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Por: Florbela Gil
Após a morte do meu pai, minha mãe, teve que me pôr, assim como os meus irmãos a trabalhar no campo. Íamos apanhar, lumiscos (erva para os coelhos), espigas de trigo para malhar, tirar o trigo, assim dava para trocar por pão. Íamos apanhar bolota para vender. Tudo o que desse para vender e trocar por alguma comida.
Fui crescendo, passando alguma fome, mas, todos muito unidos. Muita vez, a minha mãe não comia, para que os filhos pudessem comer mais alguma coisa. Dizia para ela":- não come mãe?" -"já comi, comam vocês". Dizia ela. Era mentira, eu sabia.
Tinha por volta de doze anos, já sabia fazer tudo numa casa, minha mãe ensinou-me a serzir meias (remendar, os buracos) fazia-mos serão á luz do candeeiro a petróleo. Era até doer a vista, até já não conseguir ver as malhas caídas. As senhoras ricas, queriam as meias bem remendadas. Era mais um dinheiro que entrava para comer.
Mas continuavamos a passar mal.
A minha mãe, resolveu ir embora da aldeia, para ir servir para Cascais. Eu era a mais nova, levou-me com ela. Fomos para casa de uns senhores ricos, com uma casa enorme como eu nunca tinha visto na minha vida, com móveis e cortinados, e estatuetas lindas, com casa banho, foi nessa altura que vi uma sanita pela primeira vez. Sim porque a nossa casa banho era no palheiro.
Minha mãe fazia a comida, limpava a casa e eu ajudava. E assim aprendi como era a vida sem passar fome, sendo criada de servir. Mas passado um ano, as saudades dos outros filhos apertavam, e minha mãe foi vê-los, deixando-me no lugar dela. Não aguentei estar sozinha numa casa grande, e com patrões exigentes, eu era uma menina, e exigiam de mim muito. Fui embora também. Voltei para casa. Lá fui eu trabalhar para o campo. Para a roça. Uma amiga de minha mãe disse que precisavam duma criada para uma casa grande, e que os patrões eram muito bons, em Lisboa.
Lá vamos nós. Lisboa. Chegamos. Falou com os senhores combinou tudo, deixou-me e foi embora. Estava lá um cachopo todo ranhoso. Tive medo dele, e não quis lá ficar. Ele metia-me medo. Fuji. Mas sem dinheiro para voltar para casa, tive que andar a pedir esmola na rua. Sabia que tinha uma prima a viver perto, na rua da Graça, procurei e lá me indicaram a casa. Ela acolheu-me, fiquei a cuidar da neta. Nessa altura deu-se uma revolução em Lisboa, eu só chorava com medo.
Então minha prima enviou um telegrama á minha mãe a dizer que me ia mandar para casa.
Vim de comboio até Vale Figueira, lá estava o meu irmão esperando por mim, com uma burra, para eu não ir a pé para casa.
Mais uma vez, voltei para o trabalho do campo. Desta vez a mondar ( tirar as ervas daninhas) .
Pedi á mãe para me deixar ir á escola, queria saber escrever meu nome e ler alguma coisa. Ela deixou. Só dei o livro da primeira classe. Mas ela achava que era perder tempo. Saí. Fui guardar cabras, um dia irritei-me com uma cabra e mordi nas orelhas dela.
Zangada disse á mãe que não queria aquela vida.
Mais uma vez fui embora, para servir de criada, numa casa em Santarém. Nessa casa servi sete anos. Já era uma mulher.......
Continua......meus amigos leitores, acreditem, ainda há tanta coisa para vos contar sobre a minha avó. Muitas delas é de rir, outras de chorar. Esperem por mais episódios.