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Domingo, 20 de Setembro de 2015
CONTO: "Amanhecer"

Recordo com certa nostalgia o tempo em que sem saber, era feliz.

O tempo em que o tempo era apenas tempo.

CATARINABETES.png

 Por: Catarina Betes

 

O tempo em que os dias amanheciam e traziam com eles o sol e a certeza de que as horas e os minutos passariam sem pressas e, a seu tempo, o dia adormeceria calmamente, sem cansaços nem desgastes, sem tristezas ou saudades.

Recordo com saudade o tempo em que me sentia solta.

Em que não existiam relógios castradores da alma, que vagueia incessantemente, exausta ofegante e confusa…porque algures no trilho, se esqueceu da própria razão de existir.

Movemo-nos ao som do tique taque insistente do achaque invisível que é o tempo, não nos restando espaço para parar, pensar ou recordar.

Recordar o que nos motiva, o que nos faz sorrir, o que nos dá prazer.

É um viver sem escolher.

É um responder a perguntas que já esquecemos e que não questionamos, porque se o fizéssemos…voltaríamos ao berço.

E nascer de novo é assustador para quem já esqueceu porque corre… quando aprendeu a andar.

Aprender novos passos é incómodo.

Aprender a assentar calmamente um pé à frente do outro, elevando o olhar do chão sem noção…de que a qualquer momento se pode cair.

Recordo com saudade o tempo em que tinha tempo.

O tempo em que, por mais vezes que caísse, me levantava e se não o conseguisse, sorria e confiava, porque sabia que à minha frente aquele braço estendido,… me agarrava.

Aos quarenta anos, olho para as vidas que já vivi e reconheço intimamente uma sensação de dever cumprido, embora uma parte mais silenciosa da minha alma insista em manifestar o seu desapontamento.

É como se essa parte de mim vivesse um contentamento descontente.

Porque tenho não tendo, porque sou não sendo, porque vivo não vivendo.

Sou uma mulher realizada.

Construi uma carreira de sucesso, à custa de muita dedicação, estudo, a este tenho dedicado grande parte da minha vida.

Aquela em que nas noites de inverno poderia ser preenchida a adormecer os filhos que não tenho, no aconchego confortante dos lençóis, a ler-lhes histórias até os seus olhos cerrarem com suavidade e os ver adormecer docemente no seu leito.

Dediquei a minha vida à minha formação académica e orgulho-me disso.

É parte do que sou.

Uma parte que não tem sido fácil, que tem arrancado de mim a força que por vezes não possuo, mas creio que o que construímos molda-nos, é o que somos, define em quem nos tornamos e não tenho dúvidas que o conhecimento torna-nos sempre maiores.

São as janelas da alma, que se abrem, a cada passo, a cada noite mal dormida em que as matérias, os conteúdos se misturam na dança inquietante dos nossos sonhos, mas ao amanhecer, cada dançarino encontra o seu par, as ideias organizam-se novamente e as janelas que se abriram, não mais se poderão fechar.

É este o poder do conhecimento. Ocupa um espaço que jamais poderá ser suplantado.

Ainda não saciei em mim esta fome de conhecer.

Sem Título.png

Ou talvez seja fruto das noites em que, no silêncio, oiço o sussurro, o apelo daquela parte da minha alma que normalmente se mantém num discreto silêncio.

Habituei-me a ser amada sem esperar o impossível.

Sempre soube que assim seria.

Embora no íntimo procurássemos a luz ao fundo do túnel, previmos sempre que a mesma não seria fácil de alcançar. Iniciámos uma vida juntos, que preenche os nossos corpos e as nossas almas, mas que deixa inevitavelmente muitos espaços vazios, porque um de nós não é inteiramente livre.

Habituei-me e talvez não o devesse ter consentido.

Ao longo dos anos que passaram, muitas foram as noites em que projetámos o nosso final feliz.

Mas com o amanhecer, nascia também a força e o poder da realidade, que nem sempre corresponde à nossa vontade, que nos arrasta, porque não somos sozinhos.

Durante os primeiros anos, acreditei nesses devaneios, na possibilidade da realização do impossível.

Hoje, quando o desenrolar da nossa história parece finalmente iniciar a dança que desatará este nó, sinto-me estranhamente alienada, como se não fosse eu a protagonista desta narrativa, trespassada pela espada do tempo, da espera, dos anos passados. Apesar de tudo, não me arrependo.

O ser parcialmente sozinha, operou em mim circunstâncias que de outro modo se calariam.

Construí o meu mundo, a minha autonomia, a consideração dos que amo e com quem partilho a minha existência, e essa verdade não tem preço.

Tenho amizades persistentes e duradouras, com quem partilho os contentamentos desta vida, uma família afectuosa, um trabalho ao qual me dedico intensamente, com a satisfação de quem encontrou a sua obrigação neste mundo, que me preenche as horas e a mente.

Viajei, muitas vezes sozinha e conheço mais do mundo do que algum dia imaginei ser possível.

Preferia que o tivéssemos realizado os dois.

Mas se o tivéssemos feito, provavelmente não seria a pessoa que sou hoje.

Seria outra, mais desconhecedora de mim mesma, mais submissa, mais dependente em atitudes e pensamentos.

Conheci outras pessoas.

Com determinadas, poderia ter realizado a vida que sempre adiámos. Ponderei efetivamente fazê-lo.

Mas de que me adiantaria preencher um vazio se obstinadamente abriria outro?

Não escolhemos quem amamos, não é possível comandar os afectos que nos tomam inadvertidamente o peito e a alma.

Se eu o pudesse ter feito, não teria adiado.

Mas não somos nada perante os sentimentos que nos invadem. Podemos lutar contra eles, mas é uma guerra perdida e se os calarmos, vivemos uma vida fingida.

Não sei como será o futuro.

Se no passado pensei que nos apartaríamos se outra alternativa não fosse provável, hoje, não tenho dúvidas nem certezas. Perdemo-nos no corredor do tempo, dos sentimentos, da própria existência.

Não existimos separados, a distância física que tantas vezes se impõe, fica reduzida à insignificância do tempo, porque partilhamos a mesma alma.

E mesmo que o futuro nos aponte caminhos distintos, o que vivemos, o que somos, é insuperável.

A tantos no mundo, é recusada a possibilidade de amar e ser amado, de se sentir completo, no outro.

A mim, foi-me concedido.

Como poderia não o ter vivido?

 

“O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...”

Mário Quintana



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:05
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