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Quando a doença vence...

Por: Florbela Gil
Vou contar-vos, uma história verdadeira, tal como todas as outras.
Era uma vez uma menina linda, olhos pretos amendoados, cabelos pretos, e com a pele muito branquinha. Linda, linda, parecia a Mona Lisa, aliás, varias vezes, foi o que lhe disseram.
Essa menina, que vou aqui retratar, e para ela fica esta homenagem de contar a sua história, nasceu em Portugal, mas ainda em pequena, sua mãe, junto com seu irmão, foram juntar-se ao pai, que estava emigrado na Guiné Bissau, e lá estava estabelecido.
Enquanto foram os dois pequenos, lá viveram, mas aproximava-se a altura do irmão mais velho entrar na escola.
Sua mãe, regressou com eles a Portugal.
Célia, assim se chamava a menina, que parecia a Mona Lisa, tinha uma energia que se espalhava por onde ela passava, a sua alegria era contagiante.
Saltava para cima duma cadeira, cantava, e dançava, não tinha vergonha, era tão giro vê-la brincando assim.
Passaram-se anos, a menina cresceu, fez-se mulher, estudou, ainda entrou na universidade, a estudar artes, mas, sua mãe, entretanto, tinha regressado para a Guiné, ela ficou sozinha, com uma casa para cuidar, e estudar. Mas o dinheiro que mãe lhe enviava, era pouco, não chegava para pagar as despesas.
Célia, desistiu dos estudos. Enviou currículos, para muitos sítios, esperou que alguém a chamasse.
E assim foi, uns meses depois, foi chamada, a uma entrevista para uma perfumaria de renome, num Centro Comercial em Lisboa.
Gostaram muito da sua aparência, e da sua delicadeza a falar.
Conseguiu o lugar para ser uma das vendedoras dessa perfumaria.
Célia, tinha um dom nato para vender.
Rapidamente, quem ia à perfumaria queria ser atendido por ela. Passou a ser em pouco tempo uma das melhores vendedoras da loja.
É claro, que isso acarreta, as invejas de colegas, de chefes de lojas, e resultado, os patrões subiram-na de posto, passou a ser uma das mais graduadas abaixo dos patrões.
A vida sorria-lhe, já conseguia pagar as despesas sozinha, e ainda estudar à noite.
Uma mulher de armas, tão nova ainda.
Chegou a ser convocada para ir representar a perfumaria, e ir a congressos, fora do país, para poder divulgar os produtos. Sim porque os clientes da loja onde trabalhava, eram pessoas bastante abastadas, que não se inibiam de comprar um creme para a cara, e uma embalagem pequena, por 400€, um creme!!!
A vida sorria-lhe. Conheceu um rapaz, namoraram dois anos, e acabaram por se juntar. Parecia estar feliz.
Entretanto, sua mãe, adoece, veio para Portugal. A doença da moda.
Sua mãe tinha sido diagnosticada com cancro do pâncreas.
Célia ajudou a mãe no que pode, sempre com muita dedicação.
Entretanto, ela própria, um dia deu-lhe uma dor fortíssima no baixo ventre e o namorado levou-a para o hospital. Exames revelaram um tumor num dos ovários. Foi operada. A sua médica, ainda lhe deixou um ovário, porque como era muito nova, ainda podia vir a ter filhos. O tumor tinha sido retirado na altura certa, disse a Dra.
Mas tinha que fazer medicação preventiva, com comprimidos de quimioterapia, uns meses.
Passou quase um ano, entretanto, sua mãe foi piorando, e ela ia ajudando a mãe no que podia, mas a doença não deixou que ela vivesse mais.
Célia, assim perdia a sua mãe. A dor, o sofrimento, fez com que se descuidasse com a sua própria saúde. Como tinha mudado de casa, e de número de telefone, ela não respondeu, aos avisos do hospital, para voltar a repetir os exames.
Assim se passou mais dois anos, Célia sofreu nova crise, dores horríveis na barriga. Foi de urgência para o hospital. Foi logo operada na hora... Mas...
Tarde demais... O seu outro ovário tinha rebentado, e todo o veneno do cancro se espalhou pelo seu corpo todo. Ficou internada, ainda lhe deram quimioterapia forte, mas acho que ainda ficou pior.
Célia, pediu, para lhe cortarem o seu lindo e longo cabelo preto, pois a queda de cabelo, já se notava com o tratamento. Uma das enfermeiras, fez-lhe uma trança, e cortou, deixando o cabelo pela zona pescoço.
O que ela chorou, pois tinha noção do que a esperava.
Deixou tudo preparado, para a sua morte. Deixou escrito como queria ir vestida e penteada, e maquilhada. Disse também, ao irmão que queria ser cremada como sua mãe e queria ficar ao pé dela.
Numa das vezes que fui visita-la ao hospital, ela pediu-me": Belinha, passa os cubos do gelo pelo meu corpo todo que me sinto a arder toda por dentro!"
Assim fiz, agarrei em dois cubos e passei nos seus braços, pernas, as lágrimas corriam pela minha cara, era uma dor tão grande ver a minha menina, a ir embora com tanto sofrimento.
Três semanas, foi o seu tempo de vida.
Dois anos antes, tinha falecido a minha tia, mãe da Célia, e dois anos depois a minha prima do coração. Tinha 33 anos.
O irmão, João, quando a mãe de ambos faleceu, foi com a sua irmã Célia, depositar as cinzas, na base aérea da Madeira, porque, era um local, a ilha da Madeira, que a mãe dizia que gostava um dia de visitar. Pediu autorização, e lá, num cantinho abriram no chão um buraquinho para depositarem as cinzas.
O João, fez também a vontade à sua irmã, mas desta vez fez a viagem sozinho.
Quando chegou ao local onde tinha depositado as cinzas da mãe, deparou-se com uma roseira nascida no local.
João sabia, que ia deixar bem a sua mana, ia entregá-la à mãe, e agora juntas de vez, ele saiu de lá, com o seu coração preenchido de amor, emoção, mas, dizia ele, que sentia os braços das duas ao seu redor em toda a viagem de regresso.
A Mona Lisa, dos cabelos pretos, olhos amendoados, pele, tipo branca de neve, vive. Vive nos nossos corações. Fica a minha homenagem, para todas as pessoas com estas doenças e outras também graves, obrigado pela coragem que dão aos outros, quando são vocês que precisam dela.