
Por: Ana Fonseca da Luz
O pacto
Um pacto é algo de sagrado, é algo que é para toda a vida. Um pacto é como um casamento. “Até que a morte nos separe”.
Foi isso que aconteceu entre nós oito. Um dia, sem razão nem porquê, uma delas lembrou-se de organizar um jantar para as oito. Nem maridos nem filhos eram permitidos. Era um jantar onde a cumplicidade feminina reinava. Correu tão bem, os risos e as gargalhadas foram de tal ordem que, naquela mesma noite, combinámos que todos os meses havíamos de repetir. Cada mês seria em casa de uma. Cada mês iríamos ter uma noite só para nós. Mas, o curioso de tudo isto é que algumas de nós nem éramos assim tão íntimas, assim tão amigas! Mas a verdade é que, nessa noite, algo de especial nasceu. Mais que uma cumplicidade sem limites, mais que um extravasar de alegrias, tristezas, frustrações e intimidades (verbais, é claro), nessa noite foi selado um pacto. Nada se escreveu, nada se registou, senão no coração de cada uma de nós.
Assim foi todos os meses. Durante dois anos, os jantares foram acontecendo, uns mais virados para o corte e costura, outros para os respectivos problemas de cada uma. Mas todos os meses havia uma noite mágica, só para nós.
Em Fevereiro, o jantar tinha de ser em casa de uma delas, sem falta. É que ela ia ser operada e queria fazer o jantar antes da operação. E foi.
Nesse dia, lembrei-me de levar uma pequena oração para ler. Chamava-se ”Pegadas na areia” e posso garantir que foi, das coisas que já li na minha vida, a que mais fundo me tocou. Todas ficámos com a lágrima no olho. Olhei para a dona da casa e li-lhe nos olhos uma tristeza profunda. Parecia que me perguntava: - Isso é para mim?
Era. Era para ela, porque o que ela sofreu depois dessa operação e até ao dia em que morreu foi incalculável.
Depois desse jantar, ela resistiu heroicamente um ano e um mês. Acompanhámo-la, cada qual à sua maneira, mas todas sofrendo por aquela amiga tão querida, tão barulhenta, tão humana.
E onde é que ficou o nosso pacto? Onde é que está a nossa amizade? Em que pé estão os nossos jantares?
Todas somos diferentes, cada qual tem a sua vida, cada qual tem os seus problemas, mas a verdade é que alguma coisa morreu, a partir desse dia. Acharão vocês que a nossa amiga, lá do sítio onde nos está, por certo, a ver, está contente com a nossa atitude? Não valerá a pena recordar o quanto as nossas almas saíam lavadas depois de cada jantar, tentar deitar para trás das costas pequenas diferenças que há entre nós e fazer renascer o espírito que nos unia, nessas noites? Por mim, acho que vale a pena. Li algures que a amizade é como uma seara de trigo, que tem de ser regada e tratada, para que, mais tarde, haja farinha, para se fazer o pão. Já imaginaram a nossa vida sem pão? O pão precisa de sal, para ficar saboroso. E nós, além de olharmos pouco pela nossa seara, estamos também a esquecer-nos de pôr sal no nosso pão que, ultimamente, tem sido de tão fraca qualidade. Se a nossa amiga aqui estivesse, já nos tinha levantado a voz para nos dizer que não prestávamos para nada.
Éramos oito. Somos sete, mas continuamos a ser mulheres, a ter problemas com os nossos maridos, com os nossos filhos e parece-me que aquele pacto, que não ficou escrito em lado nenhum, mas que foi selado por nós, aqui há uns anos, numa noite de Novembro, vale a pena ser reescrito.