Por: Catarina Betes
Imagino tantas vezes, como teria sido a minha vida se tivesse tomado outras opções, se tivesse feito outras escolhas.
Se tivesse seguido o meu coração, ao invés da minha mente, obedecendo à vontade da razão.
Renunciei a uma grande paixão, por uma vida de quietude, mais segura.
Troquei um entusiasmo avassalante, por uma parceria firme e duradoura.
Principiei do nada, uma nova existência.
Compreendi que não podia optar pelo que me fazia sofrer. Tentaste por várias vezes aproximar-te de mim.
Afiançaste que tudo seria diferente. Melhor, mais seguro. Por: Catarina Betes
Mas assumi que era tarde demais.
Tomei uma resolução e percebi que, o meu orgulho, não me consentiria voltar atrás.
O nosso tempo tinha passado.
Mas quantas vezes, tento escapar à conclusão, que, todas as minhas determinações foram desacertadas.
Quem me garante que daquela vez, não estarias realmente a ser verdadeiro?
No momento, considerei que não. O risco era excessivo.
Passaram-se quase vinte anos e dou comigo a pensar no que se tornaram as nossas vidas a partir daí.
Inconfundivelmente, desiguais.
Não foi só a minha vida que mudou. A tua também.
Percorremos trilhos distintos.
Possivelmente, o nosso destino, juntos, não teria sido muito distinto do passado que vivemos.
Apaixonante, mas sofrido. Com aproximações e despedidas, regressos e saídas, sem que os pés chegassem a assentar no chão, em cada ápice de lucidez, em cada instante de perdição. Tomei a minha decisão e aprendi a viver com ela.
Também tu, tiveste que aprender a existir, com as consequências das tuas atitudes.
Relembro a última vez que te vi.
Puxavas-me para os teus braços e eu fugia.
De quê?, pergunto-me hoje. De mim, de ti…não sei.
Apenas recordo que fugi e conservo no meu pensamento, o teu último olhar.
Onde sempre observei ironia e indiferença, naquele dia, descortinei uma sombra de desespero, talvez até de rendição.
Mas convenci-me que era simplesmente mais um jogo, um insignificante duelo de forças, em que eu, era o prémio final.
E nesse momento, determinei que não sairias vitorioso.
Nem eu, embora então ainda não o soubesse.
Como é que se esquece alguém que se ama?
Porque há uma infinidade de afeições, de emoções, tão indissociáveis do amor.
Porque podemos amar, simultaneamente, pessoas diferentes, de modos distintos. E sofrer desmedidamente, porque a generalidade das paixões, são proibidas.
Como se a interdição vivesse apenas nos gestos, nas palavras. Quem proíbe o coração? Não é porventura evidente, que se nos fosse possível, o faríamos?
Ninguém elege o sofrimento. A dor não é opcional.
Preferi um caminho, mas, podia ter escolhido outro.
Vivi uma vida, mas podia ter optado por outra.
E nem por isso deixei de sofrer. Porque os afetos envolvem-nos, submetem as nossas emoções e agitações interiores, por mais que impulsionemos o barco contra a maré.
Existem dias de calmaria, é verdade.
E nesses dias, é possível ser-se feliz.
Dias em que, olho para o meu filho e percebo que noutra vida, não o teria.
Poderia ter tido outros filhos, mas nunca este.
E quando ele me abraça, me levanta do chão com os seus braços, como ultimamente se habituou, desde que percebeu a facilidade com que o pode fazer, rio desprendidamente.
Abraço-o enquanto atiro a cabeça para trás e agradeço por tudo. Pelas minhas decisões, pelas minhas escolhas, pelas perdas, pelas tristezas, porque só este caminho me poderia trazer a este momento.
E neste momento, Agora, sou feliz!
“Fui achando os meus espaços, descartando os meus pecados, acreditando nas escolhas. Hoje tenho o andar mais solto, não pela facilidade do caminho, mas por ter total domínio dos meus pés." (Fernanda Gaona)
Catarina Betes (A razão do que somos)