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Domingo, 7 de Agosto de 2016
TEMAS DE SAÚDE: CONSULTA DO VIAJANTE

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Por: Antonieta Dias (*)

 

Dicas para os cuidados de saúde a observar quando viaja

 

Viajar pode ser sinónimo de aventura mas, em alguns casos, pode também traduzir um risco acrescido na aquisição de doenças, podendo este perigo ser minimizado desde que seja realizada uma consulta pré-viagem — designada Consulta do Viajante. Esta consulta deve ser realizada 4 a 6 semanas antes da partida e aí, de acordo com o destino apresentado, o médico irá aconselhar uma profilaxia, a medicação que deve acompanhar a viagem, etc.

É igualmente importante a realização de uma consulta pós-viagem, para que exista um tratamento atempado, no caso de existir alguma sintomatologia.

Conheça aqui alguns dos principais cuidados de saúde a ter quando viaja:

I - Quais as medidas preventivas que os viajantes devem ter antes da partida para um destino exótico?

Todo o viajante deve saber o itinerário que se propõe fazer, as zonas para onde vai, os aspetos culturais dos países de destino, o transporte aéreo de médio ou longo curso, que pretende fazer, possuir esclarecimento detalhado dos riscos do destino, são elementos imprescindíveis que devem fazer parte dos conhecimentos de quem viaja.

Cada viajante é único, cada destino também, sendo o risco de adquirir doenças infeciosas ou de outros eventos associados e tipificados geograficamente como uma das maiores preocupações das pessoas que têm que se ausentar do seu próprio País.

Conhecer a geografia das doenças, os recursos sanitários do pais de destino, o meio rural ou urbano onde o viajante vai ficar alojado, os padrões e estilos de vida que se propõe fazer, conhecer todas as doenças transmitidas por vetores como por exemplo a malária e a forma de a evitar, passando pela instituição do medicamento mais adequado para a sua profilaxia, à prescrição terapêutica dos fármacos que compõem o kit do viajante, aos contatos diplomáticos através das embaixadas, são instruções que devem ser fornecidas na consulta do viajante.

Importa, ainda, referir que os procedimentos a adotar em viagens longas com períodos de estadia superiores a seis meses, independentemente dos motivos — militares, diplomatas, cooperantes, ajuda humanitária, expatriados, aventura, residentes temporários por motivos profissionais ou com residência permanente —, obrigam a uma intervenção individualizada e suficientemente esclarecida sobre as patologias que as pessoas podem desenvolver, independentemente da idade, do sexo, da origem, do destino e do tempo médio de viagem

II - O que não deve faltar no kit de farmácia e no kit de primeiros socorros?

No kit do viajante de constar o seguinte:

  1. Medicamentos para a febre
  2. Medicamento para náuseas e vómitos
  3. Medicamento para a diarreia
  4. Medicamento para tratar as alergias e as picadas de insetos
  5. Antibiótico (medicamento para as infeções)
  6. Analgésicos
  7. Antidiarreico e um laxante
  8. Uma caixa de primeiros socorros
  9. Protetores solares

 III - Não há vacina da malária. Que medicamentos profiláticos existem?

Ainda não existe vacina para a prevenção da malária, pelo que devem ser usados fármacos.

A malária, ou paludismo, é uma doença infeciosa, causada pela picada do mosquito Anopheles infetado pelo plasmódio que transmite o parasita Plasmódio à corrente sanguínea levando á destruição dos glóbulos rubros  do sangue.

É uma doença endémica em mais de 100 países.

Quem viaja para países onde a malária é endémica deve fazer a profilaxia antes, durante e depois da viagem, usando medicamentos como o Mefloquina (Mephaquine) Atorvaquone + Proguanil (Malarone) que são os mais indicados para as zonas de risco elevado.

As outras medidas complementares gerais são as que visam prevenir a picada do mosquito evitando a exposição nos períodos de maior atividade do mosquito, designadamente ao amanhecer e entardecer, usar repelentes de insetos como o DEET, IR 3535, uso de mosquiteiros impregnados ou não com inseticidas, roupas que protejam pernas e braços e ar condicionado, sempre que possível.

IV - Como se evita a diarreia do viajante?

A diarreia aguda é a doença mais comum em viajantes. Estima-se que 60% dos viajantes que viajam para países em desenvolvimento é de 1-3%.

Apesar de representar uma morbilidade significativa raramente se torna numa doença grave.

Os dados apontam que um terço dos viajantes alteram significativamente as suas atividades devido a esta patologia.

Define-se diarreia do viajante, sempre que surgem mais de três dejeções de fezes não moldadas em vinte e quatro horas, associadas a febre, dor abdominal, cólicas, tenesmo, náuseas, vómitos e presença de sangue nas fezes.

A tipologia do quadro clinico divide-se em aguda aquosa, se persiste por um período inferior a duas semanas, persistente se tem um período superior a catorze dias e inferior a trinta dias, e diarreia crónica sempre que a sintomatologia é superior a seis semanas.

Designa-se por disenteria sempre que surge sangue ou pus nas fezes, tenesmo/dor à dejeção.

Relativamente à Epidemiologia, considera-se de baixo risco (<10%): na Europa Central e do Norte, Austrália e Nova Zelândia, Estados Unidos da América, Canadá e Singapura; de risco moderado (10 a 20%) no Caribe, África do Sul, países Mediterrâneos; e de alto risco (> 30%) na Ásia (exceto Singapura), África (exceto África do Sul), América do Sul e Central (incluindo o México).

Na maioria dos casos este quadro clínico surge nas primeiras duas semanas de viagem, tem uma duração média de quatro dias sem tratamento, sendo que a história natural da doença, em 90% dos casos resolve-se numa semana e em 98% resolve num mês.

Considera-se que existem grupos de riscos, onde se incluem os doentes imunocomprometidos (fenómeno translocação facilitada) (VIH CD4+ <200/ul; défice de IGA; imunossupressores; QT…), doentes com acidez gástrica diminuída (bloqueadores histamina H2, IBP), crianças, idosos e viajantes que fazem turismo de aventura.

Todavia, não podemos excluir a possibilidade de o viajante comum adquirir esta doença em mesmo que se encontre alojado em resorts de luxo ou quando viajam em cruzeiros.

Os agentes etiológicos são maioritariamente vírus, em Portugal e nos Países desenvolvidos, enquanto nos Países em desenvolvimento a responsabilidade do aparecimento da doença está associada a infeção por bactérias, sendo a E. Cóli a principal causadora desta doença, seguida de outros agentes invasivos como Camylobacter, Shigella e Salmonella não Typhi, ficando as Aeromonas e Vibriões não Cólera no grupo menos frequente.

Os protozoários (Giardia lamblia, Entamoeba histolytica, Cyclospora cayetanenis, Cryptosporidium), como agentes mais incomuns, porém, quando surgem manifestam-se por um quadro de duração significativa (superior a duas semanas).

Estas gastroenterites são mais frequentes em viajantes regressados, sendo o tempo de incubação da doença de uma a duas semanas, sendo tratados com antibióticos.

Considerando a distribuição geográfica da tipologia dos agentes infetantes a E. cóli (ETEC e enteroaderente) predomina na América Latina, Caraíbas e África (até 70% no México), a infeção por Campylobacter na Tailândia, Nepal e África, a Salmonella e Shigella, na África, Ásia e América do Sul, a Cyclospora c. é endémica no Nepal, Perú, Haiti e Guatemala, enquanto a Cólera surge habitualmente por surtos/epidemias. Apesar de haver a possibilidade de minimizar esta doença (Cólera) com uma vacina, a sua eficácia é pequena.

A diarreia bacteriana manifesta-se com um quadro de início súbito, com dejeções aquosas abundantes vs sanguinolentas, cólicas ligeiras a moderadas vs dor abdominal severa, anorexia, náuseas, vómitos associada a febre inferior a 39ºC, desencadeando assim uma desidratação mais ou menos severa conforme a persistência dos sintomas.

Por sua vez as diarreias de etiologia vírica, apesar do quadro clinico ter uma sintomatologia muito semelhante, não cursa na maior parte dos casos com a presença sangue nas fezes.

A diarreia por protozoários tem um início gradual de sintomas ligeiros (2-5 dejeções por dia).

Na maior parte dos casos as diarreias do viajante são facilmente resolúveis, mas podem cursar com complicações sendo as mais frequentes: desidratação; intolerância à lactose e sintomas gastrointestinais persistentes.

Como complicações mais raras, destacamos: Síndrome de Guillain Barré (Campylobacter); Síndrome Hemolítico-urémico (E. Cóli 0 157: H7); Síndrome de Reiter ou artrite reativa HLA-B27 positivo); Colite hemorrágica, Colite pseudomembranosa (após antibioterapia) e bacteriemia.

A diarreia persistente tem uma duração superior a trinta dias, tem início durante a viagem ou até trinta dias após regresso e a sua incidência ronda 1 a 3%.

V - Que cuidados devem ter as grávidas?

As grávidas que pretendem viajar devem fazê-lo com segurança e se possível devem programar as viagens para o segundo semestre.

Em primeiro lugar deve consultar o seu obstetra para que ele lhe esclareça se existe ou não risco para a viagem que pretende efetuar.

Se pretende viajar de avião deve informar a companhia aérea que esta grávida.

Os voos transnacionais, ou transoceânicos, poderão ser dificultados.

Algumas companhias proíbem o embarque de grávidas com gravidezes de risco ou com uma gestação igual ou superior a 36 semanas.

As gestantes com dificuldade em se deslocarem podem solicitar uma cadeira de rodas nos respetivos aeroportos bem como pedir ajuda no transporte da bagagem.

Devem hidratar-se bem durante o voo e usar meias de compressão elástica.

Devem usar sapatos confortáveis.

VI - Depois de regressarem de férias que cuidados as pessoas devem ter?

Em suma, todo o indivíduo que viaja, independente do país de destino e do seu estado de saúde, deve fazer a consulta pré-viagem 4 a 6 semanas antes da partida e a consulta do pós-viagem, mesmo que o objetivo da viagem tenha sido apenas e só de turismo de saúde, que inclui o turismo médico, turismo de terceira idade, termalismo e talassoterapia, turismo de bem estar, ou seja, turistas que viajam para manter o bem estar em regiões com paisagens e clima aprazíveis.

(*) Doutorada em medicina



publicado por Noticias do Ribatejo às 07:50
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