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Domingo, 30 de Setembro de 2018
Como as ondas do mar

CATARINABETES

Por: Catarina Betes

 

Como as ondas do mar

 

 

A minha mãe partiu em outubro.

Partiu no fim de um verão transformador.

O verão que separaria a minha em duas. A vida antes e a vida depois.

A vida antes da perda e a vida depois da dor.

Durante os meses seguintes, senti-me adormecida emocionalmente. Criara inconscientemente uma barreira entre mim e os outros. Reconheci-os, mas não os via.

Não via nada além do vazio que sentia.

Porque ninguém nos prepara para a dor da pedra. E a minha foi particularmente difícil. Porque fui eu que a senti, todos os dias, desde o primeiro minuto, quando a cada manhã abria os olhos e percebia que a minha mãe já não existia.

E os dias passaram-se assim, durante meses, sem variações. Cumpria as tarefas habituais, mas não sentia nada.

Nada, além de uma dor que me consumia por dentro, porque não compreendia. Não me conseguia desprender dos últimos dias. Da esperança espelhada nos olhos que pouco a pouco se afastavam da vida, do amor que não podia curar, da despedida que interiormente marcava cada minuto de cada dia.

Passaram-se meses sem que eu dormisse. Dormia um sono superficial, acordava constantemente com uma dor dilacerante, no peito. Uma dor emocional contra a qual me sentia incapaz de lutar.

Sem Título

 Para os outros eu era a mesma. Mais fechada, mas idêntica, alguém que protagonizava as tarefas comuns que constituíam os meus dias.

Em maio, fui passar uns dias à praia. Eu experimentava uma saudade imensa do mar. Sentia vontade de observar o horizonte e reencontrar-me nele. Reconhecia que não era a mesma, e regressar ao mar era como regressar a mim, embora incompleta.

Durante meses, não consegui chorar. Tentava, mas estava bloqueada por um sentimento castrador de revolta e incompreensão. Talvez por isso a dor me pesasse tanto, por que não havia forma de a libertar.

Assim que os meus pés tocaram a areia, os meus olhos voltaram à vida. Encheram-se de lágrimas, que se soltaram finalmente e assim permaneci durante um tempo que não sei determinar.

E nessa noite adormeci com o som do mar.

O som suave das ondas que se partiam para logo se voltarem a formar.

E pela primeira vez em sete meses, acordei com o dia a nascer. Não acordei na escuridão.

Surpreendi-me com o descanso do meu corpo e da minha mente, que finalmente se harmonizaram.

Percebi que tudo tem o seu tempo e há dores que jamais sararão. Mas aprendemos a viver com elas, bebendo do antídoto que em cada um de nós, faz mais efeito.

O meu antídoto é o mar.

O som das ondas e do vento, o sonido das aves que rasteiam as dunas, o toque da areia e o cheiro do sal.

Tudo combinado, constituem a fórmula mágica que me faz enfrentar os percalços do tempo, contorná-los sem medo e olhá-los de frente, apesar do vento.

 

 



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:00
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