
Por: Ana Fonseca da Luz
Queres mesmo que te dê a receita? É muito antiga, sabes? É quase uma jóia de família. É quase um tesouro… Não a dou a toda a gente! Se queres saber a verdade, dou-a a muito pouca gente… Mas a ti, não ta posso negar. Primeiro, porque és especial. Depois, porque noto nos teus olhos, que não vejo, e na tua voz, que não oiço, que precisas dela.
Hoje, precisas dela. A tua inquietude deixa-me inquieta e a tua amargura, mal disfarçada, torna amargos os meus mais preciosos momentos. Noto-te distante, confuso, diria mesmo perdido e sem rumo. Noto-te ausente. Ausente de ti e do mundo que te rodeia, como se um mundo te habitasse e tu não habitasses nesse mundo.
É claro que me deito a adivinhar coisas que não me dizes. Mas, como eu às vezes te digo, tenho qualquer coisa de bruxa. De bruxa não, sei perfeitamente que dizes que esse nome não me fica bem, mas pronto, de bruxinha.
Tenho de te dar a receita com todo o cuidado, não me posso enganar nas doses… Não te posso dar nem mais, nem menos, só o que tu precisas! Agora, presta atenção. Tens um lápis à mão? Então vai buscar, não vais conseguir decorar tudo. Tens de tomar nota, com todo o carinho e guardares num sítio que só tu conheças. É que esta receita é só para ti! Estás preparado? Não? Então o que te falta? Vejamos. Tens papel, tens lápis... E será que tens o principal? Isso! Tens realmente vontade de ser feliz! Tens? Se estás a sorrir agora, neste preciso momento em que lês a receita, é porque tens vontade de ser feliz. É que isso é meio caminho andado! A vontade, uma vontade férrea que nem um dia frio e cinzento, e em que toda a gente te incomoda, te pode demover!…
Estás a ficar impaciente! Como eu te conheço…Falo, falo e nada te digo. É isso! Primeiro, toma umas colheradas de paciência, que deves regar sempre com um sorriso. E isso, sorrir, eu lembro-me que tu sabes fazer! Depois da paciência em dose certa, nada de exageros, para que não te tomem por parvo, carrega os pensamentos de boas lembranças. Lembra-te sempre que o que é bom dura o tempo necessário para se tornar inesquecível. Quanto às más lembranças, às que te doem fundo e te martirizam quando menos esperas e queres, esquece-as. Mas não as apagues! É que tiramos sempre grandes lições dos nossos erros e isso impede-nos de voltarmos a fazer os mesmos disparates...
Concordas comigo? Óptimo! Estamos em sintonia e isso é importante para que a receita dê certo.
Música? Sim, música é muito importante para que este tratamento dê certo. Gostas de música? Não ligues à pergunta, é retórica, como já deves ter percebido… Tu não gostas! Tu amas a música! Tal como amas os dias de sol, o mar e tudo aquilo que não confessas! Pois bem! Acorda com música e adormece com música! Metálica? Sim, mas q.b… E se ouvires umas canções românticas, não tenhas vergonha. Tu és um romântico. Tu és ou estás…ainda não percebi bem.
Tens estado com atenção? Não te distraias. É que, se perdes um passo desta receita, podes acabar como começaste! Com o sorriso apagado, o olhar parado num ponto que só tu vês e a alma despedaçada, sem tu mesmo saberes porquê… É que a mim, às vezes, também me acontece…
Mas adiante. E não me digas que já estás cansado, que já te apetece ir deitar no sofá. Esquece!
Voltemos ao que interessa, a receita para ser feliz! Entretanto, perdi-me… Esta malvada mania que eu tenho de me distrair! Ponho-me a pensar no que não devo, e é no que dá… Lembrei-me! É muito importante, mas mesmo muito importante que gostes de quem gosta de ti, que agradeças as coisas que recebes todos os dias, que pares para cheirar as rosas e que não vivas a correr. Saboreia! E, acima de tudo, que sejas fiel a ti próprio e isso, meu amigo, às vezes é muito difícil. Depois, há sempre pequenas coisas que convém não esquecer. Não esquecer os bons amigos, os cheiros da infância, o primeiro beijo, a primeira decepção e a sensação maravilhosa que as bolhinhas do champagne te deixam no nariz. Depois, é só misturar tudo e ser feliz.
Agora, a confissão final… Não te garanto que esta receita te faça feliz. Mas só que te tenha feito sorrir e esquecer o que te atormenta, já valeu a pena eu escrevê-la e tu lê-la