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Domingo, 11 de Fevereiro de 2018
Quando a vida rima

ANAFONSECA

Por: Ana Fonseca da Luz

 

Quando a vida rima

 

Não sei se te conte… Tenho vontade de te contar e, ao mesmo tempo, tenho medo de que te rias de mim… Conto? Não conto? Conto. Vou novamente confiar em ti. Afinal, em quem mais poderia eu confiar?…

Estás à minha frente, com esse ar de menina desamparada e com essa cara de princesa de contos de fadas que me desarma sempre. É que tu nem és assim tão bonita, mas tens uma cara tão sonhadora, um ar tão etéreo que qualquer pessoa, mesmo sem te conhecer, tem vontade de te contar tudo, até os segredos mais íntimos, aqueles que nem em confissão se dizem.

            Não sei se te conte... A dúvida instala-se novamente em mim, quando me olhas com esses olhos carregados de mel e essa boca de morango que eu quero só para mim…

Mexes-te na cadeira e eu noto-te impaciente, quase sofredora, quando, afinal, quem sofre sou eu. Trocas a perna, ajeitas o cabelo e penduras o teu olhar no meu. O mel escorre-te dos olhos escuros e eu fico desarmado, indefeso, perante a tua impaciência tão mal disfarçada.

Continuo a olhar-te e tu a mim.  Da minha boca nem um som se atreve a sair. Tenho calor, tenho frio, a gravata incomoda-me e, de repente, reparo como a minha camisa é feia. Esta manhã, quando a escolhi para o nosso encontro, achei-a fantástica. Mas agora… Só vim de gravata, porque sei que gostas de homens arrumadinhos…Se soubesses como esta maldita gravata me incomoda!…

De repente, o teu braço, que repousava em cima da mesa, ao lado da xícara do café, ganha vida e ajeita-me o nó da gravata.

– Adoro a tua gravata! – dizes-me e eu quase me derreto pelo chão. Nesse momento, senti necessidade de te dizer alguma coisa inteligente…Poético, mesmo!

– Pu-la, a pensar em ti!

            “Pu-la, a pensar em ti! Pu-la, a pensar em ti!”  Mas, onde raio tenho eu os neurónios?

Ela sorriu, com aquele sorriso sempre franco e eu ganhei mais um pouco de confiança em mim. Afinal não tinha dito nenhum disparate…

– Gosto da maneira como dizes as coisas. Pareces um menino crescido – diz-me, olhando-me ora nos olhos, ora na boca.

Deixo de ver com nitidez, deixo de ouvir os barulhos que me cercam e só te oiço e vejo a ti. Manhosa como só tu, percebes a minha aflição e martirizas-me, tirando-me o cabelo dos olhos, deixando deslizar suavemente a tua mão quente pelo meu rosto, que deve estar sem cor. E é nesse momento que os deuses me segredam ao ouvido que é agora ou nunca. Mas, afinal o que sou eu, um homem ou um rato? Pelos vistos um rato, porque, se eu fosse um homem, já lhe tinha dito tudo o que me sufoca, tudo o que eu sei que ela sabe que eu sinto.

Ela olha o relógio, balança a perna traçada, que, por sinal, de tão bem feita que é, ainda me enerva mais. Ajeita o cabelo comprido para trás da orelha e pergunta-me, com uma voz tão doce como os seus olhos:

– Afinal, tinhas uma coisa tão importante para me dizeres… Estou à espera…morro de impaciência.

Morde o lábio, num gesto que eu conheço tão bem e espera que eu fale, olhando-me nos olhos. Um homem não devia sofrer assim. Esta coisa de paixão é boa é para as mulheres. Como é que eu, um homem tão vivido, me deixei enredar nesta teia de sentimentos, que, há tanto tempo, estavam adormecidos?! Terei eu 18 anos? Mas onde foi que eu errei? Será castigo, por ter fingido que amei tantas mulheres? Isto só pode ser Karma… Malditas mulheres! Quando pensamos que sabemos tudo sobre elas, quando pensamos que solucionámos o mistério que se chama “mulher”, vem uma e troca-nos as voltas. Voltamos à estaca zero… Não sabemos nada sobre este bicho perigoso, sedutor e manhoso.

A perna dela já parou de balançar. O mel dos olhos acentua-lhe o olhar e a mão que me ajeitou o cabelo com tanto carinho parece-me agora mais calma sobre a mesa… Não sei se lhe conte… De repente, do nada, ela pega no guardanapo que está na mesa e começa a escrever, numa letra redonda e perfeita.

– Sabes o que te queria dizer?

– Não –  responde e continua a escrever, levantando apenas o olhar uma fracção de segundos, para me olhar.

            Como uma torrente, as palavras soltam-se da minha boca e digo tudo… O quanto a amo, o quanto ela me faz falta, que não imagino a minha vida sem ela, e todas aquelas coisas ridículas que uma pessoa apaixonada diz e que, mesmo que não façam sentido, são pura poesia para quem diz e para quem escuta.

Toda ela é um sorriso.  Toda ela é uma promessa.

Eu, eu começo a sentir que todo este martírio valeu a pena. Nunca hei-de perceber as mulheres, mas é realmente aí que reside a sua beleza, no seu mistério, nas coisas que não dizem e que nós temos de adivinhar e no mel dos seus olhos, que nos deixam gulosos por mais e mais.

Levantámo-nos para ir embora. Já na porta, o empregado detém-me. Entrega-me o guardanapo onde se destaca a sua letra bonita. Ela já está na rua. Apresso-me a ler o que escreveu, como um menino que  tem medo de ser apanhado a fazer uma coisa que não deve. Era um poema…

 

“Mas, meu amor, eu te digo ainda…

Que a boca da mulher é sempre linda

Se dentro guarda um verso que não diz!

 

Amo-te tanto! E nunca te beijei…

E nesse beijo, Amor, que eu não te dei

Guardo os versos mais lindos que te fiz!”



publicado por Noticias do Ribatejo às 08:00
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