Por: Catarina Betes
Marta
Olho-me ao espelho como faço todas as manhãs e fico na dúvida entre parti-lo ou rir de mim mesma. Opto pela segunda.
De que me adianta a rebeldia nesta altura da minha vida?
Aos oitenta e quatro anos, resta pouco de mim neste espelho. Mas o espelho da alma…Ai, esse, guarda imagens de uma Marta jovem, de olhos enormes, cabelos negros ondulados e rosto sem marcas do tempo.
Cada um dos caminhos traçados no meu rosto, representam um pedaço de mim.
Um caminho, uma escolha, um momento, uma perda.
É por isso que apesar da saudade que sinto da Marta que um dia fui, não trocaria o que vivi, o que senti, o que deixei para trás, por nada deste mundo.
Mesmo os momentos mais difíceis, as mágoas, as perdas, que já formam tantas, nada poderia ter sido de outra maneira, ou hoje eu não seria a pessoa que sou.
E não me refiro à Marta que este espelho reflecte.
Porque a Marta por detrás deste rosto vincado pelo tempo mantém-se sonhadora, rebelde, impaciente. Essa é uma das coisas piores que vem com a velhice.
É que os anos não moldam a nossa mente, como moldam o nosso corpo.
Os outros olham para nós e agem como se o nosso espírito também andasse apoiado numa bengala, na ignorância de que a personalidade não muda com a idade.
Tudo o que vivi foi uma constante aprendizagem, trouxe-me maturidade, fez-me aprender sempre algo novo sobre tudo e sobre nada, fez-me crescer.
E que outra coisa andamos nós a fazer neste mundo senão a aprender a viver?
A aprender a aceitar as consequências dos nossos atos, a aceitar o que não podemos mudar, a agradecer o que nos é dado e que nem sempre merecemos.
A idade traz-nos algo mais que experiência ou sabedoria.
A mim, trouxe-me gratidão. E quando me sento na sala, neste sofá velho e desgastado pelo tempo, como todos os dias faço, nesta vida em que já pouco me resta fazer, fecho os olhos e agradeço.
Quantas e quantas coisas devia ter agradecido no passado e nunca o fiz.
Porque quando somos jovens, o muito é sempre pouco e estamos irremediavelmente ocupados e insatisfeitos com tudo e com coisa nenhuma. Porque a maior parte do que nos ocupa são coisas.
Mas hoje, quando penso na minha vida, não são as coisas que tive que recordo, não são os vestidos, as jóias nem os presentes que recebi que me alimentam a alma e preenchem o vazio dos dias.
Não…São as lembranças das pessoas que amei, dos abraços e sorrisos que partilhei, dos filhos e netos que embalei, dos presentes que dei, dos homens que beijei…
Esses sãos os momentos que recordo e revivo todos os dias, um a um, como se diariamente lesse as mesmas páginas, do livro da minha vida.
Também recordo os erros, as palavras mal escolhidas, as mágoas, as frases perdidas … E se sofro, é porque assim tem de ser, porque o caminho de cada um, ninguém mais o pode percorrer.
É a rotina que me mantém presa ainda a este mundo, e enquanto espero o passar das horas, vou folheando lenta e pausadamente as páginas desta vida, fecho os olhos e sim…sinto-me agradecida.