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Domingo, 28 de Julho de 2019
Ao lado daquela mulher que toda a vida me intrigara

CATARINA BETES.png

Por: Catarina Betes

 
Sentei-me num banco baixo, ao lado daquela mulher que toda a vida me intrigara. 
 
Num meio pequeno, quem é diferente, não passa despercebido. Cresci com a ideia de que era uma pessoa que nunca dependera de ninguém. E hoje, quando olhei bem no fundo dos seus olhos, percebi neles a ausência do medo, que só reconhecemos em determinadas pessoas. Nas que são verdadeiramente livres. 
 
Foi uma mulher muito bonita. Percebe-se ainda na profundidade do olhar e na delicadeza dos gestos. Nunca acreditei que a beleza se medisse de outra forma. A verdadeira, a real, a que fica após o tempo, é uma beleza interior, que transcende o aspecto físico. A sua está ainda bem viva. Forte. 
 
Achou graça que lhe pedisse para a ouvir. Verdade seja dita, sempre preferiu ficar longe das conversas. 
 
Disse-me que aos quarenta anos era uma mulher casada, mãe de dois filhos. O marido passava semanas fora, era motorista na fábrica onde ambos trabalhavam. 
 
 Foi a secretária de um dos engenheiros da fábrica de enlatados que na época, sustentava e alimentava a aldeia. 
 
Adivinhando o meu pensamento, sorriu e enfrentou o meu olhar. Tive outro filho, disse-me.  Eu já sabia, como toda a gente, aliás. Um filho que mudou a sua vida, o seu destino. 
 
Contou-me sem reservas que se apaixonou nessa idade. Já nem sabia o que isso era, confidenciou, entre um meio sorriso. Invejei-lhe a coragem. Há coisas sobre as quais não se falam, mas a forma simples como o fez, emocionou-me. Eu sei, respondi.  
 
Tocou-me meigamente no colo e começou a sua história, ou parte dela. 
 
“ Sabes, conheci os teus avós. Gente muito boa, de trabalho, vivi na mesma rua que eles. Quando o meu marido chegou e se apercebeu do que me tinha acontecido, virou-me as costas. Deixou-me.  Chamou-me galderia e eu assumi que ele tinha razão. E foi assim que me senti durante toda a gravidez do meu terceiro filho. 
 
 Até ao momento em que ele nasceu. Quando a parteira, a única que aceitou fazer-me o parto, o pôs nos meus braços, percebi o quanto estava errada. Não era nenhuma galderia, era uma mulher que se tinha entregue a uma paixão. Na altura eu não sabia o que isso era. Sabia eu lá de paixões! Tinha poucos estudos. Apaixonei-me e casei-me cedo. Sabia lá que a paixão era uma constante da vida. Apaixonei-me por um homem, que, como os meus pais me atiraram à cara, me enganou. Era uma expressão muito comum, na época. Mas olha que continua atual. Homens e mulheres continuam a enganar-se todos os dias, a cada minuto, em todos os lugares deste mundo.  
 
Mas a verdade é que todos somos soberanos e donos da nossa vontade. 
 
No momento em que segurei o meu filho nos braços, esqueci imediatamente tudo o que tinha sofrido até àquele momento. O desprezo da família, a indiferença do mundo que até então conhecia. A sensação de abandono por parte de quem me fez sentir que ainda estava viva. 
 
Apesar de tudo o que passei, numa duvidei das minhas escolhas. Tenho para mim, que pior que a aceitação de um não, é a desilusão de um quase. Foi esse quase que me fez dar o passo que para muitos, me desgraçou. O que eles não sabiam, nem sabem, é que esse quase era o me matava por dentro, quando me mostrava o que poderia ser e não era. 
 
Tanta coisa que não se vive, por causa dessa maldita mania de viver no outono.” 
 
Sorriu-me e silenciou-se após esta frase. Esta maldita frase que não me sai do pensamento,  
 
“...por causa dessa maldita mania de viver no outono.” 
 
Desde a nossa pequena conversa, que dou comigo muitas vezes a perguntar-me, o que nos leva a escolher uma vida morna. A única resposta que me ocorre, é que preferimos ser covardes a ser felizes. O que nos sobra em covardia, falta-nos em coragem. 
 
 Porque a paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Mas o que se obtém da escolha covarde de não sentir, é um “nada”, que não inspira, nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. 
 
A verdade, é que nada fica, nada permanece. Precisamos despir-nos do que aprendemos. Desembrulhar-nos. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. 
 
Porque muito embora, quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.


publicado por Noticias do Ribatejo às 08:00
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