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Domingo, 30 de Dezembro de 2018
Feliz Ano Novo

ANAFONSECA

Por: Ana Fonseca da Luz

Feliz Ano Novo

 

Resignada, olha a vida de soslaio, enquanto a vida a mastiga, como se tivesse dentes de inquietude. 
Despe-se, renova-se, descobre-se na realidade que a sufoca e onde ela se esvai todos os dias mais um bocadinho, como a chama da lamparina, que ilumina o altar onde o santo de barro, chora de dor e de desalento. 
Desconhece os cambiantes das manhãs anunciadas pelos pássaros que lhe fazem ninho nos beirais da casa térrea e que lhe sujam a frente da porta, que está sempre aberta, para os que chegam sem avisar, cansados da mudez da vida e da intempérie dos sentimentos sempre velados. 
Não come. Tem fome mas não come... Apesar de tudo… 
Apesar das rugas, das mãos engelhadas e sardentas pelo tempo, que lhe foge pela porta, que ela mantém sempre aberta, por teimosia… 
Rói as unhas como quem rói a dor, cerrando os dentes amarelecidos pelo tabaco, que não fuma… 
Sorri da sua imagem, quase transparente, quase inexistente, perante a vida baça, que esconde à pressa debaixo da mesa, sobre a qual o pão repousa, à espera que alguém o coma. 
Abre a janela da insatisfação e deita fora os restos da amargura que lhe sobraram do dia anterior. 
Beija o marido, que ignora o beijo, que tal como ela, também é transparente. 
Ninguém a conhece… 
Arruma a um canto da casa a vassoura, com que sempre varre a luz do dia, que lhe entra pela porta, que mantém aberta, à espera sabe Deus do quê. 
Depois, enquanto o marido mergulha os olhos nas letras do jornal, que ela não sabe ler, hesita entre ficar, ou deitar-se na cama, que o tempo já desfez, apesar da maciez do seu corpo de outrora, quando a sua carne era um oásis de esperança e prazer, ou a porta da rua que continua aberta, deixando entrar os fluidos da noite e pequenos fragmentos da lua, que ela aproveita para lhe iluminarem os olhos, há tanto tempo apagados. 
Se ela partisse agora, o marido nem daria pela sua ausência, tal como não daria pela sua presença, se ela se deitasse na cama desfeita de saudade. 
O marido continua lá, com os olhos perdidos naquele mar de letras, como se lesse um poema de amor, ou a carta que ela nunca lhe escreveu, porque não sabia como… 
Sabia sim, ser sua escrava e saciar a sua fome nas noites em que a lua se recusava a entrar pela porta, para não tomar conhecimento da sua entrega sofrida àquele sexo que a sujava, entre os suspiros do marido e as suas lágrimas silenciosas. 
Raios partam o homem que não morre, afogado nas letras do jornal… 
A porta lá está, aberta, tal como a sua cama. 
E o marido ali…sem morrer. 
Acende-se nela uma franqueza e uma vontade de comer o pão que endurece sobre a mesa. 
O marido olha através dela, e as letras do jornal caiem no chão, em desalinho. São tantas, as letras, e ela sem saber o que elas dizem… 
Vai buscar a vassoura e varre-as para a rua, para que outros as leiam, porque elas nada lhe dizem… 
Encaminha-se para o quarto, onde o santo de barro continua o seu pranto e onde a cama a espera, desfeita de sonhos, enquanto o marido tira os suspensórios que lhe seguram as calças de cotim, de um azul já desbotado… 
Ouve barulho lá fora.  Devia ter fechado a porta… 
Alguém diz alto, para outro alguém: 
- Então boa noite! Feliz Ano Novo… 
Não consegue deixar de soltar uma gargalhada. 
O marido olha-a espantado. 
E ela ri, ri alto, como se fosse verdade, como se fosse feliz, como se o Ano Novo lhe trouxesse alguma coisa de diferente. 
E deita-se na cama desfeita de sonhos e em desalinho de ideias, enquanto o marido a olha abismado, desconhecendo a mulher que se deita a seu lado. 
E o marido que não há meio de morrer, para ela ter sossego. 
Não morre mas levanta-se da cama e vai fechar a porta da rua, para impedir que a alegria lhe entre pela casa dentro e lhe transforme a mulher, noutra mulher qualquer. 
Depois, deita-se e diz para a mulher, que está transparente, deitada na cama, preparada para o receber no seu corpo: 
- Feliz Ano Novo. 
E ela ri. Ri alto, tão alto, que ele desiste dela e virando-se para o outro lado, adormece. 
Bocadinhos de lua flutuam pelo quarto. 
O ar cheira a solidão. 
Ela levanta-se, apanha com a pá, as letras que deitou fora, como se soubesse ler, come o bocado de pão que já endureceu, enquanto diz para o cão que a olha abanando o rabo e de orelhas arrebitadas: 
- Feliz Ano Novo. 
Depois, fecha a porta à chave, deita-se ao lado do marido, que não há meio de morrer e sonha que no outro dia e porque é Ano Novo, vai ser feliz.



publicado por Noticias do Ribatejo às 07:40
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