Cultura Avieira – Mulheres Avieiras porta-vozes da memória de um povo
Cerzindo as duas narrações
Por: Lurdes Véstia
Tivemos oportunidade de expor e de estudar as histórias de vida das duas mulheres Avieiras que se dispuseram a participar deste trabalho.
Estas histórias estão ligadas ao tempo e ao espaço. A passagem pelos lugares e as ligações interpessoais são um demorado pontear de histórias em que se combinam “cores e imagens” como num colorido tapete feito à mão.
Em seguida iremos apresentar o resultado do cerzido dos vários temas que encontrámos mais preponderantes e mais cheios de significações na análise de cada entrevista e que são manifestamente marcas da identidade Avieira.
Família Avieira da Barreira da Bica
a)Trabalho no feminino: Os jovens Avieiros começavam a trabalhar muito novos. Era, no entanto, estabelecida pelas famílias uma diferenciação muito evidente entre rapazes e raparigas, sendo estas as mais sacrificadas. Sempre que a família crescia as raparigas, que estivessem a frequentar a escola, deveriam abandonar os estudos para cuidar dos irmãos mais novos e fazer a lida doméstica. Se era considerado oficialmente pouco valorizado o acesso à instrução, para a generalidade dos jovens Avieiros, para as raparigas não era de todo relevante.
As mulheres Avieiras desde muito jovens tinham que tomar conta dos irmãos mais novos, da lide doméstica e ir exercer trabalhos agrícolas, onde trabalhavam de sol a sol e produziam quase tanto como os homens sendo todavia menos remuneradas.
Maria narra assim esta situação:
M: A nossa escola foi trabalhar. Eu à idade de 11 anos já tinha trabalhado, ferrei a trabalhar e nunca mais deixei, no campo, com enxadas.
LV: Com 11 anos a cavar?
M: A cavar e apanhar vides. Nessa altura não tinha força para atar um molhe de vides. Mas tinha que poder!!!
Gertrudes, por seu turno, comenta a situação com estas palavras:
G: Olhe lá! Nós éramos muitos irmãos e só um é que sabia ler! Eu tinha 11 anos e já andava com uma quarta de água à cabeça no meio das mulheres...era trabalho e do “gordo”…
“Os filhos não eram tratados como pessoas nem criados para alegria dos pais. (...). Não era uma questão de falta de amor, mas os progenitores estavam mais interessados na contribuição que os filhos podiam dar para o rendimento familiar (…)”. Esta opinião de Giddens (2001, p. 60) possibilita, talvez, ter uma ideia da realidade vivida pelas crianças Avieiras e perceber que as adversidades inerentes à instituição familiar terão certamente tido influência na qualidade das relações de vinculação estabelecidas e feito surgir vivências e sensações que terão influenciado a forma resignada com que posteriormente se modelaram as identidades.
A mulher, desde muito jovem, sempre desempenhou um papel muito importante na comunidade Avieira pois, para além do seu papel como filha, esposa, mãe, camarada do pescador, durante a faina e no concerto e fabrico das redes de pesca, era a gestora da economia doméstica, controlando o dinheiro proveniente da venda do peixe, nos mercados urbanos ribeirinhos, e era trabalhadora rural durante os meses de verão quando a faina estava mais fraca.
Nas comunidades piscatórias Avieiras são de facto as mulheres quem assume a condução da família, a resolução dos seus problemas, quer se trate de questões legais ou patrimoniais ou tão simplesmente questões tradicionalmente atribuídas às mulheres, como o tratar da casa e dos filhos. A mulher era a trave mestra da família. A literatura de Redol já apontava para que o facto do homem avieiro mandar na mulher mas que sem ela não tinha capacidade de se realizar.
Para identificar este tipo de organização familiar, em que a mulher assume um papel predominante, reapropriar-nos-emos do conceito de “matrifocalidade” ou sociedades “matricentricas”, conceito que qualifica um grupo doméstico centrado na mãe, estando o pai ausente ou detendo apenas um papel secundário.
À medida que as crianças crescem a mulher vai sendo gradualmente libertada do trabalho de cuidar delas com maior permanência, e quando as crianças começam a auferir alguns ganhos passam a contribuir para as despesas diárias do agregado familiar. É nesta fase que se começa a notar com maior clareza o padrão subjacente das relações dentro do grupo doméstico; a mulher passa do centro em redor do qual se desenvolvem os laços afectivos, para se tornar agora, em conjunto com os seus filhos, no centro de uma coligação económica e de tomada de decisões. Este crescimento da qualidade matrifocal ocorre, quer o esposo-pai esteja presente ou não (Smith 1996, p.42).
A multiplicidade de tarefas sempre fez parte da identificação da mulher Avieira e elas próprias se apodam, brincando, como “pau para toda a obra”.
M: A nha mãe ia fazer a venda dela e eu fazia tudo em casa. Eu e outra irmã minha.
Mais adiante:
LV: E na pesca como é que era?
M: Era muito bom … de noite pescávamos juntos, a mulher é a camarada do hóme, …depois da faina lá íamos vender o peixe…e eles ficavam a dormir na praia…boa vida, boa vida!!! Os hómes só pescavam e tratavam das redes… e nós éramos pau para toda a obra.
Até ao final do século passado era comum verem-se, logo de manhã após a pescaria, as mulheres Avieiras, normalmente descalças com a cesta à cabeça e muitas vezes os filhos pela mão ou à ilharga, fazer grandes caminhadas para vender o peixe, a granel, nos mercados das cidades ou vilas mais próximas da sua aldeia.
(continua…)