
Por: Catarina Betes
Julgamos muitas vezes que a carência de humildade é uma particularidade exclusiva dos “outros”. Afinal, cada um de nós dá o seu melhor, todos os dias, por trás do propósito que encerra cada amanhecer.
Mas a tentação de nos considerarmos superiores é gigantesca. Porque somos mais justos, mais tolerantes, mais capazes. E até podemos verdadeiramente ser donos de todas essas virtudes, mas a postura altiva de convencimento interior, perante o mundo que gira à nossa volta, desfaz todas essas qualidades superficiais e imediatistas a pó.
Porque quando murmuramos as imperfeições de alguém, colocamo-nos numa posição superior. É como se mirássemos o outro de cima, sem condescendências, porque somos demasiado perfeitos para absolver as falhas alheias.
E esta não é uma atitude caraterística apenas dos mais jovens, que até certo ponto, têm desculpa, pois ainda estão a aprender a ser. Todavia constato que em determinadas circunstâncias, a idade parece presumir a análise e a crítica de tudo e de todos, como se os anos vividos trouxessem todas as certezas do mundo. Mas só a “nós”. Curioso.
Acostumei-me a observar os outros e a mim na mesma medida e sou constantemente surpreendida. A facilidade com que, correntemente, minoramos as qualidades do outro e ampliamos as nossas, a espontaneidade com que apontamos as falhas do outro e omitimos as nossas. A dificuldade que representa para alguns, ser grato.
Porque a gratidão, como disse Shakespeare, “é o único tesouro dos humildes”.

Por vezes confunde-se humildade com humilhação, rebaixamento. Nada está mais distante da verdade. Ser humilde é simplesmente aceitar, a si mesmo e ao próximo. Observar e compreender o mundo com os pés bem assentes no chão, sem precisão de se elevar e posicionar acima dos outros.
Muitas vezes, a conclusão que se tira, é que se pensa muito e se sente muito pouco. É como se os dias acelerados reduzissem a competência de sentir, de dar asas ao elemento mais básico do ser humano.
Procuramos nos outros sinais de inteligência, para lhe podermos atribuir um estrato. Porque estratificamos tudo. Qualidades como a bondade, a ternura, a paciência, são simplesmente afastadas e relativizadas. São insignificantes para a estratificação social. E afastamo-nos. Porque é custoso corresponder aos nossos padrões de exigência excessivamente elevados.
A humildade, é a base de todas as virtudes, é a única que tem a capacidade de unir o ser humano, sem ela, nenhuma outra existe. É igualmente uma aprendizagem contínua, que se desenvolve ao longo de toda a vida. Não existem limites. O único limite é a própria vida. E talvez nós próprios.