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Domingo, 22 de Julho de 2018
O bife das marquesas

ANAFONSECA

 

Por: Ana Fonseca da Luz

 

O bidé das matquesas

 

O Verão, daquele ano, ia abrasador.

Julho estava mesmo a terminar a já sabíamos que o mês Agosto não ia ser fácil de suportar.

Eu, o meu irmão e os outros miúdos da rua tínhamos calor, tínhamos sim senhor, mas não nos queixávamos tanto como os adultos, nem pouco mais ou menos.

- Ainda bem que o Rui comprou o frigorífico e podemos ter as bebidas frescas.

- Abençoado frigorífico, rematava a minha avó, que continuava a vestir-se toda de preto pela morte do meu avô, apesar da minha mãe a andar a convencer a vestir-se de cinzento e de branco.

- Deus me livre! Isso é que havia de ser um falatório por aí. Olhem, a viúva do Joaquim Pedro já anda a aliviar luto, na certa já anda mouro na costa! Deus me livre, de cair na boca deste povo.

- Pronto, a senhora é que sabe, mas por mim e pelo seu filho, está à vontade, pois sabemos bem que a senhora não tem mais ninguém.

- Não tenho, nem terei, Deus me livre e guarde! Só eu sei o trabalho que o teu sogro me deu. Bom homem, mas com um feitio que dava cabo dos nervos a uma pessoa. Livra!

Eu e o meu irmão Pedro, que mais uma vez não tínhamos tido ordem de ir brincar para a rua com os outros cachopos, escutávamos a conversa da minha mãe e da minha avó, deitados no chão da sala, que estava mais fresco, enquanto elas tagarelavam e costuravam. A minha mãe fazia-me um vestido de alças azul e lilás e a minha avó baixava a bainha dos calções do meu irmão que, segundo elas, não parava de crescer e quando fosse adulto ainda havia de ver maior que o meu avô.

- Bem, estou a ver que o meu irmão vai ser grande, mas não vai ser grande coisa, tal como o avô.

- Teresinha, gritou a minha mãe enquanto me abria muito os olhos como se me estivesse a ver mal, isso não se diz do avô!

- Mas eu também ouvi a avó dizer, que o avô não prestava, saiu logo o meu irmão em minha defesa.

- Eu não disse que ele não prestava, disse que ele tinha mau feitio.

- Tenha mau feitio, não prestava, disse eu, achando-me cheia de razão e ainda por cima com a aval do meu irmão.

- E se mudássemos de conversa?

-É melhor é, minha sogra, que não se pode dizer nada à frente destes meninos.

- Então podemos ir brincar para a rua, para vocês conversarem à vontade, arrisquei eu.

- NÃO! Gritaram as duas em coro.

E lá caíam elas na conversa fiada, enquanto nós dois, deitados no chão brincávamos , eu com a meu bebé chorão e o meu irmão com um tambor que o meu pai lhe tinha comprado na feira e que dava cabo da cabeça da minha mãe e da minha avó.

Às seis e meia da tarde, era a hora em que o meu pai regressava a casa depois de um dia de trabalho na tipografia do senhor Benjamim, que para ser santo só lhe faltava usar uma coisa daquelas redondas e luminosas que os santos da nossa Igreja de Nossa Senhora do Carmo usavam e que eu não sabia o nome, nem me interessava.

Nessa tarde, o meu pai chegou com um sorriso de orelha a orelha, e antes que alguém tivesse tempo de lhe dizer alguma coisa, ou de nós lhe darmos o nosso habitual beijo e abraço, exclamou:

- Domingo, vamos à praia. Vamos cedinho, para aproveitarmos bem o dia e só regressamos à noitinha. Que tal?

A minha mãe largou o meu vestido, a minha avó picou-se na agulha que eu sempre lhe enfiava porque, segundo ela dizia, já não tinha olhos, expressão que deixava sempre o meu irmão muito confuso, porque segundo ele, a avó tinha olhos, sim senhor, e a minha mãe ia pelo mesmo caminho com respeito ao enfiar das agulhas.

- Vamos à praia, Rui? Então e vamos todos na tua bicicleta? Perguntou a minha mãe a rir, enquanto a minha avó abanava a cabeça.

- Não senhora, minha menina, brincou o meu pai, vamos no carro do senhor Benjamim. É verdade, pedi-lhe o carro, porque lhe disse que gostava  de vos levar à praia e ele disse que mo emprestava, e que na praia até podíamos usar a barraca dele, porque este domingo ele e a família iam passar o dia a outra praia, com uns amigos.

Eu não dizia? Eu não dizia que o senhor Benjamim era um santo? Agora até nos emprestava um carro para irmos à praia!

- Ai que bom, filho! Olha, posso fazer uma galinha corada, que se come bem fria, um arrozinho corado, uns pastelinhos de bacalhau e fazemos um pic-nic no pinhal, antes de chegarmos à Nazaré, o que é que te parece, Alice?

- Podemos levar isso tudo e podemos fazer o pic-nic, mas não é na Nazaré que o senhor Benjamim tem a barraca para nos emprestar.

- Ai, Rui, não me digas que é no bidé das marquesas?

Apesar dos meus conhecimentos sobre as praias portuguesas serem praticamente nulos, nunca na minha vida tinha ouvido falar numa praia que se chamasse “bidé das marquesas”. Já tinha ouvido falar da Nazaré, de S. Pedro Moel, de Cascais e de S. Martinho do Porto, que era para onde ia a Maria Beatriz, que era filha do sr. Dr., durante todo o mês de Agosto, agora “bidé das Marquesas?!

- Ó pai, essa praia fica em Portugal, perguntei eu com medo que aquela praia fosse muito longe e o domingo não chegasse para irmos, estarmos na praia e voltarmos para casa à noitinha, conforme o meu pai tinha dito.

- És mesmo estúpida, rematou o meu irmão com total desprezo pela minha ignorância, é claro que é na França. Bidé é uma palavra francesa,não é, mãe?

- Não, Pedro, não é! Bidé das marquesas é o nome que dão à praia de S. Martinho do Porto, por ser a praia para onde vão os ricos...

Estava tudo explicado. Por isso é que a Maria Beatriz ia para o bidé das marquesas. Ela era rica que se fartava. Eu só ia estar um dia na praia e já achava que era importante, agora imaginem a Maria Beatriz que estava um mês inteirinho no bidé das marquesas! Há gente com muita sorte!

Mas, afinal, o nosso maravilhoso domingo não foi passado do bidé das marquesas, mas sim numa praia que eu nunca tinha ouvido falar e que se chamava, Peniche.

Tal como a minha avó tinha dito, levámos um belíssimo farnel, que comemos dentro do carro do sr. Benjamim, porque o frio e o nevoeiro eram tantos que o que mais queríamos era voltar para a nossa casa, onde era Verão e onde as gasosas e as laranjadas fresquinhas esperavam por nós, dentro do nosso maravilhoso frigorífico, que naquele momento, era a luz dos nossos olhos, conforme a minha avó dizia.

Quanto ao bidé das marquesas, nunca cheguei a lá ir enquanto fui pequena, mas segundo dizia a Maria Beatriz, e eu acreditava nela, porque ela era a filha do sr. Dr., era uma praia muito linda, mas com água um bocadinho suja, sem ondas e onde nunca se via o sol.

Foi por isso que quando o meu pai, uns anos mais tarde, comprou um carro em segunda mão, ou décima, conforme dizia a minha mãe, fomos uma semana de férias para a Nazaré, que era a praia dos pobres, mas onde não faltavam ondas, sol, da parte da tarde, e mulheres com muitas saias que vendiam carapaus secos que cheiravam mal, e tremoços, os melhores tremoços do mundo.

É claro que a Maria Beatriz nunca pôs os pés na Nazaré, nunca soube o que era subir pelas dunas até ao Sítio e o bom que era comer sardinhas assadas, à porta de casa, com salada de pimentos, tomate e pepino.

Coisas de gente pobre!

 

«in Gente feliz com estórias felizes»



publicado por Noticias do Ribatejo às 00:01
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