
Por: Ana Fonseca da Luz
Este Natal eu quero...
Olho para o céu e fico com a impressão de que os anjos estão a perder as penas…
Farrapinhos brancos e macios caem silenciosos, anunciando uma magia a que não estou habituada.
Estendo a mão para me certificar de que é mesmo neve e espanto-me com o facto de aquele farrapinho tão frio me aquecer o coração e o sorriso.
Lá dentro, espera-me uma sala quentinha e aconchegante, mas não resisto, fico aqui na rua, mais um bocadinho.
Este ano não me apetecia ir comprar os presentes para os meus “clientes habituais”, nem fazer a árvore de Natal e o Presépio, coisas que sempre me deram tanto prazer, e nem mesmo, imagine-se, dar pistas ao meu querido marido, poupando-lhe assim a tarefa de adivinhar o que eu realmente gostava de ter no sapatinho, e poupando-me a mim de receber um presente daqueles que nos deixam mudas de… decepção.
Esperei, em vão, que tudo aparecesse arrumado em casa para o Natal e os presentes debaixo da árvore, sem eu ter de fazer nada.
Tal milagre não aconteceu. Por isso, resolvi vestir, mais uma vez, a minha capa de “super mulher” e fazer tudo aquilo que tinha de ser feito.
Começa a cheirar-me a Natal e começo finalmente a sentir aquela saudade quase doentia, mas que me agrada, e que sempre me ataca nesta altura.
Uma rajada de vento frio, muito frio, tempera-me os sentidos, aguça-me a nostalgia de tempos idos, dos quais guardo doces lembranças e cheiros inesquecíveis.
Prefiro recordar só os bons!
Depois, dou por mim a pensar que este ano, não quero nada.
Se fizer um exame rigoroso, minucioso mesmo, à minha vida, tenho de confessar que não preciso de mais nada.
Lá dentro espera-me uma família amorosa, que me ama e a quem eu amo.
Sou avó da mais deliciosa das netas, que me diz todos os dias que gosta de mim até à lua, que me acha bonita, sempre que estou de vestido e que nota, sempre que mudo de perfume.
Tenho amigos carinhosos, com quem sei que posso sempre contar.
Sem ser a alma, em dias “não”, não me dói rigorosamente nada.
Posso ler, escrever e ouvir música, que são três das minhas grandes paixões.
Mais um farrapito de neve, que provavelmente só eu vejo, cai-me na palma da mão e desfaz-se rapidamente, transformando-se em lágrima.
Uma lágrima por todas as pessoas que já perdi ao longo desta minha caminhada, uns levados pela morte e outros pela vida.
Lá dentro, aguarda-me uma casa confortável e quentinha e não posso deixar de pensar em todos aqueles que, nesta noite tão fria, não têm um tecto para se abrigarem, um prato de sopa fumegante ou uns braços que os estreitem num abraço aconchegante e cúmplice.
É, talvez esteja a aprender o verdadeiro significado do que é ter tudo. Talvez esteja a dar finalmente, mais importância a coisas que não se vêem. Talvez a minha idade me esteja a dar sabedoria para compreender o que é realmente importante. Deus queira que sim!
Faltam poucos dias para o Natal.
Volto para dentro, para o quentinho.
Conserto o menino Jesus que está na manjedoura, acendo as luzes da árvore de Natal e o meu coração acende-se finalmente.
Este Natal eu quero…