Ao longo destes mais de 80 anos de carreira, a acordeonista compôs mais de 200 melodias e gravou mais de meia centena de discos
O Centro Cultural do Cartaxo recebeu no passado domingo, dia 26 de Junho, a “rainha do acordeão”. Eugénia Lima foi a convidada da rubrica “José Raposo Convida” e, além de ter contado várias histórias sobre a sua vida e a sua longa carreira – de mais de 80 anos –, ainda presenteou o público com o som do seu acordeão.
Aos 85 anos, Eugénia Lima revela-se como “uma pessoa muito afortunada”. Agarrada desde jovem à sua fé a Deus, a acordeonista diz ter tido ao longo da sua vida “mais coisas bonitas do que menos bonitas”. Revela ainda que está a atravessar a melhor fase da sua vida, com plenitude e tempo para fazer o que mais gosta.
Começou a tocar acordeão com apenas 4 anos, por influência do pai, que era afinador de acordeões. Foi a primeira mulher a tocar acordeão e a acordeonista portuguesa mais internacional de sempre.
“A partir dos 20 anos passei a ir muito para o estrangeiro. Eu sentia-me humilhada por ver que todos os meus colegas lá fora tinham cursos, mas em Portugal não havia nenhum. Aos 52 anos fui para França estudar o que me faltava saber. E consegui o certificado de professora de acordeão”.
Nestes mais de 80 anos de carreira, compôs mais de 200 melodias e tem mais de 50 discos gravados. A fase mais difícil da sua carreira foi no pós 25 de Abril, altura em que “o acordeão caiu em queda livre, não por questões políticas, mas porque o interesse das pessoas se dirigiu para outras coisas”, conta.
Para tentar atrair de novo as atenções para o instrumento que a tornou conhecida além fronteiras, Eugénia Lima comprou “um órgão de botões com bateria acoplada e um acordeão electrónico, também com bateria, e comecei a fazer bailes e a dar aulas de acordeão. Fiz muitos bailes e também muitos casamentos sem querer”.
Recordando esses tempos já idos, Eugénia Lima conta que “quando me fiz artista era preciso muito trabalho. Tinha que andar de aldeia em aldeia para dar a conhecer a minha música. Agora basta aparecer na televisão e fica-se conhecido no mundo inteiro”, compara.
Eugénia Lima revelou ter um carinho especial pelo Cartaxo, não só pelos cerca de 10 anos que aqui viveu – de 1945 a 1954 –, mas também pelos momentos que aí viveu e que continuam gravados na sua memória. “Os melhores anos da minha vida passei-os no Cartaxo. É muito gratificante estar aqui hoje”, referiu, fazendo questão de recordar que foi no Cartaxo que teve febre tifóide e que a recuperação na altura a deveu ao Dr. Ernesto Melo Gomes, conceituado médico que exercia a sua actividade no concelho.
Mais recentemente, a sua saúde foi abalada, quando lhe foi diagnosticada a doença de Parkinson. “A hora mais difícil de toda a minha vida foi quando perdi o andar. Mas tive muitos amigos a apoiarem-me e bons médicos a cuidarem de mim. Lutei muito e consegui voltar a tocar. Comecei com as melodias mais simples, depois entusiasmei-me e passei a voltar a tocar para o público. Senti-me rejuvenescer”, considerou.
Eugénia Lima continua a dar concertos em público, aceitando convites sobretudo no âmbito de acções de solidariedade. Diz que agora “toca mais com o coração, e não tanto com a técnica”. No Centro Cultural do Cartaxo, fez questão de pegar no seu acordeão – que pesa cerca de 18 quilos – e tocar a “Súplica” (que compôs no Cartaxo), “Coimbra”, vários fados cantados por Amália (com quem manteve uma grande amizade) e um fado-canção que criou para dedicar ao seu público e ao seu acordeão.
Eugénia Lima conquistou o Óscar de Imprensa como melhor solista de música ligeira (1962) e foi condecorada com a Medalha de Mérito Cultural (1986), com o grau de Dama da Ordem Militar de Santiago de Espada (1980) e com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1995). O seu nome figura no Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis.