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Domingo, 22 de Dezembro de 2013
TEMAS DE SAÚDE: Lesões no desporto

Por: Antonieta Dias (*)

 

O desporto representa por si mesmo e pelas suas múltiplas facetas, uma situação favorecedora da saúde, sendo atualmente inquestionáveis os efeitos positivos que a prática desportiva proporciona. Por este motivo, o interesse cada vez maior pelo desporto tem feito com que o número de praticantes - quer amadores quer profissionais -  tenha vindo a aumentar consideravelmente, tornando a sua prática no contexto actual uma rotina quase obrigatória e levando a que a idade de início da prática desportiva surja cada vez mais precocemente.

 

Sendo verdade que quanto maior for o número de praticantes maior será a probabilidade de sofrerem lesões, estas são um obstáculo importante à prática desportiva, podendo impedir temporariamente ou definitivamente a actividade do atleta, conduzindo necessariamente a uma diminuição ou ausência de rendimento, conforme a sua gravidade, situação que se torna ainda mais crítica se surgir num jovem em fase de crescimento.

 

É sabido que os diferentes tipos de actividade desportiva impõem exigências variáveis aos desportistas que a praticam. As tarefas que diariamente são pedidas, sobretudo aos atletas de elite, para atingirem bons resultados, passam necessariamente por um aperfeiçoamento das técnicas, por um número maior de horas de treino, por um aquecimento adequado, por programas de treino e de competição intensivos, por uma ingestão suficiente de líquidos, por uma alimentação completa e variada e por uma sistemática boa higiene orgânica (repouso, sono, abstenção de álcool). No entanto, e apesar de uma constante melhoria das técnicas de treino e da melhoria tecnológica envolvida, ninguém fica imune ao risco de lesões, que constituem um dos principais obstáculos ao rendimento desportivo e que podem representar um impedimento temporário ou definitivo na prática desportiva, com todas as implicações que daí advém.

 

Por melhores que sejam as qualidades pessoais do atleta e mesmo que a sua preparação técnica seja excelente, o sucesso desportivo não pode ser atingido se durante a sua prática desportiva este ficar impedido de manter um programa de treino de forma permanente e eficaz por um período de tempo prolongado.

 

O nosso papel tem sido o de actuar a nível da prevenção, divulgando medidas eficazes, a fim de impedir o aparecimento de lesões. No entanto, e apesar da introdução de tais medidas, é inevitável que elas surjam, pelo que nessa eventualidade ter-se-á de actuar de imediato na sua resolução, de forma a minimizar as consequências e a permitir o retorno à actividade desportiva o mais rapidamente possível.

 

As lesões de uma maneira geral podem surgir como consequência da actividade desportiva em geral, estarem relacionadas com o gesto desportivo específico ou mesmo serem provocadas pelo próprio desporto (Ex. fracturas de sobrecarga ao nível dos metatarsianos em corredores de fundo).

Muitas têm sido as investigações efectuadas sobre as lesões desportivas, tendo a maioria dos autores feito a descrição de algumas tipologias mais frequentemente encontradas. Algumas caracterizam determinadas modalidades, permitindo-nos fazer comparações com as lesões sofridas pelo grupo de atletas estudados. Tendo como fonte Cruz e Neto (1996), mencionaremos alguns dos estudos seleccionados e citados por estes autores:

 

“Pontana e colaboradores (1979), mostraram que nas épocas de 1976/77 e 1977/78, nas 16 equipas italianas da 1.ª divisão de futebol, tinham ocorrido 1.228 lesões. Os jogadores atacantes foram os mais atingidos tendo 83.8% das lesões ocorrido nos membros inferiores e em particular na coxa.

 

De salientar o estudo epidemiológico de Volgi no campeonato do Mundo de Futebol (1990), em que nos 102 jogadores observados, se constatou que foi na primeira metade da 2.ª parte que surgiram mais lesões.

 

Mais tarde, Angelini e colaboradores (1992), num estudo que fizeram em 1.018 atletas de futebol que participaram nos jogos, de Agosto de 1980 a Junho de 1991, foram registadas 207 lesões. Nesta amostra foram consideradas como lesões mais significativas as que impediam o atleta de realizar pelo menos um jogo ou uma sessão de treinos. De salientar que a gravidade das lesões aumentou com a idade e com a intensidade da competição.

 

A maioria das lesões (67%) incidiram nos membros inferiores. As lesões musculares da coxa, por estiramento ao pontapear a bola (86% dos casos) e nos gémeos ao fazer sprint(91%>) foram os mais frequentes, tendo sido as do joelho (25%) e do tornozelo (18%).

Uma outra investigação, efetuada em Espanha por Ferrier, Rodriguez, Carriou, Bleda e Santonya (1994), realizada em 26 jogadores de futebol da 1.ª divisão, constataram a existência de 169 lesões. Neste estudo as lesões tendinosas foram as mais frequentes (10%).

Num outro estudo efetuado por Bégue, Blanc e Huguet(1976, citado por Ferreira, 1995), ao estudar uma equipa de profissionais de futebol americano, durante 8 épocas sucessivas, constatou que a articulação do joelho era a zona corporal mais atingida e que 20% das lesões se localizavam nos membros superiores, 18% no tornozelo e 12% no crânio e face 16% destas fraturas eram no nariz)

Nas investigações efetuadas em Portugal, salientamos um primeiro estudo de Massada(1985), efetuado a 36 voleibolistas do sexo masculino.

Destes só 5 é que não sofreram lesões, os outros (86.1%) referiram 112 lesões, sendo 42.9% nos membros superiores, 48.2% nos membros inferiores e 8.9%, na coluna vertebral. As zonas corporais mais atingidas foram os dedos (30.4%), as entorses ao nível da articulação tíbio - társica (19.6%), o joelho (18.8%) e o ombro (10.7%).

 

Um outro estudo, realizado por (Massada, Pinto, Real, Gancho e Rocha, 1986), abrangeu 40 praticantes de hóquei em campo da 1.ª divisão. As contusões ficaram em 1.º lugar (50.8%), distribuídas pelas pernas e cabeça, 21% foi a percentagem obtida para as lesões musculares e articulares.

 

Mais tarde Massada, Teixeira, Conde e Lemos (1987), realizaram outro estudo em basquetebolistas de média e alta competição, concluíram que as lesões articulares eram as mais frequentes (43,1%), atingindo as regiões distais dos membros superiores e inferiores (50%).

 

Numa investigação feita por Ribeiro (1992) a um grupo de 25 jogadores de futebol, foram encontradas 86 lesões, que atingiram os membros inferiores (excepto três que se produziram nos membros superiores). Estas lesões produziram 998 dias de tratamento e recuperação, num total de 455 dias de repouso absoluto, 212 de trabalho em ginásio, 185 de endurece e 120 dias de treino condicionado. A frequência de lesões foram as musculares (39), seguidas das ligamentares (21) e pelas tendinopatias.

 

Num estudo efetuado por Carvalho (1994) em 402 atletas de futebol, sendo 178 (44%) profissionais e 224 (56%) amadores. Foram detetadas 585 lesões, 156 musculares (26%), entorses 138 (23%), lesões tendinosas (11%).

Massada, Freitas e Mourinho (1985), estudaram 30 dos melhores remadores portugueses, tendo encontrado 75% das lesões ao nível da coluna vertebral, sendo as lombalgias responsáveis por 58.4%.

Um outro estudo feito por Massada, Damásio, Mota e Lemos (1987), que incluiu 35 dos melhores atletas de salto de atletismo, pertencendo 19 ao sexo masculino e 16 ao sexo feminino. As lesões traumáticas mais frequentes estavam localizadas ao nível das articulações (41.6%).

O quadro 1, mostra uma investigação feita por Cruz (1992), nos atletas de judo, tendo feito a comparação entre os atletas franceses e portugueses revela alguns dados importantes.

Estudo comparativo no Judo (Adaptado por Cruz, 1992).

______________________________________________________________________

FrançaPortugal

Tempo de observação 4 anos 1 ano

N.º de Competições 1547

N.º de Atletas 17.596716

N.º de atletas observados 4.29 (24%) 122 (17%)

Desistência por ordem médica 337 (1.9%) 20 (2%)

Hospitalizações 106 (0.6%)5(0.6%)

______________________________________________________________________

 

 

Neste estudo a articulação mais atingida na equipa francesa foi o joelho, sendo que o ombro aparece em 2.º lugar (16.7%) e depois o cotovelo (15.6%). Já nos atletas portugueses, os locais mais atingidos foram a cabeça (22%), as mãos (20.5%) e o joelho (16.3%).

As citações feitas por Cruz e Neto em 1996, demonstram claramente as implicações que uma lesão provoca na carreira de um atleta de alta competição e as repercussões negativas que daí resultam, obrigando-nos como responsáveis diretos na investigação desportiva a criar medidas de intervenção urgentes de forma a minimizar drasticamente estas situações.

 

Não temos dúvida de que a elaboração destas intervenções, passará necessariamente pelo conhecimento geral e aplicação prática de todas as regras de segurança, pelo cumprimento adequado das técnicas e por uma orientação específica e individualizada dos métodos mais adequados para a execução das tarefas. Só assim se poderá obter êxito na prevenção das lesões.

 

Por outro lado, os resultados obtidos por estes autores parecem sugerir dois conjuntos de dados importantes:

 

 

a) a importância de alguns fatores e aspetos psicológicos associados às lesões desportivas, descritas não só na literatura nacional (ver Cruz e Dias, M.A.* 1996; Cruz e Neto, 1996); e na literatura internacional (ver Heil, 1993; Buceta, 1996);

 

b) a importância da inter-correlação e interdependência entre variáveis e processos psicológicos de natureza cognitiva, motivacional e afetiva, nomeadamente a perceção de ameaça e os recursos e competências psicológicas de confronto psicológico em contextos desportivos e competitivos (Cruz, 1994, 1996; Hardy et al., 1996).

 

O fato de “não atingirem objetivos importantes na sua carreira desportiva”, “não terem o rendimento pretendido e /ou desejado”, “poderem falhar ou cometer erros em momentos decisivos”, “ não corresponderem ao que os outros esperam dele” e “poderem sofrer lesões graves”, são situações vivenciais potencialmente stressantes, que funcionam de forma negativa e são favorecedoras do aparecimento de lesões.

Estes dados comprovam também resultados anteriores de estudos nacionais e internacionais efetuados com atletas de elite de outras modalidades, sugerindo adicionalmente a importância das recentes abordagens cognitivas e motivacionais ao estudo do processo do stress, às reacções emocionais de ansiedade aos mecanismos gerais de adaptação humana (ver Cruz, 1994, 1996; Lazarus, 1991; Hardy et al., 1996).

 

Os conhecimentos da vida, positivos e negativos, experienciados pelos atletas lesionados, bem como os resultados obtidos, sugerem de uma forma clara, mas também previsível, que a lesão sofrida é o acontecimento (sempre avaliado de uma forma negativa) que em termos individuais, foi mais frequentemente citado pelos atletas.

 

Estes dados parecem evidenciar o modo como cada indivíduo interpreta os acontecimentos da vida (Brewer, 1994, Buceta, 1996, Cruz, 1994, 1996, Lazarus, 1991; Smith et al., 1990.

 

“Aos diferentes agentes (fontes) de apoio e ajuda, de natureza social e emocional, durante o processo de recuperação das lesões, os atletas referem a importância, por ordem decrescente, da companheira (namorada, esposa), dos familiares mais próximos, da equipa médica, dos amigos e dos colegas de equipa.” “Os atletas lesionados com maiores níveis de apoio social e emocional, percecionam níveis significativamente mais elevados de rapidez na recuperação das respetivas lesões” (Fonte: Cruz e Neto 1996).

Esta investigação permite aos autores concluir que os processos mentais e psicológicos exercem uma importância fundamental na recuperação de lesões desportivas, mas evidenciam ainda o papel determinante que o apoio social, psicológico e emocional tem nos atletas lesionados, fatos já bem salientados e comprovados na literatura da especialidade (Brewer, 1994, Cruz e Dias, M.A., 1996; Heil, 1993; Buceta, 1996, Dias, M.A. 1994).  

 

Conclusão

 

Face à ubiquidade e à inevitabilidade do aparecimento de lesões no desporto, há uma clara necessidade de implementar programas de intervenção psicológica, que possibilitem uma abordagem multidisciplinar na prevenção e recuperação das mesmas, sendo estes um importante instrumento adicional de melhoria de rendimento desportivo, juntamente com as medidas padrão estabelecidas para o efeito.


(*)Doutorada em medicina



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:00
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1 comentário:
De apostas desportivas betclic a 31 de Dezembro de 2013 às 15:54
Já que o aparecimento de lesões é tão frequente no desporto, nada como saber agir da melhor forma para uma rápida recuperação da mesma! Muito interessante :)


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