Por: Antonieta Dias (*)
O pensamento científico vai para além da escrita e da comunicação teórica, sendo que o brilhantismo numa apresentação oral resulta de uma aprendizagem e experiência baseada na evidência.
Um orador só pode ser bom se for assertivo na mensagem, quer seja em termos de qualidade ou de quantidade.
Quando assistimos a comunicações escassas, pobres de conteúdo e providas de recomendações miserabilísticas, ficamos feridos, magoados, traumatizados e injustiçados.
Se nos recordarmos das recomendações emitidas pela Direção Geral de Saúde, que promovem as medidas de vigilância necessárias para a prevenção das doenças e analisarmos o que na realidade se faz, temos que descrevê-las como um pesadelo que estamos a viver neste momento, porque não conseguimos concretizá-las.
Ao analisar se é oportuno fazer os rastreios, se vale a pena conhecer os hábitos dos pacientes, os seus antecedentes ou o dos seus familiares, para os podermos cuidar adequadamente, ficamos de certeza parados no tempo passado bem distante do presente e sem direção para o futuro.
Será que teremos a curto prazo indicadores que permitam construir um índice global de acesso aos cuidados de saúde? Sinceramente não acredito que isso seja possível neste momento.
Possivelmente a estratégia que está a ser montada, não irá contemplar a prevenção, o tratamento adequado e muito menos a salvaguarda da vida humana.
Quando somos confrontados com a opulência da classe politica e a degradação e miséria vivenciada nos tempos de espera nos corredores das urgências dos serviços públicos hospitalares e comtemplamos o sofrimento dos doentes que deveriam ser internados e permanecem nas macas dos hospitais onde até se fazem transfusões sanguíneas aos doentes sentados nas cadeiras e aí permanecem durante horas pois não existem vagas nas salas de observação para condignamente efetuarem os tratamentos num ambiente adequado. Como profissionais responsáveis não podemos ficar indiferentes e repudiamos esta vivência que tem de deixar de ser um pesadelo vivenciado e carregado de desumanidade que não cabe num contexto real de uma sociedade civilizada e livre que preconiza uma cidadania onde aplicação da igualdade dos direitos humanos é uma realidade e não uma quimera.
Porém ao constatar que mesmo depois de longas horas de espera, o doente regressa a casa com uma receita na mão e quando chega à farmácia verifica que a verba que tem disponível não chega para a aquisição dos medicamentos, sofre e chora e até se questiona se de fato teria valido a pena o sacrifício do tempo da espera, a permanência num ambiente inóspito e desolador, o investimentos técnico cientifico dos médicos para cuidar do seu bem esta se no fim de toda esta cadeia é confrontado com a impossibilidade económica de dispor da verba necessária para a compra dos medicamentos prescritos no receituário?
Segundo o estudo da Universidade Nova, divulgado a semana passada 16% dos portugueses deixaram de avir uma receita por causa do custo dos medicamentos.
Assim ao refletir sobre a mensagem de Sua Excelência o Sr. Ministro da Saúde onde diz que “há portugueses sem dinheiro para comprar todos os medicamentos, mas a situação seria “muitíssimo pior” sem as medidas que foram tomadas pelo Governo”, fico perplexa, desolada e profundamente triste.
Será que ainda não se tornou evidente que a saída em massa de cerca de 3000 médicos da função publica por aposentação teve por base as condições de inoperabilidade do Sistema Nacional de Saúde, vivenciado pelo drama sofrido pelos médicos aos quais não lhe são vetadas condições técnicas e humanas para cuidar dos seus doentes e eles não conseguem aguentar mais a angustia desta frustração e a única saída que encontram para esta frustração é o abandono do nobre trabalho que desempenham.
Sim porque a exigência e responsabilidade que lhes é imputada não é compatível com a forma como estão a ser tratados.
São estes eventos que nos fazem sentir que a saúde está em perigo e que a continuar assim não suportaremos muito mais medidas de austeridade cruéis que colocam vida dos doentes em risco.
A historiografia das ideias politica sobre a metodologia adequada aos programas de saúde está obscurecida pelo mito economicista, mergulhada nas trevas da ignorância e da barbárie.
As teses são demasiado falsas e as ideias de progresso desacreditadas, arriscando-nos a sofrer a amarga experiencia da morte antecipada pela carência de cuidados.
Este drama social, vivenciado pela sociedade civil, deixa a descoberto multifuncionalidades assistenciais fundamentais ao tratamento e ao controlo das doenças.
Os efeitos produzidos por decisões desprovidas do conhecimento científico das “legres artes” ficam mergulhados nas trevas da superstição onde o efeito da ausência da ciência e do conhecimento real é inexorável e desprovido da razão.
A amarga experiencia das decisões desenvolvidas pelo poder político, que controlam e vitimizam de forma nefasta e desumana os nossos doentes e os profissionais que os cuidam não se enquadram no contexto de uma sociedade livre e de progresso.
É legitimo questionarmo-nos se estas decisões sustentadas por carências económicas, cujos reservatórios cognitivos dos poderes públicos se encontram no limiar da legalidade e já começam a enveredar por uma organização ilícita, cujo impacto irá fragilizar ainda mais a sociedade civil vitimando-a e penalizando seres humanos indefesos, impreparados, desprotegidos e sem capacidade de se defenderem.
Nesta panorâmica desenvolvida no seculo das luzes, onde tudo se ultrapassa e se desrespeita para atingir uma única e exclusiva determinação fatalista e determinada por pensadores que vêm uma razão com olhos diferentes para uma realidade fatual desoladora.
Se por um dos olhos não sei se é o direito ou o esquerdo, colocam o enriquecimento ilícito como uma prioridade pessoal pelo outro determinam que a pobreza irá ser cada vez maior na sociedade civil, onde morrer ou viver pouco importa pois as pessoas nada vale.
Será que no passado onde o crime era entendido como uma falta grave, susceptível de aplicação de penas cuja eficácia era reconhecida como a forma assertiva de combater a criminalidade deixou de ter importância no Seculo XXI?
Será que a realidade histórica atual em que vivemos, terá deixado ficar uma outra interpretação do conceito de delito e o terá excluído do pilar do retrocesso da humanidade e o transformou num progresso?
Em suma, é um caso paradigmático para reflexão.
(*) Doutorada em medicina