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Domingo, 3 de Maio de 2015
Cultura Avieira – Avieiros-Dores e Maleitas Vivências Avieiras

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 Por: Lurdes Véstia

As dificuldades encontradas, quer pelas tarefas no rio quer pela vida cheia de complicações, exigiram sempre dos pescadores e dos seus familiares uma dedicação total ao rio e à faina. Esta existência difícil substanciou-se na formação de comunidades muito fechadas, com costumes e formas de vida próprios, diferentes e estranhos para as comunidades já estabelecidas na Borda d´Água.

Estas comunidades estavam, claramente, apartadas como consequência de vários aspetos essenciais como a religiosidade, o folclore, as crenças, entre outras.

(...) No dorso das desvairadas águas, afora um cocuruto de salgueiro ou choupo e um telhado aqui e outro mais além, só as bicas aguçadas dos barcos Avieiros. Só os Avieiros, porfiam. Eles precisam de ficar, porque não conhecem outro sítio para viver. Os outros barcos, amodorrentam pelo cais logo que a chuva engrossa, e a estrada aquosa entumece. No cais, mastros despidos de velas, os barcos dormitam. O rio está deserto. (Disponível em URL - http://paragemobrigatoria.com/ficheiros/tejo. Visitado em Abril de 2010).

O barco - A forma de estar na vida, que caracterizava os pescadores oriundos da Praia da Vieira, era desconhecida, incompreendida e socialmente marginalizada pelas comunidades locais e por isso os pescadores migrantes, nos primeiros tempos de fixação nas margens do rio Tejo, tiveram de enfrentar a animosidade dos autóctones, vendo-se obrigados a viver nos seus barcos apelidados de bateiras, saveiros e também nas caçadeiras “maneirinhas”, nas palavras da D. Júlia Rabita, onde guardavam todos os haveres e os instrumentos necessários à pesca. Barcos que eram o seu principal instrumento de trabalho, o seu lar, o meio de transporte e tantas vezes a tumba. Ali trabalhavam, dormiam e comiam. Era também ali, no barco, que muitas vezes pariam e eram criados os filhos. A D. Júlia Rabita relata assim esta vivência: (…) metíamos na caçadeira alguma comida, o bastante para um ou dois dias, um colchão, uma manta, pratos e talheres e chegados a um mouchão, armava-se o tolde no barco e era lá que a gente vivia nesses dias.

Na proa do barco era colocado um “tolde” que atravessava “da borda avante (...)” para servir de abrigo contra as borrascas. Era aqui que toda a família dormia, depois da emparadeira era colocado um monte de areia para que pudessem fazer lume e que servia de cozinha, a parte da ré era a oficina da pesca e onde se guardavam as redes.

Um universo reservado, com leis próprias.

Aliás o apodo de “cigano” pode também ter surgido pelo facto de os Avieiros, enquanto sociedade fechada e repudiada, terem o hábito de casar entre si, como forma de proteção, para se defenderem e para preservarem o conhecimento que tinham das artes da pesca e para darem continuidade às suas tradições, tal como praticam as comunidades de etnia cigana.

A pesca - Pesca-se de noite, o arrais (homem), por norma é quem lança a rede e a camarada (mulher) é quem rema o barco aquando do lançamento. Depois a rede é recolhida para o interior do barco, pelo casal, com as duas cordas juntas de modo a fazer um saco.

Cada rede possui, para além de uma nomenclatura diferente que os Avieiros “concebem”, uma forma e função distinta consoante o tipo de peixe a que se destina. As redes podem ser de arco, de arrasto, de alvitana ou redonda. Os panos de rede diferem na dimensão da sua malhagem - malha mais basta, para o peixe de menor porte, malha mais aberta, para o de maior. Distinguem-se quatro tipos de redes de arco: o buturão, o galricho, o traquete e a nassa que se diferenciam pelo seu tamanho, pelos diâmetros das malhas e das bocas dos arcos. As redes de arrasto, chincha e varina, são as redes de maior dimensão e de forma quadrangular. As redes de alvitana ou redonda: o sabugar, a branqueira, o estremalho e a savara que se diferenciam pelo tamanho das malhas. A confeção das redes, arte de sabegar, envolve o casal de pescadores. (Bemhaja, Carla V. Pereira, Nomenclaturas Avieiras da Pesca – Caneiras, Tese de Licenciatura, ESES, Santarém, 2010).

Mulher Avieira - A mulher sempre desempenhou um papel muito importante na família Avieira pois, para além do seu papel como mãe e esposa, camarada do pescador na faina e ajudando no concerto das redes de pesca, era ainda ela quem tomava conta da economia doméstica e monetária da família controlando o dinheiro proveniente da venda do peixe nos mercados urbanos ribeirinhos.

No século passado era comum verem-se, logo de manhã após a pescaria, as mulheres Avieiras, normalmente descalças com a cesta à cabeça, fazer grandes caminhadas para vender o peixe a granel ou que também podiam entregar aos almocreves, como conta a D. Júlia Rabita, “apareciam para os lados de Salvaterra em carroças e mais tarde em furgonetas”.

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As mulheres Avieiras trabalhavam também no campo durante os meses de verão, mas diz a D. Carmina Pelarigo do que ela gostava mesmo era de ir com o seu homem de noite no barco a remar, “(…) cheguei a trabalhar de dia no campo e de noite ia para o barco com o mê homem”.

As mulheres Avieiras sempre se distinguiram das demais pois conservaram sempre o seu traje original. Maria Micaela Soares, num estudo realizado sobre as mulheres da Estremadura, descreve assim as mulheres Avieiras, (...) elas conservam puras muitas das suas tradições, com especial relevo para o vestir. Usam saia e blusa, a que a mais velha chama “casaco”, sendo aquela muito rodada ou em pregas miúdas. De tecido diferente, conforme a estação do ano, a saia tende sempre para o xadrez castanho amarelado, embora se vejam também de cores muito garridas. (Soares, Maria Micaela, 1977,“Mulheres da Estremadura”, Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa, n. 83, pp 301-302).

Ao longo da investigação que se realizou no Arquivo Histórico encontraram-se descrições bastante interessantes da forma de vestir da mulher Avieira. Esta informação foi recolhida nos Livros de admissão de doentes e na rubrica “Objetos com que entrou”, pois aquando da admissão e registo tinham de entregar todos os pertences que transportavam consigo.

Aqui apresenta-se, em forma de exemplo, um dos registos dos objetos deixados por uma mulher Avieira: «Camisa de castorina, colete de picotilho, três saias de serguilha, três lenços de chita, roupinhas, meias, tamancos».

No 3º Volume do Dicionário Enciclopédico do Folclore Português, que contempla os distritos de Santarém, (edição de 2008), o traje da pescadora da Borda d'Água está descrito da seguinte forma: saia aos quadrados, bastante franzida se for de trabalho, ou pregueada se for domingueira, a blusa é de cor com motivos e avental bordado, sacanitos de lã e chinelas pretas com sola alta de madeira, usa ainda lenço de lã escuro e por cima dele chapéu preto, o saiote é branco com bastante roda e os colotes são da mesma cor.

Homem Avieiro - A forma de vestir do homem Avieiro, também está bem caracterizada, veja-se como exemplo: «Camisa de algodão, calça de cotim, ceroulas de algodão, colete de baetilha, camisola de lã, gabão, cinta preta, tamancos, lenço e barrete preto».

No 3º Volume do Dicionário Enciclopédico do Folclore Português, que contempla os distritos de Santarém, (edição de 2008), o traje do pescador da Borda d'Água está descrito da seguinte forma: tradicionais calças de xadrez atadas no tornozelo com uma fita, camisa xadrez, cinta e barrete pretos, nos pés tamanca alta com sola de madeira.

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NA - As bateiras são barcos que têm a proa e a ré em bico e viradas para o céu, medindo entre quatro metros e meio a sete metros. Por fora, são pintadas a pês negro e por dentro com cores vivas e alegres. A vantagem em terem a proa e a ré em bico é o manuseamento do próprio barco. Os saveiros são pequenas embarcações de cinco a sete metros de comprimento, utilizadas pelos Avieiros que faziam os seus próprios barcos para garantirem o sustento da família e que têm vindo a desaparecer dando lugar aos barcos de fibra. Resta, apenas, aos pescadores, as memórias e a transmissão dos legados a outras gentes. As caçadeiras são embarcações tipicamente portuguesas que eram também conhecidas por canoas do alto. Existiam em quase todos os centros de pesca do país, embora com maior relevância para sul do Cabo da Roca e costa algarvia. Tinham muita quilha à ré, proa arredondada e popa de painel.

NA - Emparadeira é um amparo de madeira que faz de suporte para os pés quando se rema.

NA - Testemunho oral em direto da D. Júlia Rabita e D. Carmina Pelarigo, entrevistadas pelos autores.

NA - Castorina – Tecido de lã, leve, macio e sedoso. Picotilho - Tecido de lã muito fino, usado para calças e coletes. Tecido produzido com lã de Caxemira. Serguilha – Tecido utilizado na confeção de saias, muito utilizado nas zonas húmidas. Roupinha – Roupa íntima que, em 1830, se tornou muito popular em flanela e algodão. Todos os tecidos estão referenciados no Dicionário Enciclopédico do Folclore Português. Sacanitos – Caneleiras em forma de tubo, geralmente de lã grossa. Cotim - Tecido de algodão com ponto de cetim, usado na confeção de vestuário para homens. Baetilha - Tecido de algodão tornado felpudo no avesso por meio de uma raspagem.

(Continua)

 



publicado por Noticias do Ribatejo às 07:45
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