NOTICIAS DO RIBATEJO EM SUMARIO E ACTUALIZADAS PERIODICAMENTE - "A Imparcialidade Na Noticia" - UMA REFERÊNCIA NA INFORMAÇÃO REGIONAL -
Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010
POLÍTICOS MENTIROSOS E A VERDADE DA MENTIRA

Por: Anabela Melão

 

Em 2004, experimentei o fel de alguns políticos mentirosos que me tinham nomeado para um cargo dirigente,  e, confesso até que me surpreendi porque, sendo tão pequena na escala daquele mundo,  lhes merecer tais "cuidados". Compreendi, a expensas próprias, que os políticos que pertencem à casta dos "mentirosos" se movem num submundo próprio, sem valores, e cujas regras são absolutamente desconhecidas pelos que não pertencem a essa "confraria" - que, nem por isso, são assim tantos - até porque têm um exército de seguidores e de "controladores" ao seu serviço, perfeitamente conscientes de que para chegar ao poder ou para manter o poder mentir é uma arma aceitável e legitimada por todos os que populam esse submundo. Aprendi uma inquestionável verdade: a mentira política é a mais perigosa.

Hannah Arendt dizia que a política é o lugar privilegiado da mentira, porque é  considerada um utensílio necessário e legítimo para o político e para o homem de Estado. James Callaghan, primeiro-ministro britânico nos anos 70, dizia que a mentira dá à volta ao mundo enquanto a verdade ainda está a calçar as botas. A mentira política é um fenómeno complexo e leva-nos a uma reflexão (política) profunda, que sobressalta a República desde Platão até ao Nicolau Maquiavel com uma mesma questão: dever-se-á, para seu bem, esconder a verdade ao povo, enganá-lo com vista à sua salvação? (W. Krauss). Há até quem defenda que estamos perante uma novilíngua - em que a verdade é a mentira, para recuperar George Orwell.

Quem inventa uma mentira, sobretudo no mundo da política, devia saber que esta tem perna curta e pode vir a ser uma armadilha. Os agentes políticos relacionam-se com os media através de formas de marketing mais ou menos orquestradas, procurando diminuir a sua vulnerabilidade à sua influência, de acordo com a posição que ocupam. Um (actual ou futuro) líder político pode dar-se ao luxo de ventilar uma (boa) mentira a quem possua a vontade e os meios de a difundir para enterrar um nado-morto que ele próprio cuida de envenenar. Mas mentir é um dos mais graves erros da vida pública. É um erro e uma falha ética grave. E contém consequências sérias que deviam ser ponderadas. Até os alvos das mais cruéis mentiras têm amigos e estes dificilmente perdoam. Mais tarde ou mais cedo vem à tona a verdade da mentira e pode o feitiço voltar-se contra o feiticeiro. O que um político mentiroso pretende com a mentira é infligir um golpe mortal às relações de confiança e de suposta lealdade instituídas entre alguém de bem e sobre o qual nada havendo de negativo a dizer mais não lhe resta que inventar e dar azo à mais impiedosa mentira. É o que acontece muitas vezes na mentira-política. A mentira é uma facada no que devia ser um pacto de honra. E que destrói a relação de cumplicidade entre quem nomeia e o nomeado, quem elege e o eleito. Nas relações políticas, sobretudo nos cargos de confiança, não existem circunstâncias excluidoras de responsabilidade, intervalos de sanidade mental, episódios de amnésia, interdições por prodigalidade. Os nomeados e os eleitos não têm nomeadores ou eleitores cativos e a continuidade em funções pressupõe uma relação estável de confiança. As relações criadas entre ambos estão, pois, sujeitas a vicissitudes (como as mentiras), e são, muitas vezes, influenciadas de forma determinante ou pelas "rádios-corredor" ou pelos media, consoante a importância dos cargos em causa, como o maior contra-poder, capaz de fabricar factos e opiniões de um dia para o outro e de converter a maior das mentiras na mais pura verdade. A confiança subjacente a uma relação de nomeação ou de eleição, públicas ou políticas, não está, as demais das vezes, de tal forma enraizada no íntimo das partes que permita a sobrevivência da relação, pelo que esta é colocada em risco de cada vez que um paladino da mentira sai a palco com uma arquitectada mentira, cujo alvo é o despacho ou o voto. E a confiança precária que é intrínseca à relação política pode ser seriamente abalada pelo impacto de uma (boa) mentira. Por isso uma (boa) mentira pode destruir uma carreira. Principalmente uma carreira política e/ou uma carreira pública. Quem propaga uma mentira está empenhado em tudo, excepto em comprovar a sua veracidade ou em ouvir a vítima, preocupa-se mais em aguardar o despacho de exoneração ou a demissão. A única coisa que verdadeiramente interessa a quem mente é destruir o merecimento que conduziu à nomeação ou à eleição. Quando um político-mentiroso (e há-os compulsivos). empreende uma campanha de desinformação inicia um processo de comunicação destrutiva - é uma “comunicação interessada” em destruir o trabalho de uma vida, ameaçando com a "culpa in contrahendo" quem nomeou ou quem elegeu. Quem elege começa a olhar de uma outra forma o candidato a líder, a procurar descobrir atitudes, gestos e comportamentos comprometedores que sufraguem a mentira ouvida. Porque teme que a verdade o cegue. E deixa que a mentira o cegue. Porque a mentira é popular e normalmente credível. Há, no fundo, o medo de mantendo a confiança inicial no nomeado ou no votado se vir a ser acusado de partilhar com ele o facto da mentira. Pelo que resistir à mentira exige coragem. E sabe-se que os políticos não passam por provas de iniciação que testem a sua coragem. Pelo contrário, o sucesso de se chegar ao topo de uma carreira pode depender da qualidade e do grau de covardia, de subserviência, de passividade ou de omissão. A racionalidade e a capacidade crítica nem sempre contam porque a nomeação nem sempre partiu exclusivamente da vontade de quem nomeou e porque o voto é essencialmente emocional: ambos assentam numa relação de confiança que fica posta em causa, equivocada. Mesmo que o titular do cargo público ou político seja reputado de competente ou apresente um projecto credível, o nomeador e o eleitor depositam a sua confiança em quem não os questiona nem intimida, mesmo que não exista tão reputada competência ou projecto tão credível. Os momentos que antecedem a nomeação ou a eleição dependem de movimentações e campanhas que funcionam como uma oficina de informações positivas. E os momentos que levam à queda dos escolhidos com informações ou com contra-informações negativas. Estas informações negativas lançam profundas dúvidas sobre o carácter, a honestidade, a coerência e/ou a competência do nomeado ou do eleito. Mas nada é mais grave nem provoca mais estragos que uma mentira, independentemente da sua sustentação em factos e/ou documentos irrefutáveis - ao acusado raramente é dado o direito de se defender - até porque não é possível provar que não se fez, que não se disse, que não se pensou- e é depois da queda que, na maior parte dos casos, se conhece a mentira. E no cenário de opereta actual, com net, blogs e twitters, qualquer candidato a um lugar público ou político que se preze deve ponderar, paulatinamente, com rigor, o seu passado, antes de começar a sua carreira. Porque nem será muito difícil pegar num episódio da sua vida, porventura mais mal contado e muito bem aproveitado, para fazer de uma verdade uma grande mentira.

Claro que o tempo tudo revela e descobre, mas a ofensa fica e nem todos temos a possibilidade de reequacionar prioridades e afectos, enveredar por novas opções, e começar de novo. Quando, porém, isso se consegue, a lembrar Elis Regina "começar de novo e contar contigo, vai valer a pena ter sobrevivido". Por isso um conselho aos potenciais alvos de políticos mentirosos: façam como sugere Richard Rorty: “Cuidem da liberdade, que a verdade cuidará de si mesma”.

 



publicado por Noticias do Ribatejo às 09:11
link do post | comentar | favorito

pesquisar
 
Outubro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
12


20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

Município de Santarém co-...

Câmara Municipal de Salva...

REMODELAÇÃO DA SINALIZAÇÃ...

Análise de investimento r...

Santarém – Prisão prevent...

ENSINO SUPERIOR NO DISTRI...

Entroncamento comemora o ...

CARTAXO REFORÇA APOIO À V...

Conversas com Café… Comun...

Branca de Neve e os Sete ...

Dia Mundial da Alimentaçã...

Concursos Nacionais no CN...

A renovada Sinagoga de To...

Temporada da Música 2019

NERSANT está em Macau a p...

Centro Cultural Azambujen...

Tomar recebe Seminário Na...

Grupo Tradicional "Os Cas...

Município de Azambuja com...

Anselmo Borges em Tomar d...

Arranque do ano letivo 20...

CONSTRANGISMENTOS E EVENT...

Lançamento do Guia Percur...

Município do Cartaxo cele...

Município do Cartaxo cele...

Discoteca Lipp’s reabre p...

FESTA DAS VINDIMAS EM VIL...

Exposição e concerto evoc...

Mudança

Quarta edição do CTX META...

arquivos

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

tags

todas as tags

subscrever feeds