
Por: Ana Fonseca da Luz
- Está melhorzinha?
Encolheu os ombros, com dificuldade e respondeu-me, numa voz quebrada e sem vida:
- Estou à espera…
- Está à espera da enfermeira? Quer que a chame?
- Não. Estou à espera da morte. Importa-se de esperar comigo?
Fiquei sem palavras, sem forças, sem saída…
Não respondi com palavras, apenas acenei com a cabeça em sinal afirmativo.
Puxei um banquinho que estava perto e sentei-me ao lado da cama.
A sua solidão, naquele momento, era a sua única companhia e ninguém deveria, nunca, morrer sozinho.
Apertei-lhe a mão com um pouquinho mais de força, para que soubesse que eu estava presente e ela, indelevelmente, apertou a minha.
Impressionante como a sua cara mudou. Pareceu-me mais serena ou apenas menos sozinha.
Não sei quanto tempo passou. Ali fiquei, até que adormecesse… ou partisse…
Quando finalmente saí do hospital, levava a alma apertadinha de tanta tristeza, de tanto medo…
Tinha tantas lágrimas dentro de mim que, durante algum tempo, não consegui conduzir. Fiquei dentro do carro, aguardando que as forças me voltassem e que as lágrimas me secassem nos olhos.
No outro dia, à mesma hora, voltei ao hospital para visitar o meu doente.
Um nó invisível apertava-me o estômago e aquele corredor da morte pareceu-me interminável.
Na cama onde no dia anterior uma mulher teimava em viver, cheia de vontade de morrer, estava agora um homem recostado em almofadas, sorridente, à espera que o viessem buscar, porque tinha tido alta.
Passamos a nossa vida à espera. Sempre à espera de qualquer coisa.
Ora à espera de morrer, ora à espera de viver…