Por: Antonieta Dias (*)
O síndrome de cólon irritável, muitas vezes denominado como um distúrbio nervoso, sem causa orgânica, está por vezes associado a um intestino espástico.
Trata-se de um cólon caracterizado por um conjunto de sintomas por vezes inexplicado, em que a exuberância sintomatológica implica observação médica e instituição terapêutica, por incapacidade de controlo do quadro clínico.
Manifesta-se por dor, alterações do trânsito intestinal (obstipação /diarreia), flatulência e distensão abdominal, muitas vezes acompanhado de abdominalgia / cólica abdominal.
Porém, este síndrome afecta uma percentagem relativamente significativa da população em geral
Apesar de ser benigno é perturbador pelo desconforto que origina.
Afecta 30% da população ocidental em alguma fase da sua vida. É três vezes maior nas mulheres, e sobretudo surge nas adultas jovens.
A prevalência nos Estados Unidos da América é elevada, representa 15%.
Não temos dados explicativos para a ocorrência de uma maior incidência nas mulheres, o que nos faz pensar que pelo facto de o sexo feminino, ter mais visitas medicas registadas, embora sem carácter científico esta pode ser uma razão bastante plausível e que não nos custa aceitar como verdadeira.
Em Portugal é a patologia mais procurada e diagnosticada nas consultas de gastroenterologia.
A sua evolução é benigna, mas recorrente, não predispõe ao aparecimento de cancro, doença inflamatória intestinal e muito menos hemorragias.
Com o decorrer do tempo pode dar origem a diverticulose com presença de divertículos ( dilatações saculares de dimensões muito pequenas), cuja benignidade, também não nos obriga a incluí-la como uma doença grave e muito menos incapacitante.
Importa, contudo referir que é frequente a existência de um quadro clinico mais grave (diverticulite), cujo tratamento pode passar por uma intervenção cirúrgica se a situação não curar com tratamento conservador.
Era comum pensar-se que a origem desta doença estava relacionada com distúrbios de índole alimentar e /ou situações de stress, contudo isto não foi comprovado.
O aparecimento de sintomas com a ingestão de certos alimentos fez com que alguns doentes pensassem que a sua origem estava relacionada com determinados alimentos.
Importa, contudo referir que certas alergias alimentares apesar de raras, podem justificar os sintomas associados ao síndrome de cólon irritável.
Apesar de o síndrome do cólon irritável estar associado a uma hipersensibilidade do cólon com determinados alimentos, apenas podemos concluir como uma probabilidade, sendo uma situação muito excepcional, que leva a alterações mecânicas de contracção e relaxamento dos músculos da parede intestinal, alterando a progressão normal do conteúdo alimentar ao longo do tubo digestivo.
Este facto pode aumentar ou diminuir a frequência dos ritmos de contracção e relaxamento muscular intestinal, aumentando ou diminuído a frequência das fezes e a sua consistência.
A sintomatologia do cólon irritável caracteriza-se pelo aparecimento de abdominalgia mais ou menos acentuada, distensão abdominal, enfartamento pós-prandial, eructações, alterações do trânsito intestinal (obstipação e/ou diarreia, ou mesmo as duas associadas em alternância).
Por vezes as fezes podem ser raiadas de muco, porém este sindrome nunca está associado a hemorragia ano-rectal, sendo assim, necessário fazer o diagnóstico diferencial com outras patologias.
O diagnóstico do sindrome do cólon irritável fundamenta-se sobretudo na história clínica, na especificidade da sua sintomatologia e no exame objectivo detalhado do paciente.
Todavia, este facto não exclui a necessidade de por vezes submeter os doentes a exames complementares de diagnóstico para garantir que a sintomatologia apresentada, não tem origem noutro tipo de problemas, pelo que não é rara a realização de colonoscopias, endoscopias digestivas altas, ou outros exames radiológicos, para esclarecimento do problema, podendo até nalguns casos solicitar uma avaliação psicológica do paciente.
Esta investigação clinica permite-nos excluir outros diagnósticos como por exemplo neoplasias, doença de crohn, diverticulite ou mesmo depressão.
A base do tratamento desta doença incluiu medidas conservadoras (tratamento médico), associado ao controlo do stress e a padrões alimentares que se coadunem com este tipo de patologia.
São sempre de aconselhar medidas dietéticas onde se excluem alimentos não digeríveis ou de difícil digestão.
Se conseguirmos que os pacientes tenham fezes mais moldadas e moles, estamos a contribuir para uma melhoria da progressão dos alimentos no intestino e muitas vezes corrigimos o desconforto da sintomatologia apresentada por estes doentes.
Tendo em conta estes aspectos, sempre que o doente manifesta diarreia deve ser estimulado a comer alimentos fibrosos ingeridos com pequenas quantidades de líquidos, contudo se pelo contrário surge obstipação, as fibras devem ser ingeridas com muitos líquidos, para tornarem as fezes mais moles e facilitar a sua expulsão.
Certos pacientes têm agravamento da sua doença com a ingestão de café, chá, chocolate, queijo, manteiga, leite, álcool, produtos lácteos ou nicotina, podendo mesmo alterar o próprio trânsito intestinal, pelo que estes alimentos devem ser evitados e excluídos da dieta diária.
Certo é que alguns alimentos podem ser causadores de maior desconforto, importa porém identifica-los o que nem sempre é fácil, tendo em conta as características individuais de cada pessoa que por ser única e ser possuidora de especificidades próprias não permite a modalidade de uma dieta padrão para aliviar a doença.
Nem sempre a correcção alimentar é suficiente para suprir o sofrimento do doente, sendo então complementadas as medidas dietéticas com a prescrição de fármacos destinados a corrigir e controlar os sintomas.
Sempre que constatamos com situações de elevado stress é aconselhável recorrer ao apoio de um psicólogo que ensine o paciente a usar técnicas de relaxamento, destinadas a melhorar a gestão dos fenómenos de elevada ansiedade e a melhorar a performance dos recursos disponíveis.
Os fumadores devem ser incentivados a deixar de fumar.
Em suma, apesar do processo de resolução do controlo do alívio da sintomatologia do cólon irritável ser por vezes lento, podendo levar seis meses ou mais à estabilização completa dos sintomas, os profissionais envolvidos na proposta de tratamento, devem munir-se de muita paciência tanto para prestar o apoio inicial, como nas agudizações e devem ser persistentes e assertivos na educação dos factores de agravamento.
No caso em apreço uma dieta individualizada, correta, com identificação dos alimentos que possam despoletar a sintomatologia é uma tarefa diária exigida à terapia comportamental alimentar destes pacientes.
Resta apenas acrescentar que alimentos ricos em gorduras, leguminosas, picantes, certos legumes (couve flor, bróculos, ervilhas), chá, café, bebidas alcoólicas devem ser excluídas da dieta destes doentes.
Recomendamos a necessidade de fazer 5 a 6 refeições diárias, comer devagar( saboreando os alimentos e mastigando-os com calma), evitar refeições tardias à noite e promover um exercício físico regular são aspectos do quotidiano que podem melhorar a qualidade de vida dos pacientes que sofrem de cólon irritável.”
“Comer é uma necessidade, mas comer com inteligência é uma arte”. La Rochefouucauld”
(*Doutorada em medicina)