Por: Catarina Betes
Quantas vezes, procuramos nos outros, as causas das nossas insatisfações.
Atribuímos culpas, razões, propósitos e colocamo-nos constantemente no papel de vítimas. De uma circunstância, de um instante, de uma disposição.
É mais simples acusar, que encarar e assumir as nossas responsabilidades com o mundo, com a própria vida. E a responsabilidade de cada um, é sem margem para dúvidas, ser feliz.
Independentemente dos outros, antes dos outros. Autonomamente.
Porque ninguém pode ensinar o que não domina. Nenhum pai pode ensinar o filho a amar, se não souber o que é o amor.
Não pode ensinar a sorrir, sorrir, se o seu semblante for infindavelmente sério.
Não pode ensinar a ter esperança, se viver desalentado.
Somos o que sentimos, o que fazemos e principalmente o que procuramos, todos dias, porque o caminho do conhecimento, a busca que viver implica, nunca termina.
Porque somos seres livres, independentes e a nossa felicidade depende inteiramente de nós mesmos, das nossas escolhas, da nossa postura face à diversidade de situações em que nos envolvemos diariamente, umas porque elegemos, outras, nem tanto.
Enfrentar as nossas complexidades, os nossos temores, os nossos limites, é o primeiro passo de aprendizagem, de desenvolvimento interior.
Porque o outro, só tem o poder que nós lhe conferimos, que lhe concedemos, em determinado momento da nossa vida.
Compreender que somos seres individuais, capazes de escolher entre o que é bom e o que é mau para a nossa vida, agir, desprendidamente, sem medos nem censuras, é o primeiro passo para o progresso da alma, que persistirá após a chama do corpo se extinguir.
Alimentar o nosso ser interior, atribuir-lhe o devido valor, sem culpas nem julgamentos, é crescer.
E pode-se crescer em qualquer momento da nossa vida, não existem limites.
A não ser o tempo. Esse sim, não deve ser desperdiçado!
Vivi durante anos uma espécie de clausura.
Trabalhei, criei os meus rapazes o melhor que pude e soube, fui dona de casa, esposa, amante, e tantos outros papéis que poderia acrescentar e ainda assim o role não ficaria totalmente completo.
Não me coloco num pedestal, mas concedo-me o direito de sentir cansaço. Um cansaço interior, fruto de uma vida, mais corrida que vivida.
Tentei ser sempre coerente nas minhas opiniões, responsável nas minhas atitudes, firme nas minhas decisões. Mas compreendo agora, não sem alguma perplexidade, que sem perceber, fui coleccionando espetros.
Espetros que me inibem, amedrontam e mantém afastada do que receio não saber controlar.
Inconscientemente, fui alimentando medos e não há sentimento mais inibidor que o medo.
Acordo aos poucos para a vida e, muito demoradamente, encaminho-me pelo corredor do deslumbramento.
Mantive-me, durante anos, afastada e permiti que a minha mente se moldasse pelas sombras deste mundo e se distanciasse.
Recupero o tempo perdido aos poucos.
Mas como qualquer viajante com sede, recupero-o vagarosamente, golo a golo, até me habituar novamente ao seu sabor.
Abro-me para o mundo e consequentemente, para mim mesma.
Liberto-me dos espartilhos do passado e respiro fundo, muito lentamente, abrindo finalmente os braços para o presente, que me foi dado!
“Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Tornei-me intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim.”