
Por: Ana Fonseca da Luz
Alento
Ontem foi Sexta-feira Santa e, como sempre, fui à Chamusca, à noite, para ir à Procissão. Apesar de andar arredada da Igreja, não estou arredada de Deus. Só eu sei quantas vezes ele me pegou ao colo quando eu mais precisava, quantas vezes me segredou ao ouvido que caminho seguir.
A Chamusca, nesta altura do ano, tem o dom de me encantar, faz-me recuar no tempo e enche-me o coração de alento.
Fiz como sempre. Segui a procissão o mais próximo possível do Senhor da Misericórdia, para me sentir ainda mais próxima de Deus e, em silêncio, percorri as ruas que tão bem conheço. No bolso levava um bocadinho de rosmaninho, que apanhei no chão da igreja da Misericórdia e foi precisamente aí que senti que faltava qualquer coisa, faltava alguém. Lembrei-me mais tarde. Entre as capas pretas da Procissão dos Fogaréus, faltava o Zé Luís Leitão. Faltava o seu porte altivo e os seus olhos de cigano a iluminarem a noite.
Todo o percurso me encantou, como se percorresse a Chamusca pela primeira vez. As pessoas que eu tão bem conheço seguiam de olhos limpos e serenos, entoando “ Senhor Deus Misericórdia”.
Mais à frente, depois da capelinha dos Viscondes, mesmo ao lado de onde, antigamente, eram os bombeiros, que, com primor, erguiam sempre o seu altar em louvor ao Senhor da Misericórdia, o meu coração bateu mais lento. Lembrei outro amigo que ficou pelo caminho, o Xico Rodrigues. E, nessa altura, a saudade do passado doeu fundo no meu peito. Perder amigos é perder sempre um bocadinho da nossa história.
A Procissão seguia lenta e enfeitada de cheiros, mas não eram os mesmos de antigamente. Nem o rosmaninho tinha a mesma intensidade…
O mais doloroso de todo o percurso foi passar à minha antiga casa, “à casa do Gaspar”, que ele enfeitava sempre com tanto carinho, à casa da tia Alda, sempre cheia de velas e lanterninhas… Aí sim, a saudade bateu tão forte que baixei os olhos e chorei.
Apeteceu-me recuar no tempo e voltar a enfeitar as janelas com lanternas e as jarras antigas com rosmaninho, lírios e jarros. Tirar o Cristo do oratório e dar-lhe um lugar de honra, sobre a toalha de linho antigo que sempre enfeitava a mesa. Restou-me limpar as lágrimas e seguir em frente. O passado mora lá atrás…
Voltei para casa com uma estranha sensação de satisfação insatisfeita.
Hoje de manhã, voltei à Chamusca. Queria pagar ao meu amigo Raul o cafezinho há tanto tempo prometido e os dois dedos de conversa que dois bons amigos têm sempre para dar, apesar de darem os bons dias quase todas as manhã. Maravilhas da Net…
Encontrámo-nos a meio de caminho. Na ponte da Chamusca. Depois do café bebido ao balcão, sentámo-nos, quais dois velhos alentejanos, no banco à porta do café, para um gostoso cigarro (maldita lei do tabaco…) e para dois dedos de prosa. Ambos nos queixámos do mesmo. A Procissão já não era como antigamente… Eu queixei-me de que o cheiro não era o mesmo e que nem o céu tinha a mesma cor… O Raul concordou. Realmente não era como antigamente!
– O que é que achas que falta, Raul? – perguntei-lhe, uma vez que há 30 anos não moro lá e ele tem um jeito cheio de manha e poesia para descrever as coisas.
– Sabes o que falta? Falta o bacalhau assado com broa, o licor de tangerina e a voz da Amália como pano de fundo, no velho gira discos em casa do Gaspar. É isso que falta.
Dei a última passa no cigarro e concordei com o meu amigo. O que falta realmente são bocadinhos da nossa história, da história de um grupo de meninos que era feliz, muito feliz e nem sabia.
É por isso que eu e o meu amigo Raul gostamos de escrever, para deixar um bocadinho da nossa história e para que o cheiro do rosmaninho nunca se perca.
No próximo ano quero ir novamente à procissão. Quero, como sempre, rever os meus amigos e cantar baixinho “Senhor Deus misericórdia…”
Entretanto, as últimas brasas morreram de tanto calor terem dado. As minhas mãos estão frias, mas o meu coração está cheio da terra de que tanto gosto. E isso aquece-me a alma…
«in ARua das Magnólias»