



« Orquestra Sinfónica Juvenil/Abrantes»
Fundada em 1973, a Orquestra Sinfónica Juvenil é, hoje, reconhecida como uma instituição fundamental no nosso panorama músico-pedagógico.
Sendo, em Portugal, a única orquestra de jovens com atividade permanente, desempenha um papel fulcral na formação de jovens músicos, numa perspetiva de aperfeiçoamento de alto nível e profissionalização.



Por: Ana Graciosa
TU! (Fuck MAP!)
Não és e nunca foste uma paixão de “fim-de-semana”, até porque nunca houve nenhum,
Muito menos a paixão da minha vida,
E... também jamais tive obsessões ou paixões assolapada.
A correria e fugacidade de uma paixão induz em erros... por isso não gosto de paixões.
O que sinto, traz paz e calma dentro de mim, e é por isso que é positivamente bom não haver paixões.
Apenas és e foste, uma certeza boa, um gostar calmo, imensurável e inexplicável…
Muito antes de te olhar, já eu sabia que as nossas almas tinham encontro marcado,
Desde esse dia até hoje, que não fui de mais ninguém,
Não beijei mais ninguém,
Não abracei mais ninguém,
Não pensei e nem “olhei” para mais ninguém…
O teu abraço e o teu beijo, apenas confirmou na pele,
o que a minha alma sempre sentiu e desejou.
Gosto da sensação de gostar, pelo que pensava que eras e me fazias ser por ti,
Gosto da sensação de fidelidade sem obrigação,
Gosto de estar junto e de aproveitar momentos indiscritíveis,
Adorava mimar e dar carinho, a um doce coração, que precisava voltar a sentir, que não voltaria a ser "rejeitado" e mal-amado.
Que queria unicamente, ter a reciprocidade em atos e atitudes, das palavras que dizias,
e sentir que não eram apenas palavras bonitas e manipuladoras.
Pensei que conseguias desapegar do passado e deixar as mágoas de lado, mas… estava tudo mais presente do que alguma vez imaginei.
Peço perdão se te fiz reviver o que o que ainda te faz tão mal.
Se te magoei ou decepcionei… garanto e juro, que não era essa a finalidade e muito menos a intenção,
que tudo isso me atingiu duplamente e magoou mais a mim do que a ti...
Juro e garanto que queria somente fazer-te sentir único e especial.
Mas... Enquanto houver conflitos interiores, jamais se consegue chegar à paz e ver a pureza de gestos e atos sem maldade ou intenção de “ferir”…
Eu sabia e sei que há imensas coisas que não mereces,
mas mesmo assim estou aqui.
Que acreditar em trocadilhos e em sorrisos maliciosos, me ia lixar a valer e que mais cedo ou mais tarde a injustiça ia aparecer,
Que jamais valorizarias quem é verdadeiro e transparente demais,
porque o teu mundo é e sempre foi feito na base da mentira,
Que mais cedo ou mais tarde, quando aparecesse outra ou outro entretém, iria haver uma desculpa e ser descartável.
Que há seres inocentes, que davam a vida por ti e tu, simplesmente aniquilas e ignoras....
Que apesar de tudo, insisto em continuar a querer-te, e que isso não tem nada de errado… unicamente sei, que desistir é que é um pecado.

Por: Ana Fonseca da Luz
A minha mãe entrava no quarto, de olhos tristes e ternurentos e dizia-me num fiozinho de voz, para esconder o medo:
- Apaga a luz e deita-te…
Eu olhava-a, assustada e sabia pelo seu olhar, pelo tom da sua voz e pelas mãos que lhe tremiam, apesar de ela as tentar esconder, que o meu pai tinha chegado.
O meu pai sempre foi um homem azedo, de mal com a vida e, no entanto, eu sabia que, à sua maneira, ele gostava de mim.
Quanto ao amor que ele tinha pela minha mãe…
Mas eu fazia o que a minha mãe dizia. Largava o boneco careca ou o livro de “estórias” de fadas, beijava a minha mãe a correr e deitava-me na cama, tapada até ao nariz.
A minha mãe, submissa e sempre com o olhar a escorrer tristeza, aconchegava-me a roupa, beijava-me novamente e dizia-me ao ouvido: – Um dia ainda vamos ser muitos felizes…
Todas as noites me dizia o mesmo segredo, ao ouvido e era o momento mais feliz do meu dia.
Depois, ela saía do quarto e, com a ponta dos dedos, mandava-me um beijo. Eu apanhava o beijo no ar e, com a mão fechada e o beijo fechado na palma da minha mão, guardava-o no meu coração. Ela fechava a luz e dizia-me: – Não te esqueças…
Quando a porta se fechava e o quarto ficava às escuras, o meu pobre coração batia assustado, como as asas de um passarinho. A minha mãe sabia o quanto eu tinha medo do escuro, mas era uma das regras do meu pai, dormir de luz apagada.
E ali ficava eu, tapada até ao nariz, perdida no quarto escuro e com as mãos a taparem-me os ouvidos, para não ouvir a voz cortante do meu pai, que arranjava sempre motivo para ralhar com a minha mãe, enquanto ela lhe dizia sem nunca alterar o tom da voz:
- Fala baixinho, para não acordares a pequenina.
Entretanto, eu perdida no escuro do meu quarto, parecia-me ainda ouvir a voz doce da mãe a dizer-me ao ouvido: “Um dia ainda vamos ser muito felizes…”
E eu imaginava uma felicidade em que o meu pai não ralhava, em que não insultava a minha mãe. Imaginava uma felicidade em que só eu e a minha mãe existíamos. E imaginava o meu quarto com uma luzinha de presença acesa toda a noite, para aquela escuridão silenciosa não me sufocar.
Eu queria dormir, mas o sono não vinha.
Eu fechava os olhos com força e lembrava o sol que, durante o dia, entrava pela janela do meu quarto.
Se eu pudesse guardar a claridade do dia num frasquinho e destapar o frasquinho à noite, para iluminar o meu quarto…
Se o meu pai falasse baixinho à minha mãe e ela não tivesse medo dele…
E eu rezava baixinho e pedia a Deus para o meu pai se calar.
Depois, finalmente, quando a casa ficava em silêncio e só o barulho da escuridão me sussurrava ao ouvido cada vez mais baixinho, é que eu dormia.
E, no outro dia de manhã, o meu pai beijava-me a bochecha e eu gostava e a minha mãe sorria com a tristeza a escorrer-lhe dos olhos e as mãos trémulas de vergonha por não sermos felizes.
E eu ia para a escola e esquecia o escuro da noite e a voz feia do meu pai e os olhos tristes da minha mãe e fazia de conta que era feliz.
E comia pão com Tulicreme que me adoçava o dia e queria ficar na escola para sempre, para não vir o escuro da noite e eu não voltar a ser infeliz.
Mas as noites voltavam, com o escuro e com os ralhos do meu pai, que falava para a minha mãe como falava para os tropas que tinha no seu quartel.
E todas as noites, todinhas, ela me dizia ao ouvido, baixinho, para que só eu ouvisse “Ainda um dia vamos ser muito felizes…”
Já não tenho medo do escuro!
A minha mãe ganhou coragem, uma noite em que o escuro do meu quarto estava muito, muito escuro e eu chorei com medo e o meu pai ralhou.
E me fechou à chave.
E me chamou bebé.
E a minha mãe, com a tristeza a escorrer-lhe dos olhos, ficou sentada do outro lado da porta do meu quarto, a cantar-me canções que eram só nossas e a dizer-me: – Não chores, que a mãe está aqui…
E o meu pai a gritar: – Ou voltas já para a nossa cama e a deixas a chorar até aprender, ou sais desta casa e nunca mais cá pões os pés!
E o escuro a engolir-me.
E a falta de ar a sufocar-me.
E a oração a sair-me mal e eu a enganar-me.
E a minha mãe, sem me poder dizer ao ouvido para só eu ouvir “Um dia ainda vamos ser muito felizes…”
E a minha mãe ganhou coragem…
E ficou toda a noite sentada à porta do meu quarto com a luz a encher-lhe o coração e a tristeza a fugir-lhe do olhar.
Quando o meu pai acordou sozinho, na manhã seguinte, a minha mãe pediu-lhe a chave do meu quarto e ele deu-lha, porque lhe desconhecia aquele olhar, aquela voz, aquela força.
E arrancou-me da cama onde eu tinha chorado até o cansaço me ter vencido.
E fomos embora, as duas.
Já na rua, com duas malas feitas à pressa, perante uma passividade que eu desconhecia ao meu pai, com frio, depois de uma noite mal dormida e pela mão da minha mãe, rua abaixo, nos meus inocentes sete anos, perguntei-lhe:
- Onde vamos, mãe?
E a minha mãe, com os olhos a escorrerem-lhe coragem, respondeu-me:
- Vamos ser muito felizes…
«in A Rua das Magnólias»