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Domingo, 9 de Abril de 2017
EU NÃO SEI QUEM TE PERDEU

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 Por: Marina Maltez

 

EU NÃO SEI QUEM TE PERDEU

 

A ambulância “voava” em direcção ao hospital, os solavancos da estrada faziam-na recear nem que fosse um só segundo de atraso. “Vá lá, vá lá. Rápido. Olha para mim pai, estou aqui, estamos quase a chegar. Vai ficar tudo bem….tu és forte e eu estou aqui e sei que vais ficar bem.”. Não o disse apenas por dizer. Disse-o de forma firme, categórica, presa à sua Fé de que Deus não podia permitir a perda de quem mais amava. Quando finalmente a ambulância chegou à entrada das urgências uma médica e alguns enfermeiros já estavam à espera com uma panóplia de equipamentos: “Calma, vamos tratar dele. Aguarde que assim que possível damos notícias”.

Entrou na sala de espera aquela miúda/mulher de apenas 18 anos e que sem preparação alguma lutava pela Vida do pai. Ele sempre tinha sido e era o seu herói, o seu guerreiro. Agora era ela que vestia a armadura, pegava na espada e lutava pelos dois…a sala estava gelada….vazia…apenas o som de uma música que lhe ficou gravada a ferro e fogo pelo tanto que reflectia o seu estado de espírito “Só eu te posso ajudar”…

Os dias seguintes foram duras provas de resistência: exames, o agravamento do estado clínico, transfusões de sangue constantes. O seu ídolo agonizava numa cama de hospital mas sempre com um sorriso para a sua princesa, aquela a quem oferecia sempre três cravos vermelhos comprados na Tia Teresa. “Porquê Pai? Porquê cravos?”. Nunca o soube, mas ainda hoje são essas flores que coloca na sua campa.

Permaneceu ao lado da cama dele sempre. Não comia, não descansava. Só se ausentava os momentos que passava na capela, em preces sucessivas, pedindo a Deus para ter misericórdia.

Fazia-lhe a barba, com tanto medo de o magoar, mas fazia. Talvez inconscientemente soubesse que não teria um futuro. Aplicava-lhe a medicação para aliviar as feridas. Os dias eram marcados por essa rotina: higiene, alimentação, cuidados de saúde. Os estudos ficaram em pausa. Agora o Pai era tudo. Prioridade única e sagrada.

Mesmo quando todos diziam que nada havia a fazer, ela continuava a acreditar, a ter fé. Acreditava piamente que ele iria levantar-se e que a doença passaria.

Um dia, um dos enfermeiros disse-lhe: “Sabe que é muito pouco provável que o seu pai sobreviva?”. Ela sorriu-lhe: “Não. O meu pai é um vencedor e juramos nunca nos separar. Ele prometeu e cumpre sempre as suas promessas. E eu cá estou a cumprir a minha. Só sairei daqui com ele”.

10 de Março de 1999. Pelas 11:45 o seu telemóvel toca: “Acredita em milagres?” disse uma voz familiar do hospital. “Estou à espera de um há seis meses e esperarei sempre”. “O seu pai levantou-se, tomou banho e fez a barba. Tudo sem ajuda. Mas parece um pouco confuso porque diz que agora só lhe falta a sua Princesa”. O seu coração bateu como trovão, disparado de tanta emoção e alegria: “Não. Não está. Ele tem razão!”. Saiu apressada a dar a boa notícia à mãe para que fossem rapidamente para o hospital. Chegaram expectantes, queriam vê-lo, tocar-lhe, sentir o seu abraço caloroso. Era desta que o pesadelo tinha terminado e iriam para casa todos juntos. O elevador estava cheio: “Vai já tu mãe, eu sigo no próximo”. E seguiu. Entrou no corredor. A cama do Pai não estava no quarto. A mãe estava sentada na sala dos enfermeiros pálida, o rosto parecia cera. “Onde está o meu pai?”. Olharam-na com uma tristeza profunda, de lamento. Os seus próprios olhos estavam tristes, não eram só enfermeiros ou médicos, ao fim de tanto tempo eram uma equipa unida que lutava pela vida de um homem.

“Se não chorar nem disser nada deixamos que se despeça dele….”. Entrou na sala gelada onde um corpo repousava numa maca. Aproximou-se: “Não te deixo partir. Este é só o teu corpo. O teu espírito estará sempre em mim”.

Os momentos que se seguiram continuaram a ser um Calvário. Ligar à funerária, avisar no cemitério, tirar o corpo do hospital para não permanecer lá durante a noite. Essa ideia era terrível. A mais de 100 Km de casa, sozinhas…mãe e filha e uma dor atroz.

Por muito que procure palavras a menina/mulher nunca saberá descrever, exactamente, a dor que sentiu. A dor que sente.

Lembra-se que passou a noite abraçada a um caixão. Lembra-se que o fechou e guardou a chave: “Não te vão ver assim pai. A tua memória será o do homem forte, bondoso, humilde, de sorriso nos lábios e coração de ouro”.

Lembra-se do caixão descer à terra debaixo de uma chuva miudinha: “Até Deus chora diante de tamanha perda”. Regressou a casa. O vazio e durante dias, meses, anos esperou que a porta se abrisse e ele voltasse a entrar de sorriso doce e olhar meigo.

Passaram dezoito anos. Continua a ser menina/mulher. E ainda hoje espera que a porta se abra e possa voltar a dizer: “Olá Pai!”.

 



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:02
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