
Por: Ana Fonseca da Luz
Parecia mesmo que estava a sonhar! Sabem como é aquela sensação em que a realidade nos parece distorcida e sabemos que tudo aquilo que, naquele momento, estamos a viver, dentro em pouco desaparece e que a única coisa real é que estamos deitados na nossa cama, com a cabeça deitada na almofada? No entanto, tinha consciência de que aquilo que eu estava a viver não era um sonho. Num sonho, as cores, quando existem, são veladas e os cheiros são inodoros. Só sabemos que cheiram, porque os conhecemos na nossa realidade. A verdade é que os sonhos não têm cheiro. Nem cor. São apenas sonhos. Quando são bons, representam o realizar de desejos. Quando são maus, representam os nossos medos. Decididamente, isto não era um sonho!
Deixem-me fazer um esforço, para ver se me lembro como cheguei aqui. Está tudo tão confuso! Lembro-me que fazia frio. Lembro-me que estava particularmente triste, por ter sabido da separação de um casal amigo. Lembro-me de estar a ver televisão, com o gato ao colo, e lembro-me de o telefone tocar. Lembro-me que me esqueci do telefone fora do gancho, lembro-me que me esqueci de fechar a porta e lembro-me que me esqueci de te dizer adeus.
Agora, estou aqui nesta cama branca, que não é a minha. De que me lembro eu mais? Se não estou a sonhar, tive de vir até aqui de alguma maneira. Ou alguém me trouxe. E por que me parece ouvir chorar? E que máquinas são estas que me rodeiam?
Mas vou recuar no tempo. Afinal, quem é que me telefonou? Quem me fez sair de casa para o frio, sem te dizer adeus? Estavas no teu quarto. Estudavas para a prova de Francês. Francês nunca foi o teu forte, sempre foi o meu. Foi o teu pai quem me telefonou.
- Vem depressa, fui assaltado à porta de casa! Deram-me com qualquer coisa na cabeça! Estou a sangrar!
Foi por isso que não pus o telefone no gancho, que não fechei a porta e não te disse adeus. Desci as escadas a correr, cheguei ao portão e vi o meu marido apenas por uma fracção de segundos. Senti uma forte pressão no peito. Não, não foi uma pressão. Foi como se uma espada fria e comprida me trespassasse o peito de um lado ao outro. E depois? Depois, caí no chão e disse: “Marta!” Arrastei o teu nome, como se não quisesse parar de o dizer. Como se soubesse que ia ser a última vez que o ia dizer. E o teu nome ecoa ainda na minha cabeça: “Maaaartaaaa...”
Não deve ter sido uma espada. Nos tempos que correm deve ter sido uma bala! Quem me socorreu? Os vizinhos? Talvez...
Já descobri. Estou no hospital. Mas onde raio tenho eu estado nestes últimos tempos? Tempos em que o tempo não tinha qualquer importância!... Estive no mar, estive no céu, estive até no inferno. Não tive saudades de nada nem de ninguém. Só lamentei não te ter dito adeus. Agora já percebo esta coisa avassaladora que é o tempo e a falta dele, para fazermos as coisas. Onde eu estive, não havia tempo. O tempo, somos nós que o fazemos. As coisas não têm importância nenhuma. Já os sítios e a vida têm um valor infinito. A vida... Qual vida? A da terra ou a dos sonhos?
Engraçado! Estou de olhos fechados e, no entanto, vejo através das pálpebras! Meu Deus, como é bonita a minha filha! Como lhe fica bem o azul! Como tenho pena de não lhe ter dito adeus! Com aquele feitio que tem, nunca me vai perdoar. Combinámos, era ela pequenina, que, durante toda a nossa vida, nunca iríamos a lado nenhum, sem dizermos “Até já”.
Desta vez, não tive tempo. Se ela soubesse os sítios onde estive, durante este tempo sem tempo! Se ela soubesse como é realmente voar! Muitas vezes sonhei que voava. Sempre que voava, nos meus sonhos, tinha de lhe contar. Era uma sensação tão indescritível, que só ela, porque era um bocadinho de mim, conseguia compreender.
Pois bem, Marta! Muito voei eu, nestes dias! Desenvolvi essa capacidade. Agora, voo sempre que quero. É só fechar os olhos, o coração dispara-me no peito, ganha asas e parto para onde quero. É por isso, Marta, que esta noite vou fechar os meus olhos, vou voar até ao teu quarto e dizer-te: - Até sempre!
E tu vais responder: - Até sempre, mãe, até sempre!