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Domingo, 23 de Setembro de 2018
A D. Custódia

ANAFONSECA

Por: Ana Fonseca da Luz

 

RETRATOS

 

 

A D. Custódia 

 

 

A D. Custódia, Tódinha para os mais íntimos, que eram poucos, uma vez que era mulher de difícil trato e nem toda a gente estava para aturar o seu azedume crónico, morava sozinha ia para mais de dez anos, altura em que o marido a mandou às urtigas e se amantizou com uma estrangeira qualquer, que era mulher jeitosa, de carnes rijas, faces rosadas e sorriso fácil. 

Se a D. Custódia já era difícil, a partir daquela Noite de Natal, em que o marido lhe disse, vou ali comprar cigarros, e nunca mais voltou, indo-se enfiar na cama da outra desenvergonhada, passou a ser quase impossível conviver com ela, tal era o vinagre com que temperava todos os seus actos e palavras. 

Ali no bairro, toda a gente a cumprimentava, era verdade, mas mal chegavam a casa, benziam-se três vezes e mandavam rezar o quebranto, porque tinham a certeza que os olhares que ela lhes deitava deviam vir carregadinhos de más energias. 

Já a D. Custódia, Tódinha, para o seu gato, quando passava da soleira da porta para dentro, vomitava dois ou três palavrões contra a vizinhança,  deixava-se cair no seu velho cadeirão e fazia renda até lhe doerem os olhos e os dedos lhe começarem a sangrar de tantas vezes a agulha lhe marrar no mesmo sítio. 

Depois, farta de abertos e fechados, e sem saber que uso dar a tantas rendas, passava o resto do serão em frente à televisão, com o gato ao colo, ora a ver televisão, ora a televisão a vê-la a ela. 

A solidão é que não se descolava dela, aliás, a solidão era a sua melhor companhia. 

Até que um dia, melhor dizendo, um fim de tarde, quando regressava do trabalho, encontrou o marido, aquele que a tinha deixado numa Noite de Natal, há muitos anos, encostado à sua porta, mal trajadomal cheiroso e com olhos de cachorro abandonado. 

A D. Custódia, Tódinha, para o ex-marido, até ficou sem força nas pernas, sem ar nos pulmões e de vista turva. 

Então não queriam lá ver que estava com visões? Seria dos comprimidos para o coração, ou das cápsulas para o reumático? 

Foi nesse instante que ele abriu a boca, quando ela chegava mesmo pertinho dele, prontinha para o beliscar, para ver se era mesmo ele que ali estava, e lhe disse: 

-AiTódinha, as saudades que eu tinha de ti. Perdoa-me, eu sei que não te mereço, mas perdoa a este burro que te trocou por aquela desvairada, que me fez a vida negra e me deixou sem um tostão. 

A D. Custódia, Todinha, para os seus falecidos pais, nem queria acreditar no que os seus olhos viam e os seus ouvidos ouviam. Quis falar, mas não conseguiu, quis andar, mas as pernas não lhe obedeceram. 

Só quando ele chamou novamente por ela, Tódinha, é que ela acordou para a vida e se encaminhou para a porta, mudinha da Silva e de pernas bambas. 

O Alfredo, assim se chamava o prevaricador, entrou na sua antiga casa, e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. A sua Tódinha tinha mau feitio, tinha sim senhor, mas era limpa e asseada, trabalhadora e séria, coisa que a estrageira, aquela de carnes rijas e sorriso fácil, não era. 

-Se quiseres podes ir tomar banho, que não se pode estar ao pé de ti. Sabes onde fica a casa de banho. Tens a tua roupa no roupeiro, onde a deixaste... 

E o Alfredo foi tomar banho, trocou de roupa e perfumou-se com o seu antigo After-shave que, de velhice, já só cheirava a álcool. 

E a D. Custódia, Tódinha para o seu marido, nessa noite não fez renda, não sangrou do dedo e não viu televisão com o gato ao colo. Ao invés disso, fez sopa de espinafres, carne assada com batatas e arroz doce. 

Comeram em silêncio. 

Alfredo com o coração na boca, a Tódinha com o coração nas mãos. 

No fim da janta e da cozinha arrumada, ela disse-lhe: 

-Vamos dormir que já está tarde e amanhã temos de trabalhar. 

-Mas eu estou desempregado, Tódinha... 

-Estavas, estavas, porque lá na construtora onde sou telefonista, precisam de homens para dar serventia, e tu ainda tens bom corpo para trabalhares. 

O Alfredo nada disse, e como quem cala consente... 

Nessa noite, a Tódinha, de camisa de dormir com rendas e rendinhas caiu nos braços do seu Alfredo e saciou o corpo e lavou a alma, porque estava com sessenta e três anos, mas ainda não estava morta. 

O Alfredo, esse, depois de matar saudades do corpo da sua Tódinhatoda a noite rezou, agradecendo a Deus por a mulher o ter recebido. Que tolo tinha sido em a ter deixado e se ter entregue àquela desgraçada que o tinha enfeitiçado e lhe tinha levado tudo o que tinha. 

No dia seguinte, quando saiu à rua, de braço dado com o seu Alfredo, cumprimentou todos com um belíssimo sorriso, um sorriso que ninguém lhe conhecia. 

À porta do café Kátespero, a D. Emília conversava com o Cató. 

-Bom dia, D. Emília! Cató

 

 



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:03
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