
Por: Ana Fonseca da Luz
Tatuagens
Conhecemo-nos um dia, na imensidão da solidão que nos rodeava e quando pensávamos que tínhamos esgotado todas as palavas, todos os lamentos, todos os fins de tarde matizados de lilases e azuis e quando a esperança era apenas uma palavra de nove letras, que se deveria escrever, sempre, com letra maiúscula.
Olhámo-nos com a espectativa a escorrer-nos dos olhos e disfarçando o medo de sentirmos em simultâneo, um sentimento a que os poetas, esses ilustradores das palavras, dão o nome de amor.
Já ambos tínhamos amado, desamado…
Já ambos tínhamos sido gloriosamente felizes e perdidamente infelizes.
Já ambos conhecíamos a amargura das palavras que são pronunciadas quando o amor acaba ou, simplesmente, quando adormece nos nossos corações.
Já ambos estávamos esgotados de lutar contra moinhos que só nós víamos.
Só nós sabíamos o sabor que tinha a perda, a ingratidão e o silêncio.
Talvez fosse por isso que os nossos olhos, sofredores de grandes guerras, se tivessem prendido e falado coisas que só no silêncio se dizem.
A verdade é que foi um momento de perfeita comunhão.
Um momento único, que para sempre ficou tatuado na parte mais profunda das nossa almas.
Mas, faltava-nos, a ambos, aquela palavrinha mágica das nove letras, que se chama esperança.
Por isso, eu parti no teu coração quando te afastaste e tu ficaste prisioneiro do meu, até ao dia em que a vida nos puser, outra vez, na mesma estrada e a desilusão tiver dado lugar de novo ao encantamento.
A selar aquele dia, ficou um beijo dado de fugida, ao canto da boca, e o adeus que não dissemos.