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Domingo, 4 de Novembro de 2018
JOAQUINA

CATARINABETES

 

 Por: Catarina Betes

 

JOAQUINA

 

 

Quando recordamos os que partiram, encetamos uma andada solitária, em que desbravamos corajosamente um carreiro para o passado. Um caminho acanhado, por onde a nossa passagem nem sempre é simples, o nosso passo nem sempre é arrojado.

Por vezes há que desviar uma ou outra memória com dissimulada bravura, porque a dita nos magoa ou corrói por dentro. Temos que a afastar para conceder lugar às outras, as que nos embalam e aquecem o peito, num misto de dor, alegria e saudade.

Recordar os que partiram é sempre um rasgar de caminhos por nós adentro. Porque não chegamos ao que hoje somos, sozinhos, porque somos uma amálgama de diferentes heranças.

Recordo hoje, sem saber muito bem por quê, a minha tia Joaquina.

Não a conheci, morreu pouco tempo antes de eu nascer. É curioso como algumas pessoas habitam em nós, mesmo sem as termos conhecido presencialmente. A minha tinha Joaquina era irmã da minha avó materna. Vieram as duas para a Lezíria, após a morte do pai, à procura de trabalho. Tinham pouco mais de dezoito anos.

 Conheceram aqui aqueles que vieram a ser os seus maridos e por cá ficaram.

A minha mãe adorava essa tia e de algum modo, o amor que sentia por ela, passou para mim. Na minha infância, quando se falava dessa tia, os meus irmãos contavam que ela fora uma mulher terna, triste e solitária. Recordavam-na sentada em frente à chaminé antiga, a fitar de olhos vidrados, a luz do fogo que ardia lá dentro.

Pergunto-me hoje o que veria ela nesse fogo.

Veria a filha de quatro anos que se afogou no tanque do quintal? A filha que enterrou juntamente com a alma que nesse dia a abandonou?

Veria a vida perdida e desperdiçada quando, após a morte do pai, mãe e filhos se viram sem nada?

Veria o lugar onde nascera e crescera feliz, longe de imaginar que um dia deixaria para trás? O lugar que largara, na esperança de uma vida de amor que nunca chegou a viver?

Quando eu era criança, perguntava-me algumas vezes por que motivo as mulheres de antigamente não sorriam nas fotografias. Apenas vi uma fotografia sua e o seu semblante era sério. Tal como o da minha avó.

Hoje percebo que simplesmente as mulheres daquele tempo não riam.

Contemplo dezenas de vezes na minha mente, o perfil daquela mulher triste e só.

Depois da morte da filha, ficou-lhe o filho mais velho, a corrente que a manteve atada à vida.

O marido arranjou uma amante que morava na mesma rua. Fez-lhe um filho.

Separaram-se definitivamente. E viveu o resto dos seus dias e anos sozinha.

A minha mãe contava-me que no fim, quando a doença e a tristeza a venciam, a minha mãe sentava-se junto a ela na cama. A minha tia aproximava a cabeça do colo da minha mãe e afagava-lhe a barriga de seis meses, com carinho.

A barriga que na altura deu que falar, porque naquele tempo as mulheres não eram mães depois dos quarenta. Menos ainda quando já tinham filhos adultos.

Foi a minha tia Joaquina a primeira pessoa da família a amparar a gravidez “tardia” da minha mãe.

Por isso acariciava com amor o bebé que haveria de nascer, três meses depois da sua morte.

Esse bebé era eu.

E por esse motivo, quarenta e três anos depois, esse amor não se perdeu.



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:01
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Pinguço, o defunto da D. Emília

ANAFONSECA

Por: Ana Fonseca da Luz

 

RETRATOS 

 

Pinguço, o defunto da D. Emília 

 

Desde que nasceu que nada mais fez do que infernizar a vida da mãe. 

Para nascer esteve quase quarenta horas. 

A mãe com tanto que fazer na faina do campo e em casa com três cachopos ainda pequenos a pedirem tantos cuidados, e o raio do catraio que não descia para nascer, como se estivesse a adivinhar que a vida lhe havia de ser madrasta. 

Cresceu pelos campos, tal como os irmãos, enquanto bebé, dentro de uma caixa de madeira forrada com um panal da azeitona e, mais tarde, quando começou a andar, e porque nada parava com ele, preso com um baraço a uma oliveira, para que não fugisse à mãe e não mordesse nos irmãos, porque o raio do rapaz mais parecia um cão mordendo a torto e a direito. 

Mais tarde, quando chegou a altura de ir para a escola, em vez de querer aprender, queria era andar aos ninhos a matar os passaritos com uma fisga. 

Nunca foi nem de leituras nem escritas e os pais acharam melhor, assim que ele acabou a segunda classe, mal e porcamente, porque o que a professora Laurinda queria era que ele desaparecesse da escola, onde só causava problemas, puseram-no a pastar gado e a trabalhar nos campos. 

O Pinguço, assim era conhecido por todos, por sempre ter gostado muito das sopas de cavalo cansado que a mãe lhe dava de manhã, antes de ir para a escola, fez-se um belo homem, rude, mas vistoso, chamando a atenção das cachopas casadoiras. 

Mas, ele só tinha olhos para uma, Emília de seu nome, viçosa que nem uma flor e que mal reparava nele. 

Quanto mais ela o desdenhava, mais ele a queria e jurou a si mesmo sobre a campa da mãe, que só com ela haveria de casar. 

O cerco foi tanto e tantas as atenções que a Emília lá o aceitou para namorado e com ele casou. 

Foram morar para uma casita pequena, mas muito ajeitadinha e o Pinguço jurou a si mesmo que havia de fazer a sua Emília feliz. 

Depois de casados, a Emília bem fazia para que tudo estivesse do seu agrado, mas sempre que chegava a casa bebido, com tudo implicava.  

Depois, passou a ser ciumento. 

Ele tentava, tentava mesmo, controlar os ciúmes, mas o gostar dele por ela era tão doentio, que a mulher não tinha permissão para se dar com ninguém e até dos pais a das poucas amigas ele a conseguiu afastar. 

Um dia, a mulher ficou grávida e só de pensar que ia ter de a dividir com o filho que estava para nascer, amaldiçoou aquela gravidez, até porque a sua Emília estava até mais bonita, mais luminosa. 

Naquela noite, chegou a casa bêbado, como sempre, e espancou a mulher sem dó nem piedade, deixando-a sentada num mar de sangue. Era o sangue do seu filho que se espalhava pelo chão e, intimamente, alegrou-se por aquela criança não ir nascer. Assim a Emília seria só sua. 

Às vezes, depois de a socar, caía num mar de remorsos, mas a verdade é que não se conseguia controlar. O Pinguço tinha ciúmes até da sua própria sombra. 

A Emília definhava de tristeza, de mágoa e dor e ele, ele gostava de a ver assim, sua, impotentesubmissa. 

Mas Deus, dizem, não dorme, e numa noite de Inverno, de frio e de chuva, quando regressava a casa de bicicleta, um carro bateu-lhe e seguiu o seu caminho deixando-o ali, sozinho e ferido de morte. 

Só que a morte chegou e em vez de o levar logo para o quinto dos infernos, ficou ali ao seu lado, a vê-lo contorcer-se com dores e frio. 

Tinha as duas pernas partidas, sentia uma costela a perfurar-lhe um pulmão, fazendo com que cada vez que respirava uma dor sem tamanho tomasse conta do seu corpo. 

-Lava-me, gritava ele para a morte, que ao seu lado o olhava sorridente, leva-me depressa que não aguento tanta dor! 

E a morte, fria, distante olhou-o e disse-lhe: 

-Só te levo quando olhares para trás, para a tua vida e te arrependeres de todo o mal que causaste à tua mulher e ao teu filho que por tua causa não nasceu. 

Foi aí que o Pinguço, cheio de dores e de frio, deixou cair uma lágrima que se confundiu com um pingo de chuva, e disse à morte: 

-Perdoa-me, morte, perdoa-me! 

Cada vez tinha mais dificuldade em respirar, o corpo já não o sentia, só o coração teimava em bater, ora depressa ora devagar, muito devagar. 

Nesse instante, quando a morte lhe viu a lágrima e lha lambeu para ter a certeza que de uma lágrima de tratava, e não de um pingo de chuva, abraçou-o e preparou-se para o levar com ela. 

O Pinguço, antes do último suspiro, disse baixinho: 

-Perdoa-me, Emília, já que eu não me consigo perdoar. 

A sua cabeça pendeu para o lado esquerdo, os olhos abriram-se de susto como se estivesse a ver a porta do inferno aberta de par em par para o receber e ali ficou afogado em sangue e em chuva até ser encontrado já sem vida, para grande alegria da sua Emília. 



publicado por Noticias do Ribatejo às 07:42
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