Por: Catarina Betes
Quando os meus pais me deixaram em casa dos meus avós, tinha apenas dois anos. Por maior que fosse a necessidade, hoje olho para os meus filhos e não compreendo que força maior faria uns pais entregarem aos cuidados de uns avós idosos, uma criança de dois anos.
O meu pai arranjou trabalho em Lisboa no Ministério da Justiça e partiu com a minha mãe. A casa era pequena, a minha mãe ia procurar trabalho e como a vida na capital era cara, o melhor foi deixar-me ao cuidado dos meus avós maternos.
Durante muito tempo, esse facto não me causou estranheza.
Habituei-me a ver nos meus avós o alicerce familiar, eram eles que me levavam à escola, davam banho, levavam à missa ao Domingo. Tudo me parecia normal, porque o normal é o que conhecemos.
Apenas quando fui para a escola me interroguei uma ou outra vez porque não vivia com os meus pais, ao contrário das outras crianças que conhecia.
As poucas vezes em que o assunto foi mencionado, a minha avó disse-me sempre que quando os meus pais partiram, não era para ser assim.
Pensaram que pouco tempo depois lhes seria permitido vir-me buscar. Mas entretanto a minha mãe empregou-se na fábrica e como inicialmente trabalhava por turnos, era complicado ter uma criança para cuidar.
O que me intrigou mais tarde, foi que entretanto tenha nascido a minha irmã Joana e que ela sempre tenha vivido com os meus pais.
Um fim de semana por mês os meus pais vinham à terra. Traziam brinquedos, roupas, e no Domingo, depois do almoço, lá partiam os três, enquanto eu ficava no passeio, com o braço no ar, a acenar um adeus que não compreendia muito bem.
A minha avó Maria Elisa era uma força da natureza.
Além de mim, tomava conta de mais três netos, que moravam mesmo ao nosso lado, filhos da minha tia Rita. Fazia panelas de comida para todos, tratava da roupa, da horta, levava-nos à escola e tinha sempre um sorriso rasgado reservado aos netos. Quando os meus primos iam para casa, no fim do dia, eu ficava sozinha com os meus avós e confesso que os cheiros daquela casa ainda hoje me perseguem, em sonhos. O cheiro adocicado do café acabado de fazer, o cheiro a limão e canela do tacho do arroz doce que eu mantinha debaixo de olho à espera do momento de o poder rapar. O cheiro das couves acabadas de cozer e que eu comia sempre a resmungar.

Quando a minha avó Maria Elisa adoeceu eu tinha doze anos e andava já na escola industrial.
Os meus pais quiseram levar-me para Lisboa, mas eu fiz finca pé. Não existia no mundo nenhuma força capaz de me afastar da minha avó. Mesmo na cama, era ela quem dava as directrizes. Indicava ao meu avô o que havia a fazer e como deveria ser feito. Eu ajudava nas refeições e em tudo o que me era permitido, embora a minha avó ralhasse, queria que eu estudasse, que não perdesse tempo com os velhos.
Dei muitas vezes com o meu avô a chorar na horta, enquanto cavava a terra seca, afogando no trabalho a mágoa que o derrubava.
Os telefonemas dos meus pais eram diários, para a casa dos meus tios. Nunca quis falar com nenhum dos dois. Iniciei a minha fase de revolta. Revolta contra a doença, revolta contra a sensação que desde muito cedo me abargou os sentidos e que só nesse período começou a ter um nome…abandono.
Cinco meses depois de adoecer, Deus levou a minha avó. Amei-a como uma filha e enterrei-a com o amor de uma.
O meu avô foi viver com os meus tios na casa ao lado e eu fiquei sem argumentos para ficar. Foi pedida a minha transferência para Lisboa e parti, dorida por dentro, na fragilidade dos treze anos acabados de completar.
Adaptei-me aquele espaço e aquela vida familiar como pude.
Não posso dizer que a minha vida foi infeliz a partir daí, porque estaria a faltar à verdade.
Os meus pais fizeram o possível por me integrar e confesso que, com o passar do tempo e com muita paciência, foram relativamente bem sucedidos. Aprendi a conhecê-los e tentei compreender.
Hoje, quando leio uma história aos meus rapazes, ao deitar, deixo muitas vezes a minha imaginação voar até ao passado, e não é a casa de Lisboa que recordo. É a cozinha da minha avó Maria Elisa, onde passei horas e horas da minha infância, os seus braços à volta do meu corpo, as suas mãos enrugadas mas delicadas a aconchegarem-me os lençóis.
E por momentos fecho os olhos, inspiro profundamente e sorrio…porque no fundo da minha alma, sinto novamente o cheiro a limão e canela…do arroz… doce da minha infância.
Catarina Betes, “Não se Nasce Mulher Por Acaso”