“O Tejo é que era a minha atração e não a bicicleta”
No dia 26 de dezembro, voltou a falar-se de ciclismo na Taberna do Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo. Desta vez, pela voz de José Trindade, filho do ciclista cartaxeiro Alfredo Trindade e que também se dedicou à modalidade, tendo em 1951 se sagrado Campeão Nacional.
José Trindade nunca teve a ambição de se tornar uma “figura ímpar” do ciclismo nacional, como foi seu pai. Em criança, fascinava-o mais as águas claras e límpidas do Tejo do que o fervor das corridas de bicicleta, que desde pequeno conheceu por intermédio de seu pai.
A sua infância foi passada a jogar à bola nas ruas de Valada, a andar a cavalo pelos campos da Lezíria, a correr na areia das margens do rio ou a nadar nas suas águas. “O ciclismo nessa altura não me dizia nada”.
Mas nos meandros da modalidade, muitos alimentavam as esperanças de o ver a seguir as pisadas do pai. A convite de Arnaldo Sobral, que organizava provas a nível nacional, Alfredo Trindade decidiu levar pela primeira vez o filho a uma corrida à Figueira da Foz. “Eu tinha 5 ou 6 anos, não tinha bicicleta e o meu pai deu-me uma pasteleira, sem guiador de corrida e sem travões. Mas eu não sentia inclinação para o ciclismo. O Tejo é que era a minha atração e não a bicicleta. Um rio de águas claras e límpidas, cheio de cardumes de peixes. Viam-se enguias, camarão e até mexilhão”.
O mundo rural que o rodeava e no qual a família tinha as suas raízes e fazia dele o seu sustento dizia-lhe muito mais do que as corridas. Gostava de correr pelos campos cultivados, de brincar nos picadeiros e de andar a cavalo. Divertia-se a apanhar mexilhão no rio ou “na bicha de rapazitos” que se formava junto ao Tejo para passar o melão das camionetas para os barcos.
Passou a andar mais de bicicleta quando acabou a Escola Primária e entrou para o Colégio Marcelino Mesquita. “Com 12 anos, vinha de bicicleta de Valada para o Cartaxo. Foram uns anos difíceis, porque tinha de fazer esse trajeto todos os dias, fizesse sol ou chuva”.
Com o seu amigo Eduardo Nicolau – filho de José Maria Nicolau e com o qual o seu pai, Alfredo Trindade, havia travado grandes e saudáveis duelos na estrada –, fazia corridas quase todos os dias. Eram apenas “duelos entre amigos”, mas que denunciavam as aptidões dos dois jovens para a modalidade.
“O José Maria Nicolau quando soube que eu tinha ganho uma corrida do Colégio ao filho dele desafiou o meu pai a comprar-me uma bicicleta. Mas ele queria que eu primeiro acabasse o curso e só depois pensasse no ciclismo”.
José Trindade começou a aperceber-se que “o bichinho da bicicleta estava a ficar cá dentro”. Quando acabou o curso, pediu uma bicicleta ao pai e foi treinar para o Sporting. “Eu nunca tinha corrido e ganhei no primeiro treino que fiz no Sporting”.
O pai quis que José Trindade fizesse, tal como ele, um estágio em França, e José Trindade rumou a Paris, onde “ganhou muitos conhecimentos sobre ciclismo”, mas nesse período, “a melhor coisa” nunca fez, que foram competições, porque o Sporting não tinha dado essa autorização.
Quando foi recrutado para fazer o Serviço Militar, o ciclismo passou para segundo plano. “Foram tempos difíceis, entrei para a Cavalaria 7, fui depois para Santarém e mais tarde destacado para Santa Margarida. A tropa não me dava tempo para treinar, por isso levava grandes tareias nas corridas”.
Ao longo da sua juventude, participou em muitas corridas, foi camisola amarela em muitas delas e em 1951 sagrou-se Campeão Nacional.
Não se sentindo totalmente realizado com a sua carreira de ciclista, José Trindade começou a pensar no seu futuro e no sonho que sempre alimentou em trabalhar um dia no Banco Nacional Ultramarino (BNU).
“Entre 400 candidatos para o serviço de Contabilidade Pública, fiquei classificado nos 10 primeiros, mas para o BNU fiquei mal classificado”. Depois de ter estado cerca de um ano a trabalhar em Lisboa na Contabilidade Pública, conseguiu entrar para o Banco, mas teve de ir para Felgueiras, para desgosto do pai.
Passou posteriormente pelas delegações de Torres Novas, Cartaxo, Cantanhede e Santarém. “Em todas as terras por onde passei, era sempre uma festa quando o meu pai me ia visitar, porque ele era muito estimado. Eu em qualquer sítio era sempre conhecido como o filho do Trindade”.
José Trindade gostava do que fazia, porque “antigamente estabeleciam-se muitas amizades nos bancos. Éramos verdadeiros amigos dos clientes. Hoje há as máquinas, é muito diferente”.
José Trindade admira muito o seu pai – o que ele foi enquanto corredor e enquanto homem. “Ele nunca gostou que eu fosse ciclista porque era uma profissão muito difícil e custosa e ele não queria que o filho passasse por aquilo que ele passou”.
Quando deixou as corridas, o seu pai dedicou-se à agricultura, uma área que ele sempre gostou. “Também aí ele foi sempre o mesmo lutador, queria sempre ser o melhor. E fazia o melhor vinho branco em Valada, tinha boas castas e orgulhava-se por fazer vinhos extraordinários”.
Também no mundo rural, José Trindade seguiu as pisadas do pai e depois de se reformar, em 1990, deu continuidade ao trabalho do pai na agricultura. Mas com “a crise que a vinha atravessou e a introdução das novas técnicas”, optou por arrancar a vinha. “Agora só vejo a terra, é uma grande tristeza”.
José Trindade tem hoje 81 anos e continua a viver em Valada, mesmo à borda de água. O rio já não é o que era, o ciclismo também não. Ainda assim, todas as manhãs gosta de estender o olhar por essas águas que se tornaram menos claras. Do ciclismo, guarda as memórias e os troféus. Destes, prefere contemplar os do seu pai – são mais preciosos porque contêm dentro as emoções das lutas empolgantes que Alfredo Trindade travou com o seu grande amigo e rival José Maria Nicolau e que fazem deles “dois grandes gigantes do ciclismo nacional”.