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Domingo, 7 de Outubro de 2018
O Alfredo da Custódia

ANAFONSECA

Por: Ana Fonseca da Luz

 

RETRATOS 

 

Alfredo da Custódia 

 

Se chegasse alguém ao café da D. Emília ou à mercearia do Xico e perguntasse se sabiam onde morava o Alfredo da Conceição Pereira, ninguém saberia responder, mas se perguntassem pelo Alfredo da Custódia a coisa mudava de figura. 

É que o Alfredo, o Alfredo da Custódia, nem era assim muito conhecido, agora a Custódia, vai lá, vai... 

Quando ele resolveu pedir a mão da Custódia em casamento, sabia muito bem que a empreitada não ia ser fácil, pois toda a gente conhecia o seu mau feitio, mas fazer o quê se ele estava completamente rendido àquele nariz empinado dela, ao seu peito farto e às suas coxas roliças? 

Corria o ano de mil novecentos e setenta e tal e a coisa não estava fácil em matéria de emprego, mas o Alfredo tinha alguns estudos e com a cunha do padrinho que era homem de bem e de bens, lá conseguiu ir trabalhar para os escritórios da fábrica de enlatados. 

Agora, com um emprego daqueles, de certeza que a Custódia o havia de aceitar como marido e nem reparar no modo como ele entortava um pouco os olhos e na sua falta de altura, pouco mais de um metro e sessenta. Já a Custódia mandava-se para lá de um metro e sessenta e oito e era vistosa que nem uma flor, já quanto à simpatia... 

Mas pronto, casaram-se num dia de Verão em que choveu toda a tarde como se de um dia de Inverno se tratasse, mas como casamento molhado é casamento abençoado, tanto o Alfredo como a sua Tódinha convenceram-se que iam ser felizes para sempre. 

E foram vivendo, ano após ano, ora bem ora mal, com a Custódia a reclamar de tudo um pouco e o Alfredo a suportar tudo estoicamente, porque o que Deus uniu o homem não pode separar. 

Pensava ele que aquele calvário consentido em que ambos viviam seria para toda a vida, até ao dia em que se mudou para o rés-do-chão da casa deles, uma espanhola com muito salero, muita manha e pouco dinheiro. 

A Custódia, que de ciumenta não tinha nada, nem desconfiou quando o seu Alfredo começou a ir arranjar a antena de televisão da Conchita, assim se chamava a dita cuja, ou quando lhe ia arranjar os fusíveis que estavam sempre a ir-se abaixo das canetas, ou mesmo, reparem só, quando uma noite, já tarde, a Conchita lhes bateu à porta, porque andava um rato na cozinha e ela não o conseguia matar. 

-Vai lá acudir à Conchita, Alfredo, vai, coitada da rapariga, eu cá também não suporto ratos, tens de ir lá tu sozinho porque quem não põe lá os pés sei eu quem é. 

E o Alfredo da Custódia, nessa noite, que rato nem vê-lo, não aguentou mais as investidas da Conchita e teve-a ali mesmo no chão duro da cozinha, quase dando cabo, ele dos joelhos e ela das costas. 

Aquele romance tórrido ali mesmo debaixo das barbas da sua Tódinha durou até a Conchita descobrir que o Alf, conforme ela lhe chamava nas intimidades, tinha um belíssimo pé de meia que ela gostaria muito de gastar em sapatos, vestidos e passeios por Portugal e Espanha. 

E, numa noite de Natal, o Alfredo virou-se para a sua Custódia e disse-lhe: 

-Vai pondo a mesa que eu vou ali comprar cigarros. 

-Comprar cigarros? Mas tu estás tonto, Alfredo, tu nem fumas. Quem fuma que nem uma chaminé é a maluca da espanhola 

-Não fumava, não fumava, Tódinha...

Foi nessa noite que o Alfredo saiu de casa com a roupa que tinha no corpo e o talão de cheques no bolso, passou pelo rés-de-chão, apanhou a fogosa da Conchita, que o que queria era escudos na carteira para gastar, e se perdeu no mundo, que é como quem diz, rumou até Espanha. 

Durante quase dez anos ficou por lá, se bem que o romance só tivesse durado enquanto o dinheiro não se acabou. 

Quantas vezes, lá para a terra dos “nuestros hermanos”, o Alfredo não pensou na sua Custódia, mas por lá ficou até não poder mais.  Um dia, disse para a Conchita: 

-Vou ali comprar uns caramelos e já volto... 

Mas não voltou para a Conchita, não senhor, voltou foi com rabinho entre as pernas para a sua Custódia, de quem nada sabia ia para perto de dez anos. 

Depois de uma longa viagem que lhe acabou com o resto do dinheiro, ficou à porta da Custódia à espera que ela voltasse do trabalho, cheio de medo que ela o escorraçasse. 

Mas, a Custódia, a sua Tódinha, recebeu-o de cara fechada, mas recebeu-o sem fazer perguntas, como se ele tivesse acabado de vir de comprar cigarros. 

O Alfredo da Custódia era o homem mais feliz do mundo quando, no dia seguinte, saiu de braço dado com a sua Tódinha para iniciar um novo calvário... 

 

 



publicado por Noticias do Ribatejo às 07:50
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