O Centro Cultural do Cartaxo recebeu as Comemorações do 25 de Abril de 1974 numa sessão Solene que contou com intervenções do presidente da Câmara, Pedro Magalhães Ribeiro e do presidente da Assembleia Municipal, Gentil Duarte, assim como de Hélder Travado, presidente da Comissão Administrativa de 1974 a 1976, e de representantes das forças políticas que apresentaram projetos políticos no Cartaxo, nas últimas eleições autárquicas.
As Comemorações aliaram, à componente institucional, manifestações de caráter desportivo e cultural que decorreram entre 23 e 26 de abril, em vários espaços do concelho e das freguesias, envolvendo comunidade escolar, associativismo, IPSS, instituições públicas e privadas e população.
No dia 25 de Abril, foi com o Hastear da Bandeira, no edifício sede do município, a que se seguiu o desfile dos Bombeiros Municipais do Cartaxo, que tiveram início as Comemorações Solenes.
Presidente da Câmara aponta educação e ética como cruciais para “cumprir Abril”
Pedro Magalhães Ribeiro centrou a sua intervenção na defesa de que “a hora exige tudo de nós”, referindo que “o sonho de abril vive ensombrado pelo desemprego, pelo aumento das desigualdades sociais, pela pobreza e pela exclusão social”, defendendo que a renovação da “democracia, é uma tarefa qua não pode ficar apenas nas mãos dos políticos”, devendo ser assumida pela sociedade civil, por todos os cidadãos e cidadãs porque “o nosso primeiro dever, é o de melhorar a qualidade da nossa democracia”.
O autarca defendeu “a educação e a ética, como caminhos que devem ser percorridos em simultâneo, para a construção de pessoas melhor formadas, mais capazes de fazer escolhas esclarecidas e de intervir socialmente em liberdade, quer no país, quer na nossa comunidade mais próxima”.
A escola, com o “seu enorme potencial transformador”, não pode ser o único “palco deste compromisso de formação técnica e cívica, todos devemos assumir o compromisso de colocar a educação como prioridade e a ética como prática diária”, afirmou Pedro Magalhães Ribeiro, que apelou “à participação de toda a comunidade na discussão pública de dois documentos estruturantes para o Cartaxo, o Plano Educativo Municipal e a Carta Educativa, que estamos a construir devem refletir este compromisso conjunto com o futuro dos mais jovens, e com a liberdade e a democracia, como afirmações da nossa identidade”.
A intervenção na sessão solene de “cinco das forças políticas que apresentaram projetos políticos no Cartaxo, nas últimas eleições autárquicas”, mostra, segundo o presidente da Câmara “uma mensagem muito clara – para além de tudo o que nos possa separar enquanto cidadãos livres, existe um compromisso com a democracia e com a liberdade, que nos une“, união que considera essencial “para mantermos a esperança coletiva e a vontade de nos afirmarmos pelo trabalho diário e persistente que permita deixarmos aos jovens a possibilidade de realizarem os seus projetos de vida na terra onde nasceram, ou que para tal escolheram”.
Afastamento dos portugueses em relação à política presente nas intervenções de todas as forças políticas
Presidente da Assembleia Municipal e forças políticas que intervieram na sessão, foram unânimes na defesa de que a Revolução de 25 de Abril de 1974, transformou o país, mas que a criação de uma sociedade solidária e justa é um objetivo ainda por alcançar.
Gentil Duarte, presidente da Assembleia Municipal, afirmou que “o individualismo e o capitalismo especulativo têm contribuído para uma distribuição cada vez mais desigual da riqueza”, o que considera, impõe “continuar a lutar e a contribuir através do nosso trabalho”, para o “objetivo tão idealista quanto necessário de criarmos uma sociedade mais solidária e por isso mais justa”. No que respeita ao Cartaxo, o autarca afirmou o empenho da Assembleia Municipal, cooperando com a Câmara para encontrar as “estratégias mais eficazes” para o concelho.
Hélder Travado, que entre 1974 e 1976 assumiu a presidência da Comissão Administrativa do Concelho do Cartaxo, foi o convidado da sessão que contou, também, com a presença do primeiro Presidente Eleito depois do 25 de Abril, Renato Campos.
O programa do Movimento das Forças Armadas “democratizar, descolonizar e desenvolver, foram conseguidos, sendo que o último não tanto como muitos portugueses esperavam”, afirmou Hélder Travado que recordou também que “hoje se assinalam 40 anos da Assembleia Constituinte, que viria a escrever e a aprovar a Constituição da República Portuguesa” e terminou a sua intervenção “do modo que me parece melhor, afirmando – 25 de Abril ontem, 25 de Abril hoje, 25 de Abril amanhã, 25 de Abril sempre”.
As forças políticas que intervieram na sessão – Bloco de Esquerda, representado por Francisco Colaço; CDU, por Délio Modesto Pereira; PSD por José Augusto Jesus; PV-MPC, por Maria Antonieta Tavares e o PS, por Elvira Tristão –, destacaram o valor do 25 de Abril na construção de um país livre e democrático, mas todos referiam o afastamento dos cidadãos em relação à política e aos políticos.
Francisco Colaço afirmou que “às ilusões se sucedeu o desencanto”, defendendo que “a emergência social e o apoio aos mais necessitados deve prevalecer sobre a lógica financeira e especulativa”.
Délio Modesto Pereira destacou os direitos que o 25 de Abril trouxe aos portugueses “para além da liberdade” como a escola pública, a segurança social ou o direito ao Serviço Nacional de Saúde. Lembrando o período pós-revolucionário, o autarca afirmou que “o que o povo conquistou, quase tudo perdeu, mas pelo período de ouro que o povo português viveu, valeu a pena o 25 de Abril”.
Em representação do PSD, José Augusto Jesus afirmou “a liberdade é hoje um valor indiscutível”, apesar da “descredibilização da política”, que considera visível na elevada abstenção eleitoral, afirmando que “tanto no país como no nosso concelho, as pessoas sentem que já viveram tempos melhores do que aqueles que hoje vivem”, acrescentando “não direi que as pessoas viveram acima das suas possibilidades, mas sei bem que as pessoas vivem hoje com menos conforto do que já tiveram”. O autarca frisou que “é preciso pensar nas pessoas, é preciso pensar em todos nós”, apelando a que erros do passado, não voltem a ser cometidos.
O movimento independente PV-MPC, representado por Maria Antonieta Tavares, afirmou que “o regime democrático está consolidado, mas o facto é que o atual sistema de participação política esmoreceu os mais jovens”, defendendo que “os cidadãos portugueses partilham uma cultura cívica distinta da cultura da elite no poder” e que “o atual 25 de Abril não pode deixar de ser considerado dececionante do ponto de vista da democracia.”
Elvira Tristão, em representação do PS destacou a importância do poder local autárquico enquanto uma das mais importantes conquistas do 25 de Abril referindo que “tem sido sujeito a um ataque de que não há memória”. Afirmando que “temos hoje uma sociedade cada vez menos justa e solidária, onde as famílias em risco de pobreza aumentam, mas também as grandes fortunas”. Para Elvira Tristão “a celebração desta data deve ser mais do que a festa da liberdade, deve constituir um incentivo para que todos nos empenhemos na permanente construção democrática”.
A sessão solene terminou com o palco que acolheu as intervenções, a ser ocupado pelas dezenas de crianças e jovens que integram o Coro das AEC e o Coro do Agrupamento de Escolas Marcelino Mesquita do Cartaxo para oferecem à população presente “ o canto livre das crianças”, como se lhe referiu Pedro Magalhães Ribeiro.
Para além da simbólica Grândola Vila Morena – senha para a saída dos militares dos quarteis na madrugada de 25 de Abril de 1974 –, que as crianças dos dois coros, conduzidas por Rolando Ferreira, cantaram excertos de canções portuguesas que fizeram sucesso ao longo dos últimos 40 anos e são testemunho, também elas, da liberdade artística e musical que o 25 de Abril permitiu.