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Por: Florbela Gil
Todas as sextas feiras, a minha avó Placidina, passava em casa da minha mãe para me levar a passar o fim de semana em casa dela.
A espera era sempre com muita ansiedade, ali ficava eu em frente á janela, olhando os pombos e as andorinhas, que faziam desenhos no céu, era lindo. Avó chegava, e lá ia eu, toda contente.
Os tempos andavam difíceis, os meus pais, ganhavam pouco, tinham comprado um terreno para construir uma casa, com a ajuda da segurança social, que emprestou algum dinheiro para pôr as paredes em pé, mas a casa só ao fim de 20 anos é que passava a ser deles, até lá, pagavam a prestação para amortizar.
Nasceu minha irmã.
O dinheiro, mais uma vez não chegava, com duas filhas, era difícil.
Pensaram em emigrar para a Guiné Bissau, já lá estava a irmã de minha mãe, com o marido, tinham uma pensão, no andar de cima, e em baixo, tinha padaria e pastelaria " O Império".
Eles chamaram, em primeiro lugar o meu pai para ir trabalhar para a distribuição do pão.
Minha mãe, foi mais tarde ter com meu pai, levando as duas filhas consigo.
A avó ficou triste, já lá tinha a filha mais nova, agora a mais velha e as netas também iam embora, foi difícil para ela.
A minha mãe, ia trabalhar para a pastelaria, vender os bolos.
Bem os pastéis de nata que lá faziam, eram de comer e chorar por mais. Eu que o diga. Os pasteleiros, tiravam os tabuleiros, cheios de pastéis, para a dispensa, onde iam arrefecer, e estavam cobertos de canela. Eu entrava lá sem eles verem, escondia-me debaixo dos tabuleiros e era comer,.....hum, tão bons. Fecho os olhos, e parece, que ainda hoje sinto o cheiro e o sabor do pastel quentinho com a canela.
Tinha nessa altura quatro anos e meio, lembro-me, de estar na varanda do primeiro andar e ver as tropas a marchar, com uma farda cinzenta, um chapéu cinzento com um berloque vermelho pendurado na ponta, que mais parecia um balde da praia enfiado na cabeça deles, com a arma ao ombro. As bombas rebentavam ao longe, pareciam trovões, e eu, ia esconder-me debaixo da cama. Lembro-me das chuvas torrenciais repentinas, seguidas dum sol brilhante que evaporava com a mesma rapidez que chovia. O que tornava o ar com muita húmidade e quente. Irrespirável! Pelo menos para mim.
O clima para mim era pior.
O meu pai lá fazia a distribuição do pão pelas tabancas, com uma carrinha, um colega também, mas esse colega, pouco tempo depois foi morto á catanada, porque era muito antipático para as pessoas. O meu pai era muito querido por eles, nenhuma criança africana que lhe pedisse um paposseco, ficava sem um. Ele dava pão a quem não tinha posses para comprar.
Voltando, a outras situações, na pensão, a minha tia orientava os quartos, tinha empregadas para ajudar nas limpezas e tratarem dos quartos, uma das empregadas, ia sempre limpar o nosso quarto, e cada vez que lá ia, saía cheia de pó de talco meu e da mana. Queria ser branca, como nós. A minha mãe fartava-se de rir. Mas tinha muito medo que nos raptassem. Éramos os brancos.
Mas nunca houve problema.
O que aconteceu, foi que eu comecei a ter problemas de saúde, por causa do clima, não comia, emagrecia dia a dia. Até que a minha mãe teve que me pôr no avião, fui entregue a uma hospedeira que ficou responsável por me entregar á minha avó quando chegasse a Portugal. Era estranho, ter deixado os meus pais, e estar entregue a uma pessoa estranha, chorei muito, até me dar o sono, e quando acordei estava o avião a aterrar. Saí de mão dada com a hospedeira, levou-me até á minha avó. Assim que a vi, larguei a mão da senhora e corri para os braços de quem eu adorava.
Meses mais tarde a minha irmã também veio .
Durante dois anos a avó Placidina tomou conta de nós, eu entrei para a escola primária. Deu-se a revolução do 25 abril, e os meus pais, quizeram regressar, pela gente.
Dia de ir buscar pai e mãe ao aeroporto. Porta de saída dos passageiros, dizia a avó,"- olha, vem lá mãe e o pai."
Mas dois anos sem vê-los, eu esqueci a cara. Vinham tantos homens e mulheres a sair, que eu não reconhecia ninguém. Até que se esticaram uns braços para mim e para a mana. Foi muita emoção. Lembro-me de chorar agarrada ao pescoço do pai. Não queria deixá-los mais.
De regresso, a casa, agora era preciso os pais terem trabalho.
O meu pai arranjou, logo numa fábrica de peles, a mãe, arranjou mais tarde também. E a avó tomava conta nós. Não dormíamos em casa dos pais, porque eu já andava na escola primária, o meu pai ainda não tinha carro para nos levar a casa da avó.
Meses mais tarde, o pai lá comprou um carrito velho, mas andava. Assim já dava para ir levar- nos. Mas eu queria era dormir na casa da avó.
A avó recebeu na sua casa os restantes netos, eu era a neta mais velha. Conclusão, ajudei a criar, a tomar conta dos meus primos todos, aprendi desde muito nova, a trocar fraldas de pano, a dar banho e biberões aos primos. Lavei no tanque muita roupa de bebé, muita fralda. Eu era a ajuda da avó.
Assim fui ficando, dia após dia na casa da avó, até me casar. Foi de casa dela que sai vestida de noiva.
Foi com ela que aprendi tudo. O saber fazer comer, o tratar duma casa, o ser costureira. Foi a tê-la como exemplo, que sou o que sou hoje.
Quem tiver a sorte de ter avós, saibam estimá-los. Pois podemos aprender muito com eles. Para ti avó vai esta minha homenagem.
Termina assim a história da avó.