Por: Filipe De Vasconcelos Fernandes
Miserabilis Manifestum (Ou um Diálogo Entre Academo e Orfeu Sobre a Essência da Dignidade da Vontade)
Orfeu: Oh, souberas esta infinitude que plasma o marasmo do ocidente?
Academo: enfim, colonos de infinita terra!
Orfeu: era o que me parecia, a imensidão desta tempestade de rouquidão sem voz…antes falar que ter voz, não vá a vaidade do destino ser o futuro que nos esmaga
Academo: quem? O futuro?
Orfeu: sim, é um deus menor que jaz póstumo… na ternura dos que são idealistas pela madrugada…à falta de ideias, positivistas pela aurora da tarde
Academo: São da perdida Atlântida?
Orfeu: não, perderam-se sem necessidade de tragédia! Não fosse um liturgo deles fazer um mártir!
Academo: a moral morreu! Cuidem-se dos costumes
Orfeu: não, a moral acabou de nascer, filha de parto humilde e sofredor!
Academo: e o eterno retorno?
Orfeu: a moral subjugou o eterno retorno, qual trepadeira de bosque à procura de luz…a moral tem voz, só que querem-na como falácia!
Academo: então e o futuro? Tem voz?
Orfeu: não, o futuro é mudo porque emprestou a voz ao presente… e toca harpa por neumas
Academo: verdade? E é dono de uma voz só?
Orfeu: não, é mudo…toca o silêncio da noite por antagonia
Academo: e ouvem-se os grilos, agora, parece quase primavera…não escutas? Tamanha vontade de ser fonte de luz!
Orfeu: o que te parece sobre a vontade? É digna?
Academo: tenho dúvidas sobre se a vontade será um mero espólio de metafísica…
Orfeu: duvido! Escuta, não ouves?
Academo: os grilos? É primavera?
Orfeu: tens razão, parecia-me ouvir uma harpa a tocar, sozinha na escuridão abrilhantada…devem ser os grilos, tamanha vontade!
Academo: quiçá não são os mortos da Atlântida?
Orfeu: não, esquece os mortos, que jazem sozinhos…olha os vivos, na escuridão...nem os grilos lhes valem…não há grilos e já é primavera!
Academo: quem são afinal? Homens sem vulto, ou demasiado pequenos de tamanho para o vulto que aparentam?
Orfeu: contaram-lhes histórias, sei agora…contaram-lhes que não há primavera
Academo: poderá ser isso? E os grilos, serão agora mudos para sempre?
Orfeu: não, nada disso…os grilos são recitais de verão, e cantam por neumas na primavera…e têm o som de uma harpa, que toca por neumas no escuro
Academo: tenho pena da humanidade, e do comando deste homo miserabilis
Orfeu: calma, a humanidade é miserável mas não é pequena! E há sempre a vontade
Academo: vontade de quê?
Orfeu: a vontade de ser humano, de ser grilo, de ser harpa a tocar no escuro do brilho que é ser reflexo da noite, numa primavera de outros cintilantes noctívagos
Academo: grilos? Heróis? Mitos?
Orfeu: o que é da humanidade Senão os seus heróis, os seus espelhos?
Academo: é tempo de ser herói?
Orfeu: não, não! É tempo de ir à procura da Atlântida, que jaz no marasmo dos profícuos
Academo: ouvi dizer que há uns anos, a acharam, mas era pouco…
Orfeu: de quem falas? Dos grilos?
Academo: não, de uns lusos, obreiros de vasto céu territorial…diz-se que acharam a Atlântida…mas era pouco
Orfeu: faltou-lhes vontade?
Academo: não, tinham-na em demasia, eram senhores da sua alma, deuses do seu epitáfio!
Orfeu: que sabes deles?
Academo: que é quase primavera, e que não há grilos cantantes
Orfeu: grilos ou pirilampos?
Academo: não sei, mas não brilhavam?
Orfeu: brilhavam e cantavam
Academo: grilos a brilhar? Dimensão da vontade?
Orfeu: podem os grilos brilhar por vontade?
Academo: Pois parece que não são grilos nem pirilampos, mas uns quantos espíritos da Atlântida perdida
Orfeu: não, são portugueses!
Academo: como? Não serão grilos por vontade?
Orfeu: Não, são astros!
Academo: uma aurora no final de inverno?
Orfeu: sim, são portugueses…uma aurora por vontade, que se não deixou cair no marasmo!
Academo: verdade! Mas são quantos? Vejo efémeras luzes…não serão meros pirilampos?
Orfeu: Não, são portugueses!
Academo: por vontade?
Orfeu: não, apenas assim nasceram
Academo: e qual é a sua vontade?
Orfeu: de o ser assim para sempre
Academo: é tempo de procurar a Atlântida?
Orfeu: Talvez…
Academo: a Atlântida nasce do profundo, mórbido ente dilacerante que é o mar, desgraçado de vontade frustrada
Orfeu: mais vale quem busca por vontade, do que quem tem vontade de ser sem sentido!
Academo: São dignos, portanto?
Orfeu: digníssimos…tenho mais esperança do que ontem…que se calem as vozes
Academo: que farão?
Orfeu: serão grilos por vontade, que brilham na escuridão dos náufragos colonos de infinita terra?
Academo: que são pirilampos a cantar?
Orfeu: não, que são o inimaginável que se pensa: grilos por vontade, que brilham!
Academo: Não morreram portanto?
Orfeu: não, apenas os julgaram póstumos à nascença!
Academo: acabaram de nascer? Como a moral?
Orfeu: Talvez…A moral nasceu com eles…Quanto aos próprios ressuscitaram!
Academo: como? Mas não haviam morrido!
Orfeu: reinventaram-se, foram à procura de ser grilos por vontade
Academo: e deus?
Orfeu: deus chamou-lhes filhos, e deu-lhes a vontade, sem saber o que era ser grilo por vontade
Academo: qual achas que vai ser o seu futuro?
Orfeu: deverão brilhar a todo o custo…e em cada um que morre se acendem outros, por vontade própria…e cantam, sendo mudos…por vontade também
Academo: a vontade é digna…por vontade ou por natureza?
Orfeu: a natureza da vontade é a sua dignidade própria, que se reinventa…e que como a moral, ressuscita
Aos pobres de espírito,
Aos falsos valentes,
Aos génios sem talento,
Aos mártires da aparência,
Aos idealistas sem ideias,
E aos vultos sem homens,
A todos, ao quadrado, adeus!
Manifesto Sobre a Miserabilidade Humana, sob o epitáfio de um Povo que como a Moral, não morreu
A Portugal, orgulhosamente
(E a todos aqueles a quem agora especialmente, a Dignidade, a Moral e a Vontade dizem alguma coisa)