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Domingo, 13 de Setembro de 2015
Para a Ana e para o Paulo

CATARINABETES.png

 Por: Catarina Betes

 

Não há despedidas fáceis. A própria palavra traz em si um peso invisível, uma nuvem que se arrasta, mantém por perto, vigilante.

Porque ninguém sabe, nem quer, despedir-se de quem ama. Porque o amor é o elo invisível que nos liga uns aos outros. Sem ele não existe nada. Ou existe, mas sem qualquer sentido. Só o amor é real.

 Uma vida sem amor é como uma mala vazia. Não exige dispêndio de energia ao carregar. Podemos trazê-la simpaticamente às costas, sem esforço nem grandes cuidados. É tão simples transportar o vazio. E tão triste. Porque se está só.

Sem amor não temos nada. E quando a nossa caminhada se aproxima do fim, o vazio que carregamos é irremediavelmente semelhante ao vazio da nossa alma. Encontrar alguém para amar não é fácil. Nem difícil.

Porque só quem tem uma alma pura pode reconhecer o amor, caminhar para ele. É um carreiro diário, de gestos, atitudes, reconhecimento do peso e valor dos outros na nossa vida. Um caminhar de olhos descerrados, vigilantes, sem fugas mas com um coração aberto, que não rejeita o que vê à primeira vista, mas um coração atendo. Aos pormenores.

E então o reconhecimento acontece. O reconhecimento das almas que se buscam e complementam. Talvez por isso quando somos apartados do que amamos, a dor seja tão dilacerante, porque escapa à nossa capacidade de compreensão e entendimento. Como despedir-nos de alguém que faz parte de nós, do que somos, do que algum dia poderemos vir a ser?

Não fomos concebidos para deixar partir. Mas a rendição é inevitável. Podemos arremessar, virar as costas, cerrar os olhos com todas as nossas forças, na expectativa de que, ao reabri-los, o sofrimento já não exista. Ou quem sabe o tempo pare… Mas não pára. E a quem fica, a quem vê o outro partir, resta aceitar. E agradecer, não sem dor. Pelos anos, dias ou meses vividos, pelos sorrisos, pela alegria partilhada, pela bênção de ter vivido…um amor.

Esta é a história da Ana e do Paulo.

 Sem Título.png

O Paulo é meu primo, foi criado comigo, parceiro de infância, de escola, de aventuras e desventuras. O meu primo mais próximo, talvez por termos apenas dois anos de diferença. Fomos criados na mesma rua, pelos mesmos avós, numa família que, embora tenha tido os seus revezes (como todas as famílias), instigou em nós um amor incondicional uns pelos outros. Um amor que cresceu connosco, apesar de tantas vezes fisicamente afastados. Um amor que criou raízes nas complexidades que os nossos avós atravessaram, há gerações atrás, pelas perdas que suportaram, pela vida que construíram, tantas vezes árdua e custosa, mas sempre regateada. Porque a vida era para ser vivida, nunca sem luta, nunca, nunca sem esforço. Reconheço neste meu primo esse espírito, que atravessou gerações e se mantém vivo. Ser um bom homem, um bom marido, um bom pai, um bom profissional. Não conseguimos impedir esta sede de ir sempre mais além, de dar o máximo de nós mesmos, pois só na entrega somos felizes.

E amamos imensamente, de corpo e alma. Depositamos nos que amamos tudo o que temos e somos.

Poderia escrever sobre milhentos assuntos, mas tenho vindo gradualmente a conformar-me  com a noção de que, cada um, é para o que nasce. Para mim, a escrita só faz sentido, se dela retirarmos algo. Uma experiência vivida, uma emoção contida, quiçá uma lição de vida. Só consigo escrever sobre o que me emociona.

Rendo-me assim à simples evidência que a minha escrita será sempre apenas minha e daqueles que não se importam de a ler. E sinto-me em paz com isso. Porque acredito que estamos sempre aptos a aprender. Porque continuo a acreditar (não sem alguma resignação), que os sentimentos são o melhor de cada um. Mostrá-los não nos envergonha, torna-nos maiores, particularmente num tempo em que se corre apressadamente atrás de coisas, que quando enfim alcançamos, compreendemos que não são nada. Apenas coisas.

A primeira vez que vi a Ana, pressenti nela a beleza das almas simples. Um sorriso fácil, uma aparência doce e um olhar revelador do seu amor imenso pela vida. Ao longo dos anos fomo-nos reencontrando nos nascimentos dos nossos, filhos, nos casamentos e afins. Porque a vida corre…Mas não apaga os afetos.  Há oito anos nasceu o Guilherme e há quatro a Madalena. A linda Madalena, de olhos negros e cabelo tão escuro que me emociona sempre, pelo seu ar doce e parecenças tão vincadas que lhe encontro, com a tia paterna.

A Ana partiu no sábado passado. Após anos de luta diária contra uma doença, que lhe roubou a oportunidade de ver os filhos crescer e tornarem-se adultos. Mas não partiu sem luta. Viveu uma batalha imensa, que acabou por derrotar as suas forças e o seu corpo, mas nunca a sua alma. Porque na sua curta vida de trinta e cinco anos, revelou uma determinação que não se adquire com o tempo, mas com uma força interior admirável. Nunca se rendeu, viveu cada dia intensamente, sem lástimas. A doença era uma presença constante, mas invisível. Porque a Ana não lhe concedeu o poder de condicionar e aprisionar os seus dias. Viveu com a família cada dia, cada momento, com um amor extremo, um amor que tantas vidas longas, nesta vida, nunca experienciam. Porque o amor foi o seu leme, e cada momento a sua chegada.

Quando finalmente me aproximei do Paulo, os nossos dedos prenderam-se e senti a sua dor, partilhei-a, tal como todos os que não o deixaram sozinho. E foram tantos. E mais uma vez o amor superou a morte. Como a Ana (acredito sinceramente!) pressentia.

 A morte leva o corpo, mas que peso tem este, perante a invencibilidade da alma? Acredito nesse poder ao ver a marca que a Ana, o seu testemunho de vida e a sua força deixaram em tantos. Ver os seus pais em tamanho momento de dor é algo impossível de descrever. Mas ao olhar mais atentamente, percebi em todos a força daquela mulher admirável, que até ao fim procurou sempre a beleza de cada dia e viver o momento mágico que se encerra por trás de cada nascer do sol. Como me disse o Paulo na mensagem que me enviou “A minha Ana partiu. Sofreu muito, mas sempre com um sorriso.”

E esse sorriso diz tudo. O sorriso de quem, na própria morte, venceu a morte.

Porque amou, foi amada, porque não se rendeu.

Porque VIVEU!



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:05
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