NOTICIAS DO RIBATEJO EM SUMARIO E ACTUALIZADAS PERIODICAMENTE - "A Imparcialidade Na Noticia" - UMA REFERÊNCIA NA INFORMAÇÃO REGIONAL -
Domingo, 23 de Abril de 2017
O tempo voa.

CATARINABETES.png

Por: Catarnina Betes

 

 

O tempo voa

 

E com ele, a sensação de intemporalidade, com a qual crescemos, rodeados de afetos e lugares comuns.

Nem todos crescemos com raízes. Alguns simplesmente medram e aprendem, sem atirar sementes à terra.

Outros…ai esses outros.

Crescem e vão deixando raízes que se pregam resolutamente ao chão.

Quisera eu tantas vezes não as ter. Porque quem não as tem, é desprendido e quem as detém, está irremediavelmente preso ao fio ténue da memória.

Ténue, porque por vezes parece tão estreito, que quase questionamos a sua existência. Mas o certo, é que nos momentos autênticos esse fio apresenta-se inquebrável, como se fizesse parte integrante de nós. Como se, no dia em que o mesmo se desfizer, também nós nos retiraremos deste mundo.

Somos como somos. Uns mais emotivos, outros mais afoitos, uns mais desligados, outros, sem saberem exatamente por quê, vitalmente conetados a sítios, pessoas, memórias e lugares.

Uns olham apenas e resolutamente, para a frente e para o caminho tentador, que o futuro exibe.

Outros, de forma indecifrável, vão avançando, mas a um passo mais lento e pensativo. Sensitivo. Porque reconhecem a beleza de apreciar o percurso e a relevância de se estar vivo. Como se todos aqueles passos tivessem já sido dados e detivessem a perceção de que o principal não é o destino, mas a alegria do caminho. E então, usufruem de cada passo dado, cada rumo, cada nova figura que se achega, cada sensação, cada lugar, porque têm presente a propósito de que nada é exclusivamente o que aparenta, tudo é mais, do que o perceptível aos nossos olhos.

O principal está disfarçado. E para se conhecer ou conquistar, é necessário tempo.

Tempo sem pressas e olhos abertos para o que existe, além do primeiro olhar.

Quando penso em felicidade, penso em tempos sem tempo contado. Dias em que a alma era atenta, ao que não se via no imediato. A infância.

Temos tanta pressa de crescer e quando acontece, ficamos cegos, porque apenas vemos o que os nossos olhos permitem alcançar. E isso é muito pouco.

Quando penso em felicidade, penso em coisas simples.

Como na mula do Gimbrinha. Uma mula que puxava uma carroça, que frequentemente atravessava as ruas da aldeia onde cresci e passei dias inteiros a brincar sem limites de tempo, ou horário marcado.

Percebi mais tarde, que o que tornava aquela dupla notória, não era tanto o senhor Gimbrinha, que levava a carroça, mas mais a mula, que o transportava no regresso a casa, sozinha, sem mentor.

Quando penso na verdadeira felicidade, penso em coisas simples.

Como nas mulheres de pés descalços que por vezes passavam em frente à minha porta, como se saíssem de uma máquina do tempo, em que ainda não se usavam sapatos e o frio não as enregelava, porque a ele, estavam resignadas.

Penso nas peixeiras que conduziam os carros de mão e vendiam o peixe porta a porta, pescado pelos maridos e por elas mesmas, atirando as redes ao Almonda e ao Tejo, sem que nenhum dos dois soubesse nadar.

Penso no melão vendido à beira da estrada. O melão apanhado por miúdos, graúdos e velhos da aldeia que precisavam de trabalho. Os braços vermelhos do roçar do mesmo, o regresso no fim do dia a casa, tantas vezes com o reboque ainda carregado, outras, em que o pai, a mãe ou o avô, passavam a noite na barraca a guardá-lo, para, com alguma sorte, o despachar no dia seguinte.

Ou então, penso na apanha do tomate, carregado pelo pessoal balde a balde, para encher cada caixa que no fim do dia, contabilizava o ganha-pão de cada um.

Velhos e novos sempre prontos a dar luta, resistentes sem nome, que se negavam a deixar os filhos passar fome, quando havia trabalho, mas não emprego.

Quando penso na felicidade, penso no meu pai, quando à noite ia desligar os motores da rega do milho ao campo, junto à reserva do Paúl do Boquilobo e eu pedia para ir com ele.

Íamos no volkswagen azul, pelo campo da Golegã adentro, no silêncio da escuridão, apenas perturbado pelo canto dos grilos e a noite, parecia-me então, imaculada.

Quando penso na felicidade, penso numa mesa cheia, em que ninguém se entendia nem ouvia, mas os risos eram permanentes e verdadeiros. Porque a família estava reunida.

A verdadeira felicidade, esconde-se por trás de coisas simples.

Desengane-se quem a procura noutro lado.

Ela parece existir, mas é enganadora e inconstante.

A que deixa memórias, é a outra. A que se esconde por trás da sombra de um dia simples de verão, um olhar através da janela que encobre um dia de chuva, com a lareira da sala, acesa.

A que se esconde por trás de um abraço, de um olhar, de um simples piscar de olhos.

Porque tal como a vida, também a felicidade é transitória e passa velozmente. E deixa marcas.



publicado por Noticias do Ribatejo às 07:56
link do post | comentar | favorito

pesquisar
 
Julho 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
13

18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


posts recentes

Município do Entroncament...

Ofertas de Emprego

WORKSHOP DE NUTRIÇÃO

ARTES & SONS - 20 E 21 DE...

Rancho da Casa do Povo de...

Câmara Municipal do Entro...

CÂMARA MUNICIPAL DE SALVA...

Tertúlia Festa Brava orga...

Exposição de Rui Algarvio...

REI E RAINHA DAS VINDIMAS...

In. Santarém 2019 | PROGR...

Chamusca no coração do de...

Documentário “Embarquemen...

Santarém recebe “Summer F...

CCDRA apresentou SI à Ino...

Histórias para contar” ex...

Torres Novas – Detido em ...

Casa cheia na Startup Our...

CARTAXO: OBRAS DE REQUALI...

TOIROS: LEIAM E PERCEBAM ...

AR AMPLIA REDE DE SANEAME...

Exposições “Contos para t...

NERSANT promove Feira Emp...

A PT Empresas, marca da A...

102 empresas criadas em m...

Santarém - Sete detidos p...

Concerto de Sopros e Perc...

Mercados de produtos e ar...

Município do Entroncament...

Conselho Local de Ação So...

arquivos

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

tags

todas as tags

subscrever feeds