
Por: Ana Fonseca da Luz
Sem amarras
Ainda te vi atravessar a rua, em passo lento, quase estudado, mas depois perdi-te quando cortaste a esquina da casa enfeitada de sardinheiras encarnadas e roxas.
Como ninguém me esperava, fiquei ali, sentado no passeio, admirando o trabalho minucioso da calçada portuguesa.
Acendi um cigarro e, em vão, esperei que voltasses. Pousei os olhos na esquina da rua que te engolira e só entrei, quando o céu me mandou as primeiras gotas, que me caíram no pescoço, acordando-me daquele marasmo em que me encontrava.
À noite, não disseste nada!
Nem um telefonema, uma mensagem…
Não dormi.
Não sosseguei.
Só nesse momento compreendi que o que me unia a ti, não era apenas uma amizade transcendente, mas muito mais do que isso e que tu, provavelmente, te tinhas cansado da minha estupidez. Provavelmente, esperavas que, quando eu te dava a mão, para partilhar a tua tristeza, te roubasse todos os beijos que a minha boca, agora, tanto queria.
No outro dia esperei por notícias tuas.
E no outro…
E no outro…
Nada.
Tinhas partido.
Tinhas finalmente cortado as amarras e partido para longe, como sempre tinha sido o teu desejo.
Pena eu não ter percebido que quando prendíamos as nossas mãos uma na outra, eu nunca tivesse percebido que os teus olhos, as tuas mãos e todos os teus sentidos e afectos me pediam para que eu partisse contigo...