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Domingo, 4 de Outubro de 2020
Há dias assim

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Por: Catarina Betes

 

Quando entramos no corredor do tempo e das memórias, encontramos diferentes portas à espera por serem abertas. A partir do momento em que elegemos uma, não há volta a dar.

A não ser entrar.

A eleita por mim, hoje, transportou-me a um sábado longínquo.

Um sábado normal da minha adolescência, em que normalmente ia, de manhã, ao Entroncamento, ao consultório dentário onde o protésico verificava o estado do meu aparelho.

Neste sábado particular, foi o meu irmão quem me acompanhou. Já tinha a carta de condução e como precisávamos de comprar umas t-shirts, a minha mãe deu-nos uma nota de cinco contos, que eu guardei religiosamente, no bolso das calças. E lá fomos, a caminho da cidade, no Citroen visa branco.

O consultório era mesmo encostado ao mercado. Sim, porque os meus pais não eram daqueles que alimentavam o culto das marcas dos trapos, felizmente! As roupas de marca que tínhamos, eram compradas no fim do verão, quando amealhávamos uns trocos, depois da campanha na fábrica de tomate.

Já no mercado, parámos junto a uma banca onde uma cigana berrava palavras de incentivo à compra e entre os gritos desta e os empurrões típicos das bancas mais “fashions”, lá consegui escolher uma t-shirt rosa choque. Já não recordo por quê, mas o meu irmão é que pagou.

A senhora abriu o bolso do avental para lhe dar o troco. Entretanto, olho para o chão, vejo a minha nota, pergunto-me como é que ela ali foi parar, apanho-a, confusa, e guardo-a novamente no bolso.

Comprámos mais umas coisas e a determinado momento o meu irmão perguntou-me quanto dinheiro nos restava. Meto a mão no bolso, e, entre moedas, sinto qualquer coisa dobrada. Tiro-a e deparo-me com uma nota igualzinha à que a minha mãe nos tinha dado. Ficamos ali parados durante um momento, até que se fez luz.

Caramba! A nota que apanhei do chão não era minha e tive o descaramento de a guardar tranquilamente no bolso.

Eu sei, o correto seria devolvê-la, mas vou tentar desculpar-me à luz da mente de dois adolescentes, com todo um Universo de possibilidades à frente dos olhos.

A verdade é que, a loucura instalou-se e resolvemos gastá-la. Estávamos ricos!

Recomeçámos a andada e recordo que nesse dia comprei uns sapatos espetaculares, que estavam na moda.  Desgraçadamente, eram um número inferior ao meu. Insisti que me serviam e trouxe-os. Afinal podia comprá-los, o facto de não haver em stock o meu número, tornou-se insignificante (e calcei-os durante todo esse ano até os escavacar, porque eram mesmo giros!, embora ainda recorde a sensação de aperto nos dedos dos pés).

Enfim, a vida é difícil.

Saímos do mercado carregados de sacos, e fomos pô-los ao carro. Por algum motivo que já não recordo, tivemos de passar no centro do Entroncamento.

Como ainda nos sobravam algumas moedas, fomos comer qualquer coisa (afinal, gastar dinheiro cansa!), a um café, na rua que hoje é a conhecida rua calcetada, na altura, ainda não interdita ao trânsito.

Antes de sairmos do café, o meu irmão levantou-se para ir ao WC e eu decidi esperar por ele na rua.

Já os dois dentro do carro, e quase a passar em frente ao dito café, o meu irmão perguntou-me:

- Quanto foi?

Eu respondo:

- Quanto foi o quê?

- Os bolos e os sumos.

Eu olho para ele com uma cara a que certamente chamou de parva, e respondo:

- Sei lá!

Olhámos um para o outro até percebermos exatamente do que estávamos a falar.

- Não pagaste??- pergunta-me ele, com um ar passado.

- Não, pensei que tinhas pago tu!

Escusado será dizer, que, neste preciso momento, estávamos presos numa fila de trânsito que caminhava, vagarosamente, em direção ao café. Chamámos uns nomes maus um ao outro enquanto o carro avançava, devagar.

Tenho a dizer que, quando passávamos lentamente em frente ao café, eu não aguentei a vergonha e encolhi-me dentro do carro, enquanto ao meu irmão não restou outra alternativa se não, agarrar-se corajosamente ao volante e olhar em frente, provavelmente enquanto rezava para que a fila andasse depressa.

E pronto, perante isto, resta-me a conclusão de que há dias assim.

Difíceis!



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:00
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