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Domingo, 4 de Novembro de 2018
Pinguço, o defunto da D. Emília

ANAFONSECA

Por: Ana Fonseca da Luz

 

RETRATOS 

 

Pinguço, o defunto da D. Emília 

 

Desde que nasceu que nada mais fez do que infernizar a vida da mãe. 

Para nascer esteve quase quarenta horas. 

A mãe com tanto que fazer na faina do campo e em casa com três cachopos ainda pequenos a pedirem tantos cuidados, e o raio do catraio que não descia para nascer, como se estivesse a adivinhar que a vida lhe havia de ser madrasta. 

Cresceu pelos campos, tal como os irmãos, enquanto bebé, dentro de uma caixa de madeira forrada com um panal da azeitona e, mais tarde, quando começou a andar, e porque nada parava com ele, preso com um baraço a uma oliveira, para que não fugisse à mãe e não mordesse nos irmãos, porque o raio do rapaz mais parecia um cão mordendo a torto e a direito. 

Mais tarde, quando chegou a altura de ir para a escola, em vez de querer aprender, queria era andar aos ninhos a matar os passaritos com uma fisga. 

Nunca foi nem de leituras nem escritas e os pais acharam melhor, assim que ele acabou a segunda classe, mal e porcamente, porque o que a professora Laurinda queria era que ele desaparecesse da escola, onde só causava problemas, puseram-no a pastar gado e a trabalhar nos campos. 

O Pinguço, assim era conhecido por todos, por sempre ter gostado muito das sopas de cavalo cansado que a mãe lhe dava de manhã, antes de ir para a escola, fez-se um belo homem, rude, mas vistoso, chamando a atenção das cachopas casadoiras. 

Mas, ele só tinha olhos para uma, Emília de seu nome, viçosa que nem uma flor e que mal reparava nele. 

Quanto mais ela o desdenhava, mais ele a queria e jurou a si mesmo sobre a campa da mãe, que só com ela haveria de casar. 

O cerco foi tanto e tantas as atenções que a Emília lá o aceitou para namorado e com ele casou. 

Foram morar para uma casita pequena, mas muito ajeitadinha e o Pinguço jurou a si mesmo que havia de fazer a sua Emília feliz. 

Depois de casados, a Emília bem fazia para que tudo estivesse do seu agrado, mas sempre que chegava a casa bebido, com tudo implicava.  

Depois, passou a ser ciumento. 

Ele tentava, tentava mesmo, controlar os ciúmes, mas o gostar dele por ela era tão doentio, que a mulher não tinha permissão para se dar com ninguém e até dos pais a das poucas amigas ele a conseguiu afastar. 

Um dia, a mulher ficou grávida e só de pensar que ia ter de a dividir com o filho que estava para nascer, amaldiçoou aquela gravidez, até porque a sua Emília estava até mais bonita, mais luminosa. 

Naquela noite, chegou a casa bêbado, como sempre, e espancou a mulher sem dó nem piedade, deixando-a sentada num mar de sangue. Era o sangue do seu filho que se espalhava pelo chão e, intimamente, alegrou-se por aquela criança não ir nascer. Assim a Emília seria só sua. 

Às vezes, depois de a socar, caía num mar de remorsos, mas a verdade é que não se conseguia controlar. O Pinguço tinha ciúmes até da sua própria sombra. 

A Emília definhava de tristeza, de mágoa e dor e ele, ele gostava de a ver assim, sua, impotentesubmissa. 

Mas Deus, dizem, não dorme, e numa noite de Inverno, de frio e de chuva, quando regressava a casa de bicicleta, um carro bateu-lhe e seguiu o seu caminho deixando-o ali, sozinho e ferido de morte. 

Só que a morte chegou e em vez de o levar logo para o quinto dos infernos, ficou ali ao seu lado, a vê-lo contorcer-se com dores e frio. 

Tinha as duas pernas partidas, sentia uma costela a perfurar-lhe um pulmão, fazendo com que cada vez que respirava uma dor sem tamanho tomasse conta do seu corpo. 

-Lava-me, gritava ele para a morte, que ao seu lado o olhava sorridente, leva-me depressa que não aguento tanta dor! 

E a morte, fria, distante olhou-o e disse-lhe: 

-Só te levo quando olhares para trás, para a tua vida e te arrependeres de todo o mal que causaste à tua mulher e ao teu filho que por tua causa não nasceu. 

Foi aí que o Pinguço, cheio de dores e de frio, deixou cair uma lágrima que se confundiu com um pingo de chuva, e disse à morte: 

-Perdoa-me, morte, perdoa-me! 

Cada vez tinha mais dificuldade em respirar, o corpo já não o sentia, só o coração teimava em bater, ora depressa ora devagar, muito devagar. 

Nesse instante, quando a morte lhe viu a lágrima e lha lambeu para ter a certeza que de uma lágrima de tratava, e não de um pingo de chuva, abraçou-o e preparou-se para o levar com ela. 

O Pinguço, antes do último suspiro, disse baixinho: 

-Perdoa-me, Emília, já que eu não me consigo perdoar. 

A sua cabeça pendeu para o lado esquerdo, os olhos abriram-se de susto como se estivesse a ver a porta do inferno aberta de par em par para o receber e ali ficou afogado em sangue e em chuva até ser encontrado já sem vida, para grande alegria da sua Emília. 



publicado por Noticias do Ribatejo às 07:42
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