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Domingo, 29 de Março de 2015
Cultura Avieira – AVIEIROS-DORES E MALEITAS

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 Por: Lurdes Véstia

 

Cabe-me agora apresentar o resultado da pesquisa que tive o gosto de fazer durante dois anos, no âmbito da minha licenciatura na Escola Superior de Educação de Santarém (ESES). Este trabalho, que ora apresento, expõe duas originalidades maiores: a primeira é a de conter a primeira pesquisa jamais feita sobre os Avieiros, a partir de fontes não-etnográficas no sentido tradicional. A segunda prende-se com o facto de este estudo inaugurar a investigação endógena no âmbito do Instituto Politécnico de Santarém (IPS), produto direto do lançamento do projeto de candidatura da Cultura Avieira a Património Nacional; resulta também do empenho institucional da ESES e do curso de licenciatura em Animação Cultural e Educação Comunitária, nas suas ligações ao meio ribeirinho envolvente, que legitima os processos de formação, de ensino e de investigação-ação do próprio IPS, em interação com as dinâmicas socioculturais da Borda-d’Água do Tejo.

À genialidade literária e antropológica de Alves Redol, verdadeiro padrinho de batismo destas comunidades pesqueiras e iniciador e guia inspirado das abordagens à polissémica Cultura Avieira, seguiram-se até ao presente algumas recolhas de valor insubstituível, mas nunca uma fonte “indireta” tinha sido assim trabalhada. A documentação do Hospital de Jesus Cristo do Arquivo Histórico da Misericórdia de Santarém constituiu-se deste modo na primeira grande fonte não-convencional, escrita, a ser desbravada.

Acresce que se disponibiliza a outros investigadores a Base de Dados que industriosamente foi elaborada, abrindo caminho para o aprofundamento de outros estudos como, por exemplo, no âmbito da onomástica e genealogia Avieiras, no da História Demográfica e da Família, ou no da História Social. Com este estudo se revelam pegadas involuntárias de pescadoras e pescadores Avieiros, impregnadas de algo profundo (e normalmente não-dito, e ainda menos escrito) nas suas vivências humanas, que expõem não apenas os aspetos sanitários de mal-estar e incómodos físicos indicados nas “Dores e Maleitas” do título, mas que vai muito mais além na sua riqueza e processamento de dados, identificando ritmos –os ciclos vitais e dinâmicos da implantação dos assentamentos Avieiros situados nas vizinhanças da urbe scalabitana-, desnovelando as escamas que têm encoberto a sua história, e desvendando aspetos inusitados da vida do dia-a-dia das segregadas comunidades de pescadores, tão íntimos como os das diferentes peças do seu vestuário.

As “Dores e Maleitas” do título, cujo inovador tratamento tem validade própria, não me dispensam aqui de comentar o tema: quanto a estas questões sanitárias, há que pensá-las no contexto secular das comunidades ribeirinhas, mais abertas aos contactos com o exterior. Tradicionalmente, e até ao fim do Antigo Regime, em cada núcleo portuário, assim que chegavam “notícias de pestilência” a bordo, o Guarda-Mor de Saúde era a autoridade que podia colocar de quarentena os navios sinalizados, e ir até ao encerramento do porto. No século XIX, a autêntica “estrada” constituída pelo curso do Tejo, era o principal eixo de movimentação de pessoas e de produtos na Borda-d’Água, e isso facilitava a propagação de epidemias entre os pescadores (e os “marítimos” do tráfego fluvial), como este estudo deteta para os “Vareiros” ou “Varinos”, nos anos de 1832-3.

Ainda que dois terços das causas dos internamentos hospitalares não seja explicitada na fonte, o restante terço fornece dados específicos do maior interesse. A ocorrência de surtos epidémicos parece ser responsável por cerca de 9% dos casos (adicionando “Doenças infectocontagiosas” com “Doenças do foro digestivo”). A estas, somam-se as patologias de carácter endémico próprias das condições do trabalho no rio (a que hoje chamaríamos de “doenças profissionais e ambientais”): cerca de 15 % dos casos corresponderiam a situações de malária -as populares “sezões”- (identificadas como as “Doenças relacionadas com febres”), a que se devem juntar a maioria das do “foro respiratório” e as “reumáticas”. Finalmente, as outras situações com maior grau de invariabilidade em função do ambiente ou do modo de vida (nervos, parto, coração, circulação, fraturas…), comuns entre quaisquer populações, contam com quase 10% dos casos. Como estas percentagens se reportam ao total de registos, e como se ignoram os diagnósticos de mais de metade das situações, isso permite que, se extrapolarmos tentativamente os dados conhecidos (9%+15%+10%), para as situações totais, encontramos os seguintes dados, para os três níveis de patologias assinaladas: Epidemias-27%, Endemias-44% e Outras-29%. Tanto num como no outro caso, como nas décadas iniciais cobertas pelo estudo não era uso registar o motivo de internamento, o valor das “epidemias” é o que está mais seguramente subavaliado, pois foi o que mais regrediu com a chegada à contemporaneidade.

Sem prejuízo de outras abordagens interpretativas possíveis sobre os dados apresentados neste estudo, ou sobre outros tipos de fontes escritas por explorar, gostaria de reforçar a síntese maior a retirar deste trabalho de investigação: a da revelação de cronologias de fixação dos pescadores genericamente oriundos da área da Ria de Aveiro (os “Varinos”, curiosamente ligados, segundo os dados pesquisados para a crise sanitária de 1832-33, ao que parece ser a comercialização de bacalhau e de sardinha, e não principalmente à pesca no rio) e a primeira abordagem documentalmente atestável, à cronologia dos assentamentos dos pescadores oriundos da Praia da Vieira e implantados (com indicadores objetivos e relevantes para assinalar o seu “início” e o seu “auge”) da Borda-d’Água tagana.

Quanto ao movimento histórico da migração genericamente designada de “Varina” – que remonta ao período medieval, e nem sempre sob a forma “pendular”, e que tão pitorescamente marcou a vida ribeirinha de Lisboa, do estuário e da Lezíria do Tejo-, parece, nos anos de 1850-60 (com proveniência genérica da costa Norte portuguesa, de Aveiro, de Ílhavo e da Figueira da Foz), exalar os últimos suspiros, mas sem que se extinga de todo. Neste contexto, é compreensível e exemplar que os casos de origem atribuídos à “Marinha Grande” (município em que se integram a freguesia da Vieira e o lugar da Praia) atinjam o seu pico na década de 1850, dando depois lugar a uma mais fina identificação da naturalidade, ganhando primazia a freguesia e a Praia da Vieira.

Assim, aquele movimento secular de pescadores “nortenhos” passa a ser sobrepujado pela dinâmica migratória (inicialmente pendular, e depois, tendencialmente permanente) dos naturais da Praia da Vieira, ainda que esta tenha diferentes ritmos de fixação: na década de 1870 emergem, nas margens direita e esquerda do Tejo, as Caneiras e o Patacão; na década seguinte, Vale Figueira e os assentamentos de Almeirim; Porto de Muge referencia-se na década de 1890 e S.Vicente do Paúl na de 1910. A mais tardia comunidade parece ser a de Barreira da Bica, já avançado ia o século XX. Tratando-se de movimentos seculares, as datas não surgem aqui como fundacionais das aldeias, pois estas são passíveis de ciclos de “ocupação-abandono-retoma” nas suas variantes possíveis e ao longo do tempo.

Identifica-se igualmente um sentido de progressão Norte-Sul (mesmo tendo em conta que a área de influência do Hospital se circunscrevia a um troço do Tejo):

1º - A montante (e provavelmente na sequência de anteriores assentamentos no Médio Tejo), irrompem nas décadas de 1850 a 1870 as comunidades piscatórias dos municípios de Constância, V.N. da Barquinha, Golegã e Chamusca que, a partir de então, permanecem com um carácter residual, denotando talvez a predominância de migrações temporárias; e depois,

2º - A jusante, emergem com significado a partir da década de 1910, as comunidades ribeirinhas dos municípios de Alpiarça, Almeirim e Santarém.

Pena é o facto de serem inexistentes registos referentes às aldeias situadas mais nas proximidades do estuário do Tejo (nos municípios do Cartaxo, Azambuja, Vila Franca de Xira, Salvaterra de Magos e Benavente), por certamente recorrerem os pescadores, sempre que necessário, a outras infraestruturas assistenciais mais meridionais.

O movimento migratório pendular de Varinos e de Avieiros diminui progressivamente, sendo ultrapassado por volta da década de 1910 pelos casos dos filhos e netos de migrantes oriundos da Praia de Vieira, já nascidos e agora permanentemente estabelecidos nas aldeias ribeirinhas, crescendo sempre o seu número até ao auge dos anos 50 do século XX, momento a partir do qual os fatores sociais de mudança exercem a sua ação imperativa, a par da crise da pesca, afastando cada vez mais os “avieiro-descendentes” da faina familiar tradicional, o que implicou a regressão demográfica e o envelhecimento das comunidades piscatórias Avieiras.

(Continua…)



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:00
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