Por: Lurdes Véstia
(continuação)
Identificaram-se como público-alvo todos os elementos constituintes da comunidade Avieira da Borda-d’água tagana, tendo-se, no entanto, restringido o estudo a duas mulheres, idosas, pescadoras Avieiras.
Para chegar às duas participantes deste estudo, percorreram-se vários caminhos. Na preparação, durante o mês de Junho de 2012 do 3º Congresso Nacional da Cultura Avieira, o Instituto Politécnico de Santarém e o Gabinete da Cultura Avieira, segundo proposta por nós apresentada, decidiram ser aquele o momento certo para homenagear pescadores Avieiros que, durante o seu percurso de vida, tivessem sido promotores de ensinamentos das aptidões e técnicas que dominam e que são consideradas de valor histórico e cultural para a comunidade Avieira, com o objetivo de divulgar e preservar esse património.
Nesse dia 12, foram promovidos a Porta-vozes da memória Avieira, três homens e três mulheres, que foram criteriosamente escolhidos pela Associação para a Promoção da Cultura Avieira – APCA, baseando a escolha no perfil, percurso de vida dentro da comunidade Avieira, espalhada pela Borda-d’água tagana, e domiciliados em aldeias distintas. Todos eles apresentavam traços comuns, mesmo não tendo convivência conjunta.
Casal Avieiro a tratar das redes na Aldeia Avieira de Caneiras, Santarém
Dentre estes, uns mostraram indisponibilidade para serem entrevistados para a elaboração deste estudo e outros não se encontravam em condições físicas para o fazer. Dessa amostra, Isabel e Elizabete mostraram disponibilidade e até algum orgulho pelo facto de alguém se mostrar interessado em conhecer e partilhar as suas memórias e “heranças”.
Os indivíduos, considerados beneficiários do resultado do trabalho, foram tratados enquanto pessoas com sentimentos e necessidades específicas e não como objetos passivos e recetores da intencionalidade externa. Levou-se sempre em conta a participação ativa da comunidade Avieira, de acordo com o contexto e a visão da realidade social como um todo. É forçoso dar prioridade á visão e ao ponto de vista do indivíduo a partir da sua vivência quotidiana e não da necessidade do trabalho em curso, de modo a evitar a segmentação da realidade, geralmente provocada quando os trabalhos não levam em consideração o público-alvo.
História de vida
A recolha de dados é uma das etapas que nos permite preparar e aplicar um instrumento, tendo como intenção obter esses dados através de métodos específicos, que têm em conta as características do público-alvo e os objetivos desejados. Tendo em vista as especificidades do objeto de estudo optou-se por uma abordagem qualitativa, uma vez que o propósito é produzir sentidos caracterizadores que surjam da interação entre a entrevistadora e as informantes.
Geertz (1983) destaca que, nos escritos etnográficos, o que chamamos de “nossos dados” são efetivamente a nossa própria construção das construções de outras pessoas, do que elas e os seus conterrâneos se propõem “mostrar”. Este facto não está claro na medida em que a maior parte do que precisamos para compreender um acontecimento, uma cerimónia, um hábito, ou o que seja, está sugestionado á partida pela informação generalizada da “coisa em si” antes de ser examinada diretamente. Assim pode inferir-se que a análise antropológica é uma escolha entre as estruturas de significação e determinar a sua base social e a sua importância.
O realce do autor está na etnografia como uma descrição densa, isto é, “uma multiplicidade de estruturas conceptuais complexas, muitas delas sobrepostas ou amarradas umas às outras, que são simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas, e que ele tem que, de alguma forma, primeiro apreender e depois apresentar” (p.20), e que se pode observar em todos os níveis de atividade do trabalho de campo: entrevistar informantes, observar rituais, escrever diário de bordo, entre outros. Neste sentido fazer uma monografia descritivo-interpretativa sobre as formas de vida de povos, dos seus usos, costumes, valores e lendas é como tentar ler um documento cheio de incongruências, emendas e comentários, escrito não com os sinais convencionais do som, mas como modelos temporários de um comportamento regulado.
Os métodos qualitativos em ciências sociais são compostos, essencialmente, pelas técnicas da entrevista e da observação participante, ou seja, são direcionados para procedimentos centrados na investigação em profundidade, conduzida de acordo com procedimentos regulares, repetidos e levados a cabo, sobretudo, em períodos mais centrados no médio e longo prazos. O objetivo destes métodos é o de permitir que a investigação possa recolher e refletir principalmente aspetos enraizados, menos imediatos, dos hábitos dos sujeitos, grupos ou comunidades em análise e, simultaneamente, possa sustentar, de modo fundamentado na observação, a respetiva inferência ou interpretação dos seus hábitos. Segundo Moreira (1994) “(…) os dois grandes métodos de obtenção de dados qualitativos são a observação participante ou etnografia, como é hoje cada vez mais designada, e a entrevista qualitativa, em profundidade ou não estruturada” (p.31).
Dentro da metodologia qualitativa, as abordagens biográficas caracterizam-se por um processo de reviver episódios e por um revisitar da própria vida. A memória é algo presente na existência do Homem, sendo de relevante importância que a sua recuperação seja feita de modo cuidadoso e ético e pode ser constituída por lembranças vividas a diferentes níveis: da história colhida como memória ensinada (educação escolar); da história recebida oralmente (tradições) e da história como vivência pessoal. É a vivência pessoal que se deve utilizar como fonte de esclarecimento do passado (Vidigal, 1996).
O conceito de história de vida, conforme Bertaux (1980) é o relato da vida ou de episódios da vida, contados tal como o indivíduo os vivenciou. Por sua vez, Haguette (1992) sugere que o método de história de vida confronta duas óticas metodológicas, podendo ser aproveitado como documento ou como técnica de captação de dados.
Ao utilizar o método da história de vida o pesquisador não confirma a autenticidade dos factos, pois o importante é o ponto de vista de quem os relata. Este método é um trabalho de pesquisa, que se constrói, basicamente, com uma recolha de dados de carácter biográfico, sobre um ou mais indivíduos, sendo que a principal fonte de informação, mas não necessariamente a única, são os próprios.
O conceito história de vida encerra metodologias e métodos muito distintos, quer pelo carácter da presença do pesquisador na recolha de dados, pela análise dos materiais recolhidos ou pelas hipóteses que avalia.
Este método permite recolher informações do percurso de vida de um determinado indivíduo, ou indivíduos, assim como conhecer a sua experiência, prática e ótica, e não há melhor forma do que obter estas informações através da voz do próprio, ou próprios. O processo serve-se da trajetória individual, procurando divisar as informações contidas na vida pessoal de um ou de mais informantes, proporcionando uma quantidade de pormenores sobre o objetivo da investigação. Deve-se portanto dar ao indivíduo liberdade para conversar livremente sobre a sua experiência pessoal em relação ao que é perguntado.
O Homem é, por excelência, um contador de histórias e essa possibilidade fascina-o desde tempos muito remotos, talvez desde a aquisição da linguagem, pois de todos são conhecidos os vestígios deixados quer do ponto de vista da linguagem, visual, ou oral, expressos em hieróglifos, ícones e fábulas.
Apesar de compreender algumas limitações, a história de vida deve ser entendida como um método capaz de produzir interpretações sobre os processos históricos que reportam a um passado recente, o qual, muitas vezes, só é transmitido por indivíduos que participaram ou testemunharam algum tipo de ocorrência. Quando um indivíduo relata as suas memórias, transmite emoções e vivências que podem e devem ser compartilhadas, convertendo-as em saber, fazer e saber-fazer, de modo a fugirem do esquecimento.
O método história de vida dá oportunidade de aprender a ouvir aquele, ou aqueles, que vivenciaram a situação que se quer estudar, o que implica considerá-lo como par, alguém que é ativo no estudo e que reproduz a sua própria vida; para tanto, deve-se promover uma aproximação com o sujeito, ou sujeitos, do estudo, praticando uma escuta ativa e não apenas tratá-los como simples objeto de investigação, numa relação impessoal e distante.
No presente trabalho de pesquisa o ponto de partida da entrevistadora foi a história oral de vida das informantes, que tal como refere Vidigal (1996) pode contribuir para ampliar os estudos da história local, dar um sentido à própria identidade, contribuir para o reforço do sentimento de pertença a uma comunidade e para a interiorização de valores. Com este método de trabalho procura-se sempre a trajetória de vida desde a sua origem até à sua chegada ao lugar de destino e, sobretudo, as inúmeras dificuldades e peripécias encontradas para se estabelecerem no novo território (inclusão social).
Durante as entrevistas (com perguntas de onde veio, porque veio e quais foram as dificuldades encontradas no novo lugar) a entrevistadora regista as suas experiências de vida, no que seriam em parte, as suas histórias orais de vida.
(continua)