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Domingo, 14 de Outubro de 2018
O Padre Pedro

ANAFONSECA

Por: Ana Fonseca da Luz

 

 

O Padre Pedro 

 

Corria o ano de 1946, quando o Pedro nasceu. 

 

O padre Pedro tinha um nome que lhe assentava como uma luva, chamava-se o dito, Pedro Cruz de Jesus. 

Com um nome daqueles, a mãe logo deitou por contas que o rapaz, assim que tivesse idade, havia de entrar num seminário, porque a pobreza era muita, os filhos também, e como ela estava só com trinta e oito anos, era bem capaz de ainda parir mais dois ou três.  

E assim foi, o Pedro foi para o seminário, ainda catraio e para alegria dos pais, pois sempre era menos uma boca para sustentar. 

No seminário, apesar da vida não lhe ser fácil e a vocação ser pouca ou nenhuma, o rapaz não se podia queixar, porque pelo menos o almoço e o jantar estavam sempre garantidos, apesar das rezas e dos estudos em latim, não lhe deixarem muito tempo para aquilo que mais gostava de fazer, que era pensar nas cachopas lá da terra. 

Mas o tempo foi correndo e, um dia, sem dar por isso, Pedro Cruz de Jesus, virou padre e foi mandado para uma terriola quase no fim do mundo, para que reunisse o seu rebanho e o conduzisse até às portas do céu. 

Um padre novo numa terra onde as novidades eram poucas, caiu como sopa no mel, e as gentes de lá afeiçoaram-se ao padre e o padre a elas. 

Tudo correu bem, até ao dia em que o Padre Pedro se embeiçou pela Maria Etelvina, moça já comprometida e de casamento marcado, tendo ambos sucumbido ao pecado da carne, ali mesmo na sacristia, perante o olhar reprovador de Santa Rita da Cássia, a quem tal coisa parecia impossível. 

A verdade é que após algum tempo daquele “pecado” ter começado, a moça terminou o noivado com o Joaquim Padeiro, passando a confessar-se dia sim, dia também, para alegria do Padre Pedro, que cada dia estava mais feliz e cujas homilias eram cada vez mais animadas e breves. 

Mas, o diz que disse que eles andavam enrolados começou a correr, a Maria Etelvina ficou de barriga sem ter pai para dar ao filho e o padre Pedro foi afastado da paróquia, porque, diziam as beatas, benzendo-se com a mão canha, que a criança que estava para chegar só podia ser filha do padre prevaricador. 

A verdade é que depois de muitas lágrimas, muitos abraços e muitas promessas de amor para todo o sempre, o padre foi recambiado para bem longe dali e a Maria Etelvina ficou malfalada e com um filho nos braços, que era a cara chapada do senhor prior. 

Depois daquela paróquia, por outras passou o padre Pedro, sempre com muito cuidado com as intimidades com as suas paroquianas, pois não queria ter mais problemas, além disso, a Maria Etelvina não lhe saía da cabeça. 

Mas um dia, conheceu a menina Elvirinha e quase, quase se perdeu de amores por ela. Mas também quem é que podia ficar indiferente àquela menina de dezoito anos, de meia de renda pelo tornozelo, de peito farto e anca larga, que sempre ficava na primeira fila e o olhava com olhos de mel? 

Nessa altura, quase esqueceu a Maria Etelvina e chegou mesmo a beijar a boca gulosa da menina Elvirinha e desapertar-lhe os botões de sua alva camisa, mas o encantamento quebrou-se quando a espada de S. Bartolomeu caiu no chão com um estrondo assustador, fazendo com que se afastassem um do outro sôfregos e suspirantes. 

Nessa noite, antes de se deitar e recolhido em oração, veio-lhe a Maria Etelvina à cabeça e lembrou-se do filho de ambos, que já devia ter uns oito ou nove anos, e que ele não conhecia. 

-Meu Deus, perdoa-me, mas não posso continuar a servir-Te mais, disse baixinho, é que não consigo esquecer a Maria Etelvina e, além disso tenho um filho que precisa de mim. 

Se melhor o pensou, melhor o fez e, no dia seguinte, depois de uma missa com uma homilia que falava do amor e de como era bom amar e ser amado, deixando as velhinhas todas de lágrimas nos olhos, fez as malas e partiu, deixando sobre a cama a batina e a estola. 

Sob a camisa branca, já sem colarinho, levava coladinho ao peito, o crucifixo que o acompanhava desde o dia em  que tinha entrado no seminário. 

Dentro de si, levava o desejo e a esperança que a Maria Etelvina ainda estivesse à sua espera, tal como lhe tinha prometido quando se despediram. 

 



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:00
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