamental alimentar destes pacientes.

Resta apenas acrescentar que alimentos ricos em gorduras, leguminosas, picantes, certos legumes (couve flor, bróculos, ervilhas), chá, café, bebidas alcoólicas devem ser excluídas da dieta destes doentes.

Recomendamos a necessidade de fazer 5 a 6 refeições diárias, comer devagar( saboreando os alimentos e mastigando-os com calma), evitar refeições tardias à noite e promover um exercício físico regular são aspectos do quotidiano que podem melhorar a qualidade de vida dos pacientes que sofrem de cólon irritável.”

“Comer é uma necessidade, mas comer com inteligência é uma arte”. La Rochefouucauld”

(*Doutorada em medicina)



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Domingo, 4 de Agosto de 2013
TEMAS DE SAÚDE: Deterioração cognitiva ligeira

 

Por: Antonieta Dias (*)

 

As demências representam um grave problema para a saúde pública, designadamente nos países desenvolvidos.

A evolução da sua doença funciona como um forte evento, cujo impacto negativo no ambiente familiar perturba por vezes a união da família, reflete-se na sociedade e aumenta os custos económicos da família e da comunidade.

Não existem marcadores biológicos que nos permitam fazer o diagnóstico precoce desta patologia, e muito menos antecipar os cuidados preventivos destinados a minimizar as alterações decorrentes do desenvolvimento desta doença. Todavia, nos últimos anos os investigadores têm-se dedicado a aprofundar os conhecimentos no sentido de conseguirem fazer o diagnóstico o mais precocemente possível.

Porém apesar deste esforço, nem sempre os objetivos são conseguidos, sendo o seu diagnóstico ainda mais dificultado quando surge em idades mais avançadas podendo até ser confundido como uma deterioração cognitiva associada à idade, e ser entendida como um sinal de envelhecimento, para o qual não existe tratamento.

Sempre que nos deparamos com uma deterioração cognitiva ligeira, encontramos fatores que apesar de não serem exclusivos deste quadro clínico, são fortes indicadores de que estamos perante uma lesão que mais ou menos intempestiva vai conduzir a uma deterioração que se caracteriza por alterações significativas da memória.

Mesmo que as atividades da vida diária estejam preservadas, a amnésia decorrente desta patologia conduzirá ao estabelecimento de critérios clínicos que nos irão permitir fazer a abordagem com base no conhecimento científico, permitindo-nos assim dividir em vários subtipos de demências, devendo para o efeito ser utilizados testes cognitivos de screening, que apesar de terem uma sensibilidade e especificidade relativamente baixa, não devem ser subestimados.

O  fato de fazermos um diagnóstico precoce da deterioração cognitiva, sempre contextualizada   no vasto conhecimento do doente, privilegiando assim um tratamento personalizado e atempado, nem sempre somos bem sucedidos.

Num trabalho recente de revisão da Clínica Mayo, os dados estimavam a prevalência de deterioração cognitiva ligeira na população em geral com idade superior a setenta anos, de aproximadamente de 15%.

O diagnóstico de deterioração cognitiva ligeira sem prejuízo de outros meios complementares de recolha de informação e da análise clínica, deve ter sempre presente a realização de testes de memória destinados a avaliar a memória retrógrada em que o doente recorda o que foi aprendido e em que existe num elevado número de casos um hiato dos fatos recentes nomeadamente para os eventos recentes, sendo para o efeito utilizadas escalas validadas de tipo Likert, cujo resultado do questionário obtido irá permitir orientar e intervir eficazmente na abordagem clinica do doente.

Testes de screening que podem ser utilizados com eficácia: Memory Impairment Screen, sendo este teste um excelente método de avaliação da memória episódica retrógrada, que apesar de pouco sensível pode servir como referência importante para o diagnóstico, tendo em conta que a avaliação da memória episódica é um dado fulcral na determinação da evolução futura destes pacientes.

Se associado a outros testes mais complexos de avaliação cognitiva complementados pelo estudo das atividades de vida diária elevamos o nível de sensibilidade diagnóstica.

Importa, ainda referir que a recolha e análise dos sintomas psicológicos e comportamentais destes doente representam as pérolas para a deteção dos sintomas psicológicos e comportamentais necessários para fazer a classificação dos vários subtipos da deterioração cognitiva ligeira de tipo amnésico.

Apesar das queixas subjetivas da perda da memória representarem cerca de 50% na faixa etária dos idosos, não invalida a possibilidade de estarmos perante uma outra entidade clinica como por exemplo uma doença neurológica ou psiquiátrica que seja responsável por doenças cerebrovasculares, neoplasias cerebrais, intoxicações por metais, encefalite herpética ou até decorrente de doentes que ingerem álcool  em excesso.

Assim, perante uma queixa de perda de memória, temos sempre que investigar se se  trata de uma situação de envelhecimento precoce ou de uma deterioração cognitiva vascular ou mesmo resultante de uma depressão cuja abordagem, raciocínio e decisão clinica são determinantes para a obtenção do sucesso terapêutico.

Em suma, uma perda de memória pode de fato representar única e exclusivamente um envelhecimento cognitivo cuja abordagem terapêutica é praticamente ineficaz, mas se a etiologia é de outra natureza temos a obrigação de fazer o seu encaminhamento para outros departamentos cuja diferenciação e especificidade podem resolver as situações de amnesia  e impedir o aparecimento de síndromes mais graves como a demência /Alzheimer, se conseguimos ser assertivos  na proposta terapêutica que nos propomos executar.

Por fim, para prevenir e tratar a deterioração cognitiva ligeira, para além da instituição de terapêutica farmacológica (inibidores da acetilcolinesterase, citicolina,antagonistas não competitivos do receptor N-metil-D-aspartato do glutamato, piracetam, nootrópicos, vasodilatadores, vitaminas e antioxidantes, ginkogo biloba, fosfatidilserina,   neuroprotectores,  ácidos gordos ómega 3, devemos incentivar os doentes a mudar os seus estilos de vida, estimulando-os à prática do exercício físico, à mudança dos hábitos alimentares (dieta mediterrânica), cujo beneficio parece estar relacionado com um conjunto de efeitos regeneradores provenientes dos antioxidantes existentes nas verduras e nas  frutas, bem como dos ácidos gordos ómega 3 e do efeito neuroprotector do azeite.

(*) Doutorada em medicina



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Domingo, 21 de Julho de 2013
TEMAS DE SAÚDE: Artrite Reumatóide


Por: Antonieta Dias (*)

“É uma doença sistémica de causa desconhecida, que se desenvolve por um quadro de poliartrite inflamatória distribuída de forma simétrica e com manifestações extra-articulares.

A evolução da doença  é variável, todavia, caracteriza-se por ser uma doença crónica e progressiva.

Cerca de 70% dos doentes tem um atingimento articular irreversível demonstrável nos exames complementares de diagnóstico nos primeiros três anos de manifestação da doença.

Esta doença é  altamente incapacitante, sendo um fator relevante na determinação de incapacidade absoluta laboral.

Os doentes que padecem desta doença têm uma sobrevida mais curta de três a doze anos.

São pacientes que exigem um grande investimento de cuidados médicos, com utilização de fármacos que são instituídos precocemente, cuja agressividade terapêutica é por vezes demasiado elevada.

Associado a estes cuidados, são necessários tratamentos de reabilitação para alívio da sintomatologia dolorosa e para a recuperação funcional.

Podem estes doentes nalguns casos necessitar de completar o seu tratamento com intervenções cirúrgicas (sinovectomia, artroplastia total ou outras)para prevenir,  suprimir e aliviar as dores osteo-articulares.

Nos medicamentos mais usados, para o tratamento, temos os anti-inflamatórios não esteroides e os inibidores selectivos da COX 2, que são prescritos quando se faz o diagnóstico da doença, associados a terapêutica imunomoduladora e imunodepressora.

Os glicocorticóides são outros fármacos anti-inflamatórios potentes, usados no alívio das queixas álgicas.

Os glicocorticóides, têm a sua forma de ministração que é por via oral, usados em doses de 5-20mg, uma vez por dia, nos casos de sinovite, usando-se doses mais elevadas nas situações mais graves, em que muitas vezes a dose exigida pode ir até um miligrama por quilo de peso, via oral, uma vez por dia.

Outras terapêuticas, como os imunomoduladores e imunodepressores, estão indicados quando a terapêutica com anti-inflamatórios, não consegue debelar as dores, sendo ainda indicados nas situações de artrite erosiva que evolui de forma rápida e progressiva e nos casos em que os pacientes têm dependência dos corticóides para controlar a doença.

Para além do tratamento farmacológico, estão indicadas outras medidas terapêuticas sempre que o quadro clinico o exija, designadamente nos casos com perturbação psicológica severa(depressão, insónia, instabilidade do humor), cuja frequência é muito elevada nestes doentes.

Em suma, a artrite reumatoide, como doença sistémica que é, obriga a um cuidado muito especial, não só no rigor da seleção dos fármacos a utilizar, como na complementariedade  de tratamentos adjuvantes que vão desde equipamento de adaptação funcional onde entram os auxiliadores da marcha (andarilhos, bengalas), protetores dos utensílios destinados a realização dos atos de vida diária (adaptadores de banheiras, apoios para as sanitas, corrimões nas escadas, etc), destinados a ajudam, a minimizar o sofrimento e a dependência destes pacientes.

Importa, ainda referir que independentemente de todos estes cuidados do foro médico, há necessidade de intervenção ambiental que vai desde a criação de rampas de acesso não só na habitação, nas instituições de saúde e em todos os locais de acessos onde estes doentes necessitam de circular.

Por fim, resta apenas acrescentar a necessidade que as juntas médicas que fazem a verificação das incapacidades destes doentes os saibam avaliar na sua globalidade e não lhes proponham uma adaptação profissional em vez de lhes atribuírem uma incapacidade absoluta para o trabalho, quando a sua doença já atingiu um grau de irreversibilidade e de incapacidade funcional, cuja dependência de terceiros para os atos de vida diária os deixam completamente dependentes e sem condições para o desempenho da sua atividade profissional. 

(*) Doutorada em medicina



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Domingo, 9 de Junho de 2013
TEMAS DE SAÚDE: Saúde, uma prioridade em Portugal

Por: Antonieta Dias (*)

 

 Ministério da Saúde. O que consta no Portal da Saúde

 

INTRODUÇÃO

 

Nos termos da Lei de Bases da Saúde, cabe ao cidadão um papel fundamental na promoção da saúde e no desenvolvimento do sistema de saúde que o serve.

 

Na nota de apresentação do documento "Saúde em Portugal - uma estratégia para o virar do século", refere-se que são necessárias formas diferentes de pensar e actuar na saúde em Portugal, considerando o cidadão como a razão de ser de todo o sistema de Saúde.

 

Está, pois, lançado o desafio para que, no processo de desenvolvimento da saúde em Portugal, a voz e a participação do cidadão, em geral, e do utente do Serviço Nacional de Saúde, em particular, ocupem o lugar que merecem: o de parceiro privilegiado nas mudanças que visam melhorar os serviços de saúde.

 

De um papel muitas vezes passivo ou de simples utilizador de cuidados, espera-se que o cidadão venha a desempenhar cada vez mais um papel activo e influente na melhoria das condições de saúde e da qualidade dos cuidados que lhe são prestados.

 

Urge, pois, criar as condições e os mecanismos que potenciem essa participação plena em prol da saúde e do desenvolvimento adequado dos serviços.

 

No nosso País, os serviços oficiais para prestação de cuidados de saúde à população encontram-se organizados num Serviço Nacional de Saúde (SNS). Para além do SNS, existem diversos subsistemas de saúde, instituições de saúde privadas e profissionais em regime liberal.

 

O presente Guia pretende dar a conhecer o Serviço Nacional de Saúde na óptica do utilizador.

 

Neste contexto, um cidadão, ou utente, mais informado sobre os serviços que tem à sua disposição, sobre as regras de utilização desses mesmos serviços e sobre os seus direitos e deveres pode participar de modo mais eficaz no esforço de melhoria que se pretende.

 

î 1. SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE (topo)

 

1.1. O que é o Serviço Nacional de Saúde?

 

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) é o conjunto de instituições e serviços, dependentes do Ministério da Saúde, que têm como missão garantir o acesso de todos os cidadãos aos cuidados de saúde, nos limites dos recursos humanos, técnicos e financeiros disponíveis.

 

O SNS abrange ainda os estabelecimentos privados e profissionais de saúde em regime liberal, com os quais tenham sido celebrados contratos ou convenções, que garantam o direito de acesso dos utentes em moldes semelhantes aos oferecidos pelo SNS.

 

1.2. Que outros serviços e entidades prestam cuidados de saúde?

 

Para além do SNS, existem diversos subsistemas de saúde, criados no âmbito de vários ministérios, empresas bancárias, seguradoras e outras instituições, para prestação de cuidados de saúde aos seus trabalhadores ou associados (ADSE, ADME, SAMS, etc.). Os beneficiários destes subsistemas podem utilizar também, caso o desejem, toda a rede do SNS.

 

Diversas instituições de saúde privadas e profissionais em regime liberal completam a oferta de cuidados de saúde, prestando os seus serviços à população em regime privado ou através de acordos ou convenções quer com o SNS, quer com alguns dos subsistemas atrás referidos.

 

1.3. Quem pode ser utente do SNS?

 

• São beneficiários do SNS todos os cidadãos portugueses.

 

• São igualmente beneficiários do SNS os cidadãos nacionais de Estados membros da União Europeia, nos termos das normas comunitárias aplicáveis.

 

• São ainda beneficiários do SNS os cidadãos estrangeiros residentes em Portugal, em condições de reciprocidade, e os apátridas residentes em Portugal.

 

1.4. Se for beneficiário de um subsistema de saúde posso utilizar também o SNS?

 

De acordo com a legislação em vigor, pode. Deve informar os serviços do SNS do subsistema a que pertence, no acto de inscrição no Centro de Saúde, ou sempre que lhe for solicitado.

 

1.5. Que direitos têm os utentes do SNS?

 

De acordo com a Lei de Bases da Saúde (Lei 48/90, de 24 de Agosto), os utentes têm direito a:

 

a. Escolher o serviço e os profissionais de saúde, na medida dos recursos existentes e de acordo com as regras de organização;

 

b. Decidir receber ou recusar a prestação de cuidados que lhes é proposta, salvo disposição especial da lei;

 

c. Ser tratados pelos meios adequados, humanamente e com prontidão, correcção técnica, privacidade e respeito; 

 

d. Ter rigorosamente respeitada a confidencialidade dos dados pessoais;

 

e. Ser informados sobre a sua situação, as alternativas possíveis de tratamento e a evolução provável do seu estado;

 

f. Receber assistência religiosa;

 

g. Reclamar e fazer queixa sobre a forma como são tratados e, se for caso disso, receber indemnização por prejuízos sofridos;

 

h. Constituir entidades que os representem e defendam os seus interesses;

 

i. Constituir entidades que colaborem com o sistema de saúde, nomeadamente sob a forma de associações para a promoção e defesa da saúde ou de grupos de amigos de estabelecimentos de saúde.

 

1.6. Quais os deveres dos utentes do SNS?

 

De acordo com a Lei de Bases da Saúde, os utentes do SNS devem:

 

• Respeitar os direitos dos outros utentes;

 

• Observar as regras de organização e funcionamento dos serviços;

 

• Colaborar com os profissionais de saúde em relação à sua própria situação;

 

• Utilizar os serviços de acordo com as regras estabelecidas;

 

• Pagar os encargos que derivem da prestação dos cuidados de saúde, quando for caso disso.

 

Nota: Relativamente aos menores e incapazes, cabe aos seus representantes legais exercer estes direitos e deveres, nos termos previstos na lei.

 

Foi recentemente divulgada pelo Ministério de Saúde uma Carta dos Direitos e Deveres dos Doentes. Em alguns aspectos, esta carta valoriza direitos e deveres já estabelecidos na Lei de Bases da Saúde.

 

1.7. Como posso contribuir para a melhoria do funcionamento dos serviços de saúde?

 

Deve manter-se informado acerca dos seus direitos e responsabilidades como utente dos serviços de saúde e participar na avaliação da qualidade dos serviços e dos cuidados que lhe são prestados, apresentando sugestões úteis e eficazes ou reclamações, quando se justificarem.

 

Pode integrar-se em entidades que colaborem com o sistema de saúde, quer sejam associações para a promoção e defesa da saúde ou grupos de amigos dos estabelecimentos de saúde.

 

A legislação prevê, ainda, a participação dos cidadãos em órgãos consultivos dos Hospitais e Centros de Saúde. Para tal, terão de estar devidamente organizados em Ligas de Utentes ou Amigos do Hospital ou serem elementos das autarquias.

 

1.8. Como posso exercer o meu direito de apresentar sugestões e reclamações?

 

Deve dirigir-se ao Gabinete do Utente, que funciona, em cada distrito, na sede da Sub--região de Saúde e também nos Centros de Saúde e nos Hospitais.

 

Este gabinete tem as seguintes atribuições:

 

• Informar os utentes sobre os seus direitos e deveres relativos aos serviços de saúde;

 

• Receber as reclamações e sugestões sobre o funcionamento dos serviços ou o comportamento dos profissionais;

 

• Redigir as reclamações orais feitas nos termos da alínea anterior, quando os utentes não o possam fazer;

 

• Receber as sugestões dos utentes.

 

• Se quiser apresentar uma reclamação, pode ainda utilizar o Livro de Reclamações, que existe obrigatoriamente em todos os locais onde seja efectuado atendimento público, devendo a sua existência ser divulgada aos utentes de forma visível.

 

• O reclamante será sempre informado da decisão que recaiu sobre a reclamação apresentada.

 

1.9. Como utilizar melhor o SNS

 

O SNS oferece-lhe um conjunto de instituições e serviços, designadamente Centros de Saúde e Hospitais, que lhe podem prestar cuidados de:

 

• Prevenção e tratamento da doença;

 

• Reabilitação e apoio na reinserção familiar e social de doentes. 

 

O utente pode ainda obter junto dos serviços de saúde:

 

• Informação sobre assuntos relacionados com a saúde e formas de a manter e promover;

 

• Informação sobre o funcionamento dos serviços de saúde.

 

Para vigiar a sua saúde ou tratar alguma doença, deve dirigir-se, em primeiro lugar, ao seu Centro de Saúde, que constitui a porta de entrada do SNS.

 

Se procurar o serviço de urgência do Hospital, para uma consulta que pode ser feita no Centro de Saúde, lembre-se que está  a dificultar a solução de outras situações mais graves.

 

Marque, com antecedência, as consultas de que precisa. Desta forma será possível gerir melhor os tempos de consulta disponíveis.

 

Quando for a uma consulta, leve consigo toda a informação que possa ser útil, como: o seu cartão de utente, as últimas análises e radiografias, o nome dos medicamentos que esteja a tomar.”

 

Depois de ler atentamente o que se encontra definido no Portal da Saúde sobre SNS, temos que concluir que a saúde não  é uma utopia, que a natureza humana é uma realidade, e não uma ficção.

 

Esta realidade, implica a manutenção de um sistema político que assente em valores humanos, em que o realismo político e pragmatismo que não se podem confundir.

 

Se o pragmatismo ultrapassa o conteúdo de um programa, a realidade política tem que ser orientada na defesa do ser humano, inspirada na natureza e preservação de uma realidade que se encontra ameaçada.

 

Se o pragmatismo se fundamenta numa ideologia política, a ideologia  tem que ser pura, tem que ser assente em valores cuja  realidade não seja ameaçada, e muito menos  implique a adopção de uma conduta política, destituída de princípios e programada para impedir o acesso ou  a posse dos bens, essenciais.

 

O SNS,  tem de ser entendido como um bem, destinado a defender o Homem dos malefícios da doença, e dirigido para a concretização plena das suas naturais ambições, isto é para a obtenção do mais completo bem estar físico, mental e social.

 

Este é um direito inquestionável, para o cidadão comum.

 

Se pensarmos que a defesa da Nação e do Estado, é um dever de quem nos governa, que a Nação só existe, porque existem Homens, e os Homens tem de ser respeitados e que esses Homens tem que ser o centro de toda a nossa acção, política.

 

Entenderemos, naturalmente que os homens têm interesses, que criaram expectativas, que têm ideais, que não podem de forma nenhuma serem defraudados constataremos que, estas pessoas procuram naturalmente a satisfação, das suas necessidades básicas, integradas na realidade social, onde não há lugar para viverem numa miragem, porque essas pessoas têm convicções, não vivem de perspectivas utópicas, não querem soluções que ponham em causa a sua liberdade, a sua independência, ou a sua sobrevivência.

 

São pessoas que apenas aceitam partilhar com terceiros, se esses terceiros não se afastarem  dos seus objectivos essenciais.

 

Todos nós sabemos que os seres humanos se caracterizam por serem diferentes uns dos outros pelas suas aptidões, desejos e objectivos diferentes, mas apesar de diferentes sabem distinguir as perdas que estão sempre presentes e os ganhos que nunca surgem.

 

Podermos até questionarmo-nos se os interesses individuais absolutos são ou não partilháveis?

 

A nossa reflexão vai pois, ao encontro dos homens que têm interesses, assumidos, e que, em maior ou menor grau, procuram as oportunidades, consagradas no SNS, cuja gestão terá de ser rigorosa,  usando meios eficazes, que impeçam o desperdício, mas que, não prejudiquem a acessibilidade nem coloquem a vida em risco.  

 

Esta deverá ser na nossa opinião a meta a atingir para salvar o SNS, destinado a conseguir com um ambiente social, estável, um país produtivo, um país saudável.

 

Todavia, se esta estabilidade, for abalada, se os bens individuais forem colocados em perigo então o estado social ficará  destruído, e irremediavelmente perdido.

 

Se admitirmos ainda um conceito básico na prática da medicina de acordo com a “legis artes”, temos que incluir que ‘medicina baseada em evidências’ (MBE), oriunda do movimento da epidemiologia clínica anglo-saxônica, iniciado na Universidade McMaster no Canadá no início dos anos noventa, definida como “processo de sistematicamente descobrir, avaliar e usar achados de investigações como base para decisões clínicas” (Evidence Based Medicine Working Group, 1992).

 

Facilmente compreendemos que a MBE assume um papel de destaque, e de influência nas condutas médicas.

 

Os mais cépticos poderão consultar o Medline onde encontrarão a resposta adequada ao seu cepticismo.

 

Para os adeptos da MBE existe uma escala tipológica da força das evidências que deve ser considerada em todas as decisões e nas práticas biomédicas.

 

Assim, façamos o estadiamento dos níveis de evidência:

 

A- Evidência forte de, pelo menos, uma revisão sistemática (metanálise) de múltiplos estudos randomizados controlados bem delineados;

 

B- Evidência forte de, pelo menos, um estudo randomizado controlado bem delineado, de tamanho adequado e com contexto clínico apropriado;

 

C- Evidência de estudo sem randomização, com grupo único, com análise pré e pós–coorte, séries temporais ou caso controle pareados.”

 

Estas são as nossas linhas orientadoras do raciocínio clínico, para aqueles que praticam medicina com conhecimento científico.

 

Se destruímos estes conceitos, destruiremos a qualidade do SNS.

 

 (*) Doutorada em medicina



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Domingo, 12 de Maio de 2013
TEMAS DE SAÚDE: O Estado Social da Saúde em Portugal

Por: Antonieta Dias (*)


“As notícias referem que há hospitais que têm de cortar ¼ das horas extras, pois em 2013, vão ter que reduzir 20% os custos com os pagamentos em horas extraordinárias e os Centros de Saúde terão de cumprir uma redução de 15%.

Segundo um despacho publicado em Diário da República. O documento, assinado pelo secretário de Estado da Saúde, lembra que o memorando de entendimento acordado com a ´troika´ estabelece uma meta de redução de custos com trabalho extraordinário para 2013 de 20%”.

Este texto foi extraído das notícias desta semana, o que me leva a refletir, sobre a situação de sustentabilidade do sector da saúde.

Se com o alargamento dos horários se conseguir dar cobertura às necessidades assistenciais de um serviço de qualidade, considero que algo estava errado e que havia desperdício que necessitava de ser corrigido há muito tempo.

Todavia, se este corte nas despesas da saúde traduzir um declínio e gerar mais desconforto e sofrimento para a grande parte dos portugueses utilizadores do SNS, então teremos de pensar que afinal, vai haver mais restrições e mais carências sociais.

Este facto obriga-me a fazer a seguinte reflexão politica esta semana.

“Se o Sistema Nacional de Saúde funcionou como um estimulante na prevenção da doença em Portugal, neste momento, já não podemos mais acreditar que a redução e sensação de fadiga mental e física que permitem aumentar o estado de alerta, necessário para alimentar a nossa condução motora e reduzir o aparecimento das doenças, seja um objetivo a atingir a curto, médio ou mesmo a longo prazo.

Talvez seja necessária uma dose de um protótipo dos estimulantes do Sistema Nervoso Central, ou seja, o mais certo, é necessitarmos de uma dose de anfetaminas que têm indicações específicas (algumas formas de síndrome de hiperatividade nas crianças e na narcolepsia no adulto), para conseguirmos despertar do marasmo em que nos encontramos e sobretudo, da forma como reagimos a todas estas mudanças que se vão instalando, sub-repticiamente, cujas consequências serão fatais a curto prazo.

Se este efeito de euforia, agitação, precipitação, na tentativa de resolução imediata, para reduzir o défice, irá ter as consequências neurotóxicas, semelhantes à utilização da Ecstasy, talvez seja de facto este o melhor método e o mais eficaz, tendo em conta que tal como esta droga, cuja utilização crónica conduz à tolerância, à destruição neuronal e ao envelhecimento precoce dos neurónios, nos ajude a vencer a grave problemática que existe no seio dos serviços de saúde.

Os mais renitentes a esta metodologia de intervenção, devem ser também os mais resistentes à introdução destas drogas, sintéticas e como tal estão já ultrapassados, porque vivem num contexto social que não se adapta à sociedade que estamos a viver.

Todavia, se o objetivo dos profissionais competentes da saúde, não é encontrar uma substância dopante que nos faça viver num mundo de ilusão, mas sim pretendem contribuir para que a saúde mental e física seja uma prioridade na intervenção das medidas antecipatórias, destinadas a mudar os comportamentos para estilos de vida saudável.

Como seres pensantes e responsáveis que somos, não podemos ficar com as reservas dos nossos neuroreceptores com níveis inferiores aos necessários para recuperar a nossa vitalidade e a nossa preocupação, pelo que nos irá acontecer a muito curto prazo, com todas estas reestruturações que estão a acontecer no Sistema Nacional de Saúde.

Não pretendemos com é óbvio tornar disponível um sistema cujo acesso seja impeditivo de chegar ao local mais adequado para fazer o diagnóstico e o tratamento atempado da prevenção e do tratamento da doença, de forma a minimizar os efeitos deletérios da utilização ou melhor de um sistema de saúde que não resolve os problemas de quem necessita dele.

Podemos ter a certeza, que não é com medidas destinadas a impedir ou dificultar a acessibilidade aos sistemas de saúde, quer seja através do aumento das taxas moderadoras, quer seja pela privação de prestação de cuidados de saúde vitais, que estamos a prestar um bom serviço e sobretudo que estamos a economizar na saúde.

A vida humana é  um bem precioso, e preservar a saúde e tratar a doença, para a manutenção do bem estar dos portugueses é o melhor investimento que podemos fazer a curto prazo para economizar no futuro.

Nenhuma pessoa sensata, vai procurar os efeitos dopaminérgicos numa droga que estimula o sistema nervoso central, mas que pode originar convulsões.”

(*) Doutorada em medicina



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Domingo, 3 de Fevereiro de 2013
Temas de Saúde: As Famílias portuguesas estão em risco? São vítimas de Maus – Tratos?.

Por: Antonieta Dias (*)

 

O rendimento “per capita”, isto é o rendimento mensal médio por pessoa do agregado familiar dos portugueses, está a gerar muitos conflitos intrafamiliares, que se têm vindo a agravar-se nestes últimos seis meses.

São considerados como rendimento global anual da família os honorários auferidos, onde se incluíam, subsídio de férias, de natal, pensões, bem como outros rendimentos dependentes dos bens patrimoniais de todos os elementos do agregado familiar.

Assim, os elementos envolvidos na família são pessoas dependentes da economia comum do casal e dos filhos ou de outras pessoas que aí coabitam, quando estamos perante famílias alargadas.

Com base no conceito de agregado familiar doméstico (pessoas que vivem na mesma casa), cujo grau de parentesco une a família e a torna sólida, coesa e funcional, independentemente de se tratar de uma família nuclear, com ou sem filhos, de uma família alargada, de uma família reconstruída ou simplesmente de uma família unitária.

Porém, infelizmente, não encontramos actualmente muitos exemplos de famílias tradicionais em que a funcionalidade interpares traduz a verdadeira família a que estávamos habituados a ter.

Na realidade este conceito de família tradicional, tem vindo a perder-se, sendo várias as situações que têm contribuído para a destruir.

Citaremos a título de exemplo alguns indicadores de vulnerabilidade e risco social, que envolvem várias famílias, desde que se instalou a precaridade social, responsáveis pela perda de valores e união familiar.

Pensar que estes problemas são isolados, é ignorar a pobreza desencadeada pelas políticas sociais que assertivamente estimularam uma série de processos em agregados familiares, alguns já de si marcados por um risco prévio, onde o nível educacional, a precaridade do mercado de trabalho, os baixos rendimentos, a violência doméstica, a prostituição infantil, o abuso sexual de mulheres e o abuso de menores, sinalizavam um alto risco intrafamiliar.

Porém não podemos concluir, que apenas estas famílias disfuncionais, onde predominavam fenómenos desfavoráveis facilmente susceptíveis a comportamentos desviantes, possam ser as únicas atingidas por este retrocesso social.

As desigualdades, a pobreza, e a vulnerabilidade social são as três questões, que mais contribuíram para desestruturam as famílias portuguesas estáveis, levando a situações de desespero, nalguns casos extremos, traduzidos por vezes apenas um refúgio uma saída, que se os leva à destruição pessoal ou mesmo à destruição da própria família.

Situações dramáticas estão a ser relatadas e vivenciadas actualmente, sendo que pelo grau de degradação experienciada, não expectável até há bem pouco tempo, transformam e destroem a saúde das famílias portuguesas.

O facto de existir uma pobreza instalada no seio da família, só por si origina uma série de problemas que algumas vão conseguindo adiar na expectativa e esperança de dias melhores.

Todavia, a crise financeira do sistema sócioeconômico, instalada nas famílias em geral, sendo que neste momento a classe média é das mais atingida, dado que de repente e inesperadamente se vê privada de bens essenciais, cujo vencimento anterior à crise económica era suficiente para manter a sustentabilidade familiar, porque auferiam honorários que permitiam manter um nível de vida proporcional ao trabalho que desenvolviam e continuam a desenvolver, mas agora com horários de trabalho acrescidos devido a um aumento da carga semanal, com vencimentos diminuídos (perda de subsídio de férias, de subsídio de natal, de diminuição do valor da reforma, de diminuição do vencimento, gerada pelo aumento de impostos) colocam em risco a possibilidade de satisfazerem as necessidades básicas e entram em falência total, porque as despesas são as mesmas, e o rendimento é menor.

São vários os indicadores que nos alertam para o risco familiar, desencadeado por uma série de privações de ordem física, emocional e social, que se traduzem pelo aparecimento de comportamentos desviantes, vejam-se os homicídios relatados recentemente (mães que matam os filhos, porque não os conseguem sustentar), violência doméstica, que apesar do  número de notificações ser inferior ao número de casos vivenciados, pois este drama ainda continua a ser uma área muito sensível, para a qual grande parte das pessoas, tem dificuldade em aceitar e revelar, por se tratar de situações de índole muito pessoal e íntima, pelo elevado número de depressões que têm sido diagnosticadas, pelo agravamento das doenças crónicas e pelas doenças agudas, que originam uma procura menos atempada aos cuidados de saúde, sendo muitas vezes já tardia para impedir o aparecimento de sequelas, que poderiam ser evitadas, se as doenças fossem tratadas em tempo útil.

Associada a esta complexidade de problemas, acresce, ainda a constatação da existência de maus-tratos que tem subido assustadoramente, atingindo sobretudo idosos e crianças dependentes, muitas vezes resultante da falta recursos económicos existentes no seio da família, onde estes dois grupos etários são entendidos como um fardo no seio da família, cuja precaridade económica e carências sociais disponíveis, geram situações dramáticas, cuja resolução não se vislumbra e tem tendência a agravar-se.

Diariamente constatamos com situações impensáveis e imprevistas, vivenciadas por famílias funcionais economicamente estáveis que de repente verificam que a sua vida se encontra num beco sem saída e sem futuro, desencadeada pela perda do emprego(de um ou até dos dois conjugues), pela diminuição do rendimento gerada pelo aumento da carga fiscal, pela privação de todos os recursos indispensáveis à manutenção das suas despesas mínimas diárias, cujo resultado final é a pobreza instalada.

É óbvio que os recursos psicológicos disponíveis para a gestão de todos estes conflitos não são ilimitados e então consequentemente surge a doença física e psicológica, associada à instabilidade social (são os filhos que emigram e abandonam os pais, são os idosos que ficam cada vez mais sós e abandonados, muitos deles emagrecidos e desnutridos, porque a sua reforma não lhes permite ter uma alimentação adequada, são os pais que voltam a receber os filhos, pela impossibilidade de subsistência familiar pré-existente).

Estes factores abalam o Estado de Bem Estar social, que proporciona uma falência na estabilização do sistema socioeconómico, e degrada as condições de vida, limita o acesso aos bens matérias indispensáveis à sobrevivência humana e reduz naturalmente a coesão intrafamiliar.

Em suma, passamos a ter um ciclo de vida carenciada e inibida onde os adultos desesperam, porque não conseguem reequilibrar as esferas económicas e socais, as crianças e os idosos descompensam, os jovens emigram à procura de um futuro e as redes sócioassistenciais passam a ser mais solicitadas por todas as classes sociais, em que a estratificação social determina o acesso diferencial aos bens, ao prestígio e ao poder.

O estado tem cada vez menos capacidade para apoiar estas famílias, pois o universo de pobreza é cada vez maior, registando-se uma vulnerabilidade traduzida pela dependência económica, vivenciada pelas famílias, que já não auferem qualquer rendimento porque ficaram inibidas do acesso ao trabalho e obviamente à sua remuneração.

É consensual que a dimensão disponível de recursos é avaliada segundo a renda familiar per capita e existe um mínimo indispensável para conseguir sobreviver.

Neste momento tendo em conta a insustentabilidade social do País, passamos a viver num pântano movediço cujo fim será imprevisível mas certamente resultará num índice de desenvolvimento familiar insustentável, implantado num território, desprovido de apoios na saúde, na família, na educação, no mercado de trabalho, na vulnerabilidade social e sem recursos, onde predominará a doença, por ser impossível manter a saúde, que não abrange o conceito determinado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que considera a saúde como o mais completo bem estar físico, psicológico e social e não apenas a ausência de doença.

 (*) Doutorada em medicina



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Domingo, 13 de Janeiro de 2013
TEMAS DE SAÚDE: O valor da vida

 

Por: Antonieta Dias (*)

 

Apesar de estarmos a viver uma fase de mudança social que implica uma séria reestruturação de Serviços e das Instituições, a vida humana tem de continuar a ser respeitada.

A defesa da vida, passa pela necessidade de manter os apoios preconizados que foram criados com objectivos bem definidos, no que se refere ao princípio básico de manter a sustentabilidade da dignidade humana.

Estas regras elementares de que depende a valorização da vida, não podem de forma alguma ser destruídas por razões economicistas e exclusivamente baseadas em fórmulas matemáticas, onde as pessoas são substituídas por números.

Somos confrontados com um maior número de casos de pessoas que necessitam de apoio de terceira pessoa, devido ao seu elevado grau de dependência e a um crescimento populacional de idosos que residem sozinhos ou têm como cuidador um outro idoso, que também necessita de ajuda.

Esta situação já de si constrangedora tem sido agravada pela falta de resposta e de investimento social adequado à realidade que estamos a viver, sendo desajustada para responder às inúmeras solicitações que surgem diariamente.

Este facto tem sido gerado pelas restrições e pela precaridade económica que vivenciamos atualmente.

Se é certo, que esta realidade é inevitável, devemos pelo menos investir num projecto que consiga responder à satisfação das necessidades básicas e seja o suporte social para colmatar este grave problema, que nos assusta por desencadear ainda mais a vulnerabilidade e abalar a resistência à sobrevivência humana.

Algumas medidas devem ser consideradas como uma prioridade, para a manutenção de uma qualidade de vida com padrões adaptados e rigorosos, que não prejudiquem sobretudo quem já se encontra carenciado e sem autonomia para resistir a tantas agressões (físicas, psicológicas e sociais).

O facto de a família ser um suporte insubstituível de coesão e apoio inquestionável temos de preservar a vida das pessoas que não têm família ou foram simplesmente abandonados ou excluídos dela.

Esta vivência da perda é uma realidade cada vez maior na população portuguesa, e o estado social não pode matar a esperança destas pessoas, nem omitir ou simplesmente ignorar este drama social.

Por outro lado, não se pode pretender que estas novas exigências estejam explicitamente tratadas, por medidas legislativas, muitas vezes insuficientes, pouco reconhecidas e incompreendidas pela população em geral.

A dimensão moral da liberdade e da racionalidade levam-nos a reconhecer que teorias filosóficas não sustentam a autonomia nem a riqueza humana.

Tudo aponta, para a necessidade de fazer uma análise detalhada da realidade em que vivemos e que a mensagem daí resultante seja autêntica, que ultrapasse a mera promessa de uma boa intenção.

Mais grave será ainda, se as medidas adoptadas não preservarem a vida e a considerem como um castigo ou um pecado.

Todos sabemos que os fins não justificam os meios e mesmo que as medidas sejam boas é preciso traçar o caminho com um conteúdo de intenções onde a verdade, tem que substituir a mentira, onde a solidariedade humana exclua o egoísmo, em que o rumo a seguir passará pela obrigatoriedade de entender o valor do ser humano e humanizar a medicina.

A problemática moral do racionamento da medicina, não pode servir de árbitro e condicionar as fontes da vida humana e muito menos servirem como administradores dos desígnios estabelecidos por critérios políticos, onde o homem fica privado do domínio do seu próprio corpo.

Assim, à luz de uma cultura generosamente orientada para servir a vida, não podem existir impossibilidades ou limitações que coloquem em causa a confiança e a esperança de manutenção da vida.

Ninguém pode ser indiferente ou insensível perante alguém que está indefeso, diminuído físico ou psicologicamente, ou porque é deficiente ou idoso fica privado dos valores comuns da dignidade humana e dos direitos do próprio homem.

Viver em democracia é reconhecer o poder público como um bem comum titular do reconhecimento e da tutela jurídica dos direitos humanos.

Por outro lado, a manutenção de carros de luxo, de ostentação de riqueza, numa sociedade onde as necessidades básicas dos cidadãos estão em risco, transforma-se numa violação dos direitos democráticos.

Será esta uma visão pessimista da nossa realidade social? Ou será que a nossa existência tem obrigatoriamente de ser regida pela violência fatal e inevitável de uma sociedade e de uma história da humanidade condenada a uma insociabilidade e a uma cultura de vida não expectável, onde o nocivo impera sobre a opção da ética e sobre o verdadeiro crescimento natural do ser humano?

Será que estamos mesmo no fim de um ciclo democrático e de uma inversão dos valores, onde a corrupção e a mentira escravizam a liberdade e precisamos de um profeta, que transforme e ignore o materialismo vigente e passe a dar sentido à vida?

Será que a Europa vai continuar a ser uma sociedade multicultural, onde cada País vai ter direito à sua identidade cultural e religiosa?

Ou será que estamos a viver um momento sociopolítico de fraqueza, tendencialmente passeiro e efémere cuja durabilidade é curta e rapidamente surgirá a justiça, a paz e o homem passará a ter novamente direito ao diálogo e à preservação da vida?

Temos de acreditar que sim, e pensar que os valores universais, que os direitos invioláveis e inalienáveis, serão o suporte da dignidade da pessoa, exigíveis da tutela de todo um sistema jurídico, económico e social fundamentais para a sobrevivência em democracia.

 

(*) doutorada em medicina



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Domingo, 6 de Janeiro de 2013
TEMAS DE SAÚDE: Lesões no desporto

 

Por: Antonieta Dias (*)

 

O desporto representa por si mesmo e pelas suas múltiplas facetas, uma situação favorecedora da saúde. Ninguém põe em dúvida os efeitos positivos que a pratica desportiva proporciona. O interesse cada vez maior pelo desporto tem feito com que  o número de praticantes tenha vindo a aumentar consideravelmente.

No contexto actual praticar desporto é uma rotina quase obrigatória, havendo um número cada vez maior de praticantes amadores e profissionais. A idade de início da prática desportiva surge cada vez mais precocemente. Quanto maior for o número de praticantes maior será a probabilidade de sofrerem lesões. As lesões são um obstáculo importante à prática desportiva, podendo impedir temporariamente ou definitivamente a actividade do atleta, conduzindo necessariamente a uma diminuição ou ausência de rendimento conforme a sua gravidade. Esta situação tornar-se-á mais crítica ainda se surgir num jovem em fase de crescimento.

Os diferentes tipos de actividade desportiva impõem exigências variáveis aos desportistas que a praticam.

As exigências que diariamente são pedidas sobretudo aos atletas de elite para atingirem bons resultados, passam necessariamente por um aperfeiçoamento das técnicas, por um número maior de horas de treino, por um aquecimento adequado, por um programa de treino e de competição intensivo, por uma ingestão suficiente de líquidos, por uma alimentação completa e variada, por uma higiene geral (repouso, sono, abstenção de álcool). Apesar de uma constante melhoria das técnicas de treino e de equipamentos ninguém fica imune ao risco de lesões.

As lesões constituem um dos principais obstáculos ao rendimento desportivo.

Uma lesão pode representar um impedimento temporário ou definitivo na prática desportiva, com todas as implicações que daí advém.

Por melhor que sejam as qualidades pessoais do atleta, mesmo que a sua preparação técnica seja excelente, o sucesso desportivo pode não ser atingido se durante a sua prática desportiva ficar lesionado.

O nosso papel será actuar a nível da prevenção, divulgando medidas preventivas eficazes, afim de impedir o aparecimento de lesões. Apesar da introdução destas medidas, podem surgir algumas lesões. Se tal acontecer temos de actuar de imediato na sua resolução de forma a minimizar as consequências e permitir o retorno à actividade desportiva o mais rapidamente possível.

As lesões podem surgir como consequência da actividade desportiva em si, ou estarem relacionadas com o próprio gesto desportivo e algumas podem mesmo ser provocadas pelo próprio desporto (Ex. fracturas de sobrecarga ao nível dos metatarsianos em corredores de fundo).

Muitas têm sido as investigações efectuadas sobre as lesões desportivas, tendo a maioria dos autores feito a descrição de algumas tipologias mais frequentemente encontradas. Algumas caracterizam determinadas modalidades, permitindo-nos fazer comparações com as lesões sofridas pelo grupo de atletas estudados. Tendo como fonte Cruz e Neto (1996), mencionaremos alguns dos estudos seleccionados e citados por estes autores:

“Pontana e colaboradores (1979), mostraram que nas épocas de 1976/77 e 1977/78, nas 16 equipas italianas da 1.ª divisão de futebol, tinham ocorrido 1.228 lesões. Os jogadores atacantes foram os mais atingidos tendo 83.8% das lesões ocorrido nos membros inferiores e em particular na coxa.

De salientar o estudo epidemiológico de Volgi no campeonato do Mundo de Futebol (1990), em que nos 102 jogadores observados, se constatou que foi na primeira metade da 2.ª parte que surgiram mais lesões.

Mais tarde, Angelini e colaboradores (1992) num estudo que fizeram em 1.018 atletas de futebol que participaram nos jogos, de Agosto de1980 aJunho de 1991, foram registadas 207 lesões. Nesta amostra foram consideradas como lesões mais significativas as que impediam o atleta de realizar pelo menos um jogo ou uma sessão de treinos. De salientar que a gravidade das lesões aumentou com a idade e com a intensidade da competição.

A maioria das lesões (67%) incidiram nos membros inferiores. As lesões musculares da coxa, por estiramento ao pontapear a bola (86% dos casos) e nos gemes ao fazer sprint(91%>) foram os mais frequentes, tendo sido os do joelho (25%) e do tornozelo (18%).

Uma outra investigação, efetuada em Espanha por Ferrier, Rodriguez, Carriou, Bleda e Santonya (1994), realizada em 26 jogadores de futebol da  1.ª divisão, constaratem a existência de 169 lesões. Nesta estudo as lesões tendinosas foram as mais frequentes (10%).

Num outro estudo efetuado por Bégue, Blanc e Huguet(1976, citado por Ferreira, 1995), ao  estudar uma equipa de profissionais de futebol americano, durante 8 épocas sucessivas, constatou que a articulação do joelho era a zona corporal mais atingida e que 20% das lesões se localizavam nos membros superiores, 18% no tornozelo e 12% no crânio e face /16% destas fraturas eram no nariz).

 

Nas investigações efetuadas em Portugal, salientamos um primeiro estudo de Massada(1985), efetuado a 36 voleibolistas do sexo masculino.

Destes só 5 é que não sofreram lesões, os outros (86.1%) referiram 112 lesões, sendo 42,9% nos membros superiores, 48,2% nos membros inferiores e 8.9%, na coluna vertebral. As zonas corporais mais atingidas foram os dedos (30,4%), as entorses ao nível da articulação tíbio - társica (19,6%), o joelho (18.8%) e o ombro (10.7%).

Um outro estudo, realizado por (Massada, Pinto, Real, Gancho e Rocha, 1986), abrangeu 40 praticantes de hóquei em campo da 1.ª divisão. As contusões ficaram em 1.º lugar (50,8%), distribuídas pelas pernas e cabeça, 21% foi a percentagem obtida para as lesões musculares e articulares.

Mais tarde Massada, Teixeira, Conde e Lemos (1987), realizaram outro estudo em basquetebolistas de média e alta competição, concluíram que as lesões articulares eram as mais frequentes (43,1%), atingindo as regiões distais dos membros superiores e inferiores (50%).

Numa investigação feita por Ribeiro (1992) a um grupo de 25 jogadores de futebol, foram encontradas 86 lesões, que atingiram os membros inferiores (exceto três que se produziram nos membros superiores). Estas lesões produziram 998 dias de tratamento e recuperação, num total de 455 dias de repouso absoluto, 212 de trabalho em ginásio, 185 de endurece e 120 dias de treino condicionado. A frequência de lesões foram as musculares (39), seguidas das ligamentares (21) e pelas tendinopatias.

Num estudo efetuado por Carvalho (1994) em 402 atletas de futebol, sendo 178 (44%) profissionais e 224 (56%) amadores. Foram detetadas 585 lesões, 156 musculares (26%), entorses 138 (23%), lesões tendinosas (11%).

Massada, Freitas e Mourinho (1985), estudaram 30 dos melhores remadores portugueses, tendo encontrado 75% das lesões ao nível da coluna vertebral, sendo as lombalgias responsáveis por 58,4%.

Um outro estudo feito por Massada, Damásio, Mota e Lemos (1987), que incluiu 35 dos melhores atletas de salto de atletismo, pertencendo 19 ao sexo masculino e 16 ao sexo feminino. As lesões traumáticas mais frequentes estavam localizadas ao nível das articulações (41,6%).

O quadro 1, mostra uma investigação feita por Cruz (1992), nos atletas de judo, tendo feito a comparação entre os atletas franceses e portugueses revela alguns dados importantes.

Estudo comparativo no Judo (Adaptado por Cruz, 1992).

______________________________________________________________________

                                                           França                         Portugal          

Tempo de observação             4 anos                                     1 ano

N.º de Competições                            154                                         7                     

N.º de Atletas                                     17.596                                    716                 

N.º de atletas observados                    4.29(24%)                              122(17%)

Desistência por ordem médica 337(1.9%)                              20 (2%)

Hospitalizações                                   106(0.6%)                              5(0.6%)

______________________________________________________________________

 

Neste estudo a articulação mais atingida foi o joelho, na equipa francesa o ombro aparece em 2.º lugar (16.7%) e depois o cotovelo (15.6%). Nos atletas portugueses os locais mais atingidos foram a cabeça (22%), as mãos (20.5%) e o joelho (16.3%).

Estas citações feitas por Cruz e Neto em 1996, demonstram claramente as implicações que uma lesão provoca na carreira de um atleta de alta competição e as repercussões negativas que daí resultam, obrigando-nos como responsáveis diretos na investigação desportiva a criar medidas de intervenção urgentes de forma a minimizar drasticamente estas situações.

Não temos dúvida de que a elaboração destas intervenções, passará necessariamente pelo conhecimento geral e aplicação prática de todas as regras de segurança, do cumprimento adequado das técnicas e de uma orientação específica e individualizada dos métodos mais adequados para a execução das tarefas. Só assim se poderá obter êxito na prevenção das lesões.

No estudo realizado por Cruz e Neto (1996), em atletas de futebol profissional lesionados, concluíram que as lesões do joelho eram as mais frequentes (mais de 30% do total de lesões registadas).

Os resultados obtidos por estes autores parecem sugerir dados importantes: a) a importância de alguns fatores e aspetos psicológicos associados às lesões desportivas, descritas não só na literatura nacional (ver Cruz e Dias, M.A.* 1996; Cruz e Neto, 1996); e na literatura internacional (ver Heil, 1993; Buceta, 1996); b) a importância da inter - correlação e interdependência entre variáveis e processos psicológicos de natureza cognitiva, motivacional e afetiva nomeadamente a perceção de ameaça e os recursos e competências psicológicas de confronto psicológico em contextos desportivos e competitivos (Cruz, 1994, 1996; Hardy et al., 1996).

O fato de “não atingiram objetivos importantes na sua carreira desportiva”, “não terem o rendimento pretendido e /ou desejado”, “poderem falhar ou cometer erros em momentos decisivos”, “ não corresponderem ao que os outros esperam dele” e “poderem sofrer lesões graves”, são situações vivenciais potencialmente stressantes, que funcionam de forma negativa e são favorecedoras do aparecimento de lesões. Estes dados comprovam também resultados anteriores de estudos nacionais e internacionais efetuados com atletas de elite de outras modalidades, sugerindo adicionalmente a importância das recentes abordagens cognitivas e motivacionais ao estudo do processo do stress, às reacções emocionais de ansiedade aos mecanismos gerais de adaptação humana (ver Cruz, 1994, 1996; Lazarus, 1991; Hardy et al., 1996).

Os conhecimentos da vida, positivos e negativos, experienciados pelos atletas lesionados, os resultados obtidos sugerem de uma forma clara, mas também previsível, que a lesão sofrida é o acontecimento (sempre avaliado de uma forma negativa) que em termos individuais, foi mais frequentemente citado pelos atletas.

Estes dados parecem evidenciar o modo como cada indivíduo interpreta os acontecimentos da vida (Brewer, 1994, Buceta, 1996, Cruz, 1994, 1996, Lazarus, 1991; Smith et al., 1990.

“Aos diferentes agentes (fontes) de apoio e ajuda, de natureza social e emocional, durante o processo de recuperação das lesões, os atletas referem a importância, por ordem decrescente, da companheira (namorada, esposa), dos familiares mais próximos, da equipa médica, dos amigos e dos colegas de equipa.” “Os atletas lesionados cim maiores níveis de apoio social e emocional, percecionam níveis significativamente mais elevados de rapidez na recuperação das respetivas lesões” (Fonte: Cruz e Neto 1996).

Esta investigação permite-nos concluir que os processos mentais e psicológicos exercem uma importância fundamental na recuperação de lesões desportivas, mas evidenciam ainda o papel determinante que o apoio social, psicológico e emocional tem nos atletas lesionados, fatos já bem salientados e comprovados na literatura da especialidade (Brewer, 1994, Cruz e Dias, M.A.*, 1996; Heil, 1993; Buceta, 1996, Dias, M.A*. 1994).  

Todos estes dados apontam para a necessidade de implementar programas de intervenção psicológica, que possibilitem uma abordagem multidisciplinar na prevenção e recuperação das lesões.”       

 

(*) doutorada em medicina



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:00
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