Augusto Pereira na 51.ª Conversa na Taberna
Mudam-se os tempos, renovam-se as saudades
À mesa da Taberna do Museu Rural e do Vinho, Augusto Pereira recordou o passado, fez um retrato do presente e perspetivou o futuro. Foi mais uma edição das Conversas na Taberna, no passado dia 30 de janeiro, que contou com as histórias e os pontos de vista deste empresário e dirigente associativo, natural da Ota, mas com fortes ligações ao Cartaxo.
“O mundo é composto de mudança”, já dizia o poeta Luís de Camões. As naturais mutações da sociedade têm criado uma distância cada vez maior em relação aos meios, aos costumes, aos hábitos, às raízes, às origens das quais descendemos. Os laços que nos ligam ao passado vão sendo muitas vezes quebrados pela constante novidade, que criam diferença, mas não indiferença a Augusto Pereira.
Tal como muitos da sua geração, Augusto Pereira não encontra muitas semelhanças entre a juventude que viveu e a forma como vivem hoje os jovens. Crenças, valores, educação e formação – tudo está diferente. Em alguns aspetos, os tempos mudaram a sociedade para melhor, noutros casos nem por isso.
Augusto Pereira tem 46 anos e nasceu e cresceu na Ota, concelho de Alenquer, em pleno meio rural. Muitas das suas aventuras de menino foram vividas entre as caldeiras de aguardente e os tonéis da adega da quinta da família, junto dos homens que sabiam trabalhar a terra e manobrar as máquinas.
Aos 9 anos, Augusto Pereira entrou para um colégio particular em Rio Maior. Rapazes de um lado, raparigas do outro – espreitar por cima do muro só estava à altura dos mais aventureiros sem vertigens e sem medo das represálias do rigoroso diretor.
O liceu de Vila Franca de Xira foi o seu novo destino a partir dos 16 anos, onde frequentou o curso de eletrotecnia. Mais tarde, ingressou na Força Aérea, tendo aí permanecido sete anos como voluntário.
Desde cedo que teve o seu próprio negócio – primeiro formou uma empresa que se dedicava à criação de minhocas, depois mudou de ramo e criou uma empresa de embalagens de plástico e atualmente possui uma outra que comercializa pedras para jardim.
Augusto Pereira casou e é pai de dois filhos. Escolheu Almoster para viver e foi a partir dessa altura que passou “a fazer vida no Cartaxo”. A relação com a comunidade cartaxeira foi-se intensificando à medida que os filhos foram crescendo. Como pai presente que faz questão de ser, gosta de se envolver nos projetos e atividades em que eles participam.
“Soube que havia um agrupamento de escuteiros no Cartaxo e pensei em inscrever lá os meus filhos. Eu tinha também pertencido a um agrupamento na Ota, dos 9 até aos 23 anos. Aqui no Cartaxo souberam dessa minha ligação e pediram-me colaboração. Acordei o bichinho que tinha dentro de mim, e nunca mais de lá saí”.
Augusto Pereira é hoje chefe do agrupamento e é com satisfação que fala do trabalho e das atividades que têm sido desenvolvidas pelos escuteiros e da evolução que o agrupamento tem registado ao longo dos anos.
“O agrupamento do Cartaxo tem crescido ano após ano e hoje temos um efetivo de 140 pessoas. Tem sido feito um bom trabalho na co-educação dos jovens”, ainda que “hoje os jovens tenham muitas alternativas e não seja fácil cativá-los para determinado movimento que tenha a ver com a Igreja, porque sente-se um afastamento generalizado por parte dos jovens”.
O trabalho que tem desenvolvido com os mais novos dá-lhe também a oportunidade de os conhecer melhor – a forma como pensam, o que gostam de fazer, as suas expetativas para o futuro.
Na visão de Augusto Pereira, o Cartaxo tem também seguido o caminho do progresso – melhores acessibilidades, escolas de qualidade, espaços verdes, parques desportivos, etc. Não esqueceu igualmente as suas raízes, e a recuperação das Festas da Cidade e da Procissão dos Passos são dois exemplos que provam isso mesmo.
Mas mais do que nunca, “é importante que o Cartaxo volte às suas origens”. O Cartaxo e o país, os cartaxeiros e os portugueses, agora que se enfrenta “uma crise económica, mas também de valores e de oportunidades”.
“Os jovens sentem-se frustrados, ou porque não têm emprego, ou porque o que fazem não é compatível com o curso que tiraram. O conhecimento é fundamental para uma sociedade mais rica e mais culta, mas isso não quer dizer que todos tenham de ser doutores ou engenheiros. É preferível ser um bom sapateiro do que um mau médico”.
E porque a educação está na base da formação de gerações, “a primeira fonte de transmissão de valores é a casa. A partir daí, somos todos nós, a sociedade”.